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01027053001 - Environment Commodities x Finance - Seção Remember... - Revista Rural - Porto Alegre Fevereiro/2000 - A Energia que vem da Natureza - Por Nelson Moreira - 26/07/00,14:49:01

Environment Commodities x Finance - Seção Remember...

Revista Rural - Porto Alegre Fevereiro/2000

A Energia que vem da Natureza

Por Nelson Moreira*

O Brasil é rico em sua natureza. Não é uma frase ufanista. Ao contrário. É a realidade constatada já no seu descobrimento, e descrita ao rei de Portugal, por Caminha. Cientistas e pesquisadores, brasileiros e estrangeiros têm realizado diversos trabalhos no sentido de descobrir as potencialidades de toda a flora do país. Redes de ambientalistas falam até em biopirataria. Pessoas que estariam levando do Brasil, importantes materias primas para a produção de medicamentos, e outros tipos de produtos. Por aqui, temos um conhecido pesquisador. Engenheiro e físico, professor das universidades da Bahia, Brasilia e da Unicamp, por três vezes Secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio Físico Nuclear José Walter Bautista Vidal, criador do programa Pró-Álcool, que solucionou a dependência do país em relação ao petróleo, criando uma alternativa energética. Vidal, tem defendido a tese de que existem muitos outros produtos, dentro da natureza, capazes de gerar fontes de energia e de riqueza dentro da agricultura. Este é nosso