01000000002 - Nós e a Água - Por Alfredo Marques - Environment Commodities

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Environment Commodities

Nós e a Água

Por Alfredo Marques*

Talvez em conseqüência do sucesso das civilizações egípcia e Mesopotâmica, sociedades fortemente dominadas pelo papel dos rios e por poderosos mitos, a água, e não os alimentos, logo incorporou qualidades divinas. Nas mãos dos Gregos, compartilhou com o Ar o Fogo e a Terra do papel de substância fundamental. A face mágica da água sobrevive em nossos dias em muitas cerimônias religiosas como as de batismo, banhos de purificação em rios santificados, nas águas ativadas por diferentes cultos espiritualistas, etc.. Os grandes conflitos da Antigüidade sempre envolveram disputas acirradas pelas águas e pelas terras, conflitos que a vontade dos deuses decidia soberanamente. Os vencidos, vítimas de sua ira, terminavam condenados à servidão, pobreza e fome.

O advento do cristianismo modificou a organização da divindade, mas apenas reorientou o misticismo: pobres e ricos continuavam réus, condenados ou absolvidos em julgamentos invisíveis onde um deus único tomava as decisões.

Thomas R. Malthus rompeu com o misticismo, enunciando uma razão objetiva para a divisão entre pobres e ricos. Atribuiu o avanço inexorável da pobreza à diferença de velocidades entre o crescimento das populações e o da produção de alimentos. Segundo ele, enquanto a produção de alimentos cresce pela adição de novas glebas, a população cresce por multiplicação; cedo ou tarde a produção de alimentos torna-se insuficiente, deixando pobreza e fome no seu rastro. Pregou a contenção do crescimento populacional como a única forma de superar essa contingência.

O futuro mostrou que vários pontos do pensamento de Malthus estavam incorretos; por exemplo, há casos em que as populações entram em regime de extinção, decrescendo em vez de crescer progressivamente. Também desconhecia as possibilidades que o futuro tecnológico veio abrir para o crescimento na produção de alimentos, substituindo a anexação de novas áreas, pelo aumento da produtividade da terra. A despeito de essencialmente incorreto o pensamento de Malthus permanece válido enquanto resultado prático: a fome aumenta impiedosamente, assolando parte ponderável da população do planeta, a despeito do progresso na produção de alimentos. Há quem diga que não se trata da Lei, mas de Maldição do Malthus.

O mérito de Malthus sobreviveu na coragem de transferir o problema da área religiosa para a área do pensamento racional.

Outro equívoco da abordagem malthusiana foi o de desconsiderar a necessidade da água para a produção de alimentos. Não que achasse dispensável, provavelmente, mas porque essa componente parecia originar-se de um reservatório infinito, inesgotável; incluí-la seria assim uma complicação desnecessária do problema. O Dilúvio bíblico, a chuva copiosa na Europa, o mar imenso, embora salgado, contendo quantidade incalculável daquela substância, o gelo das calotas polares, as neves eternas no topo das montanhas elevadas, as novas reservas hídricas reveladas pelos descobrimentos do final do século XV, tudo convergia para justificar a idéia de que o conteúdo em água do planeta ultrapassava qualquer limite presumível, podendo ser tomado, para efeitos práticos, como infinito.

No final do século XVIII, quando Malthus divulgou suas idéias, ninguém se dava conta, em contrapartida, das enormes quantidades de água requeridas para sustentar a vida. O peso de um ser vivo tem uma componente hídrica extremamente elevada, não raro 70%-80% e mesmo mais. Assim, considerada a enorme massa dos reinos Animal e Vegetal, vê-se que a sustentação da vida imobiliza quantidades de água tão fantásticas quanto aquelas dos reservatórios naturais acima alinhados. Sem contar aquela retida em minerais e rochas da crosta da Terra no processo de sua solidificação. Cada novo ser que nasce, cada homem, cada coelho, cada repolho, à medida que se torna adulto, incorpora quantidades de água progressivamente crescentes e dessa forma o crescimento da população também pressiona os recursos hídricos. É verdade que alguma água nova é fabricada nos organismos vivos a partir do Oxigênio e da massa de reserva energética acumulada com a ingestão de nutrientes; entretanto a água é um poderoso solvente e praticamente toda a produção eliminada, contém em solução componentes diversos que tornam inviável seu reaproveitamento sem tratamento prévio.

Quais as possibilidades de agregar novos recursos hídricos? Fundir o gelo das calotas polares ou as neves eternas das montanhas é façanha cujas conseqüências são imprevisíveis em termos de modificações climáticas, dos regimes oceânico e dos ventos e de alteração de alguns movimentos do planeta. Nova água pode ser obtida por purificação, dessalinizando a água do mar ou a água salobra de aqüíferos subterrâneos, mas esses processos consomem quantidades colossais de energia elétrica cuja produção, além de custosa, seja por via nuclear ou combustão de combustíveis fósseis, envolve turbinas a vapor e, portanto, água em abundância. Para não falar na geração hidráulica que ainda imobiliza quantidades maiores do precioso líquido. O uso de aquecedores solares para destilar a água tem sido empregado com algum sucesso no Oriente Médio, a peso de ouro, mas numa escala ainda muito abaixo das necessidades de uma grande metrópole. A água também pode ser obtida como produto final de diversas reações químicas, mas sua condição de poderoso solvente torna em geral o método inviável, a menos que todos os produtos tomando parte na reação sejam insolúveis - uma autêntica raridade. Pode ser sintetizada a partir de Oxigênio e Hidrogênio, mas além do custo da obtenção desses gases o processo é extremamente perigoso, dada a violenta liberação de energia na reação; em escala de laboratório tudo bem, mas para sustentar uma megalópole é impensável. Algum progresso pode ser atingido na prospecção de novos aqüíferos subterrâneos, embora se corra sempre o risco de encontrar água imprópria para o consumo. Nada muito brilhante quando se projetam as necessidades para fazer face ao crescimento da população do planeta no primeiro quarto do século XXI.

A situação parece muito mais dramática do que a encontrada por Malthus no confronto população x produção agrícola. Não há muito espaço para acrescentar água, nem mesmo linearmente. Resta o progresso tecnológico nessa área, mas não se pode fechar os olhos às suas limitações atuais e apostar cegamente em alguma solução adequada dentro de um futuro compatível com o agravamento da carência. Um cenário mais provável, face os aspectos emergentes do processo de globalização, é que os países do bloco desenvolvido retardem as pesquisas em novas tecnologias para proteção e reciclagem da água, pela transferência das indústrias mais poluentes e devoradoras de água para as regiões periféricas do planeta.

Vale a pena lembrar que a presença de água faz da Terra um planeta muito especial dentre seus companheiros do sistema solar. Nenhum outro a possui nem tampouco a possibilidade de sustentar vida biológica. A atmosfera da Terra primordial tinha uma composição semelhante às de seus companheiros do sistema solar; a formação de água se tornou possível por uma conjunção rara de fatores, combinando a velocidade de resfriamento, a termodinâmica dos gases e estado elétrico, com reações químicas que levaram à água como produto final. Foi um evento insólito, de rara ocorrência mesmo em termos siderais. A água é, assim, desde o nascimento, uma substância preciosa e rara. Não se pode esperar que a história se repita: que as viagens interplanetárias estendam, em futuro previsível, os limites de nossos horizontes hídricos, como o fizeram os grandes descobrimentos.

Do machado de pedra ao computador a água foi uma presença constante na história da civilização. A horda primitiva deixou de ser gregária quando encontrou a bacia dos rios que durante milênios dominaram o progresso, influindo claramente na urbanização, na agricultura, no saneamento, no escoamento da produção, no comércio marítimo, etc. A água também inspirou a formação dos instintos mais agressivos do ser humano, quando sua carência levou as tribos primitivas a lutar até a morte pela posse das cacimbas. É, assim, um insumo que tem muito a ver com a essência do comportamento humano. Não seria um exagero cogitar da possibilidade de uma regressão a valores primitivos, caso a carência de água se agrave e prolongue pelos anos.

Assim é de todo necessário que as providências mais urgentes sejam planificadas e sobretudo, levadas à prática, enquanto o computador e o satélite podem ajudar na formulação das questões e na proposição de soluções. Tudo que se pode fazer cabe, entretanto em três conceitos simples: proteção, racionalização do uso, reprocessamento. Cada um desses temas envolve esforços colossais, face às dimensões que o problema da água e suas tendências de crescimento já atingiram. O homem moderno encontra assim, novamente, o enigma de sua velha companheira, a Esfinge: ou o resolve ou será engolido.

Alfredo Marques* é Pesquisador Titular Aposentado do CNPq, Diretor Científico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas;Professor Titular Visitante da UNICAMP; Livre Docente e Doutor da cadeira de Física da Escola Nacional de Química UFRJ: email:serena@npoint.com.br


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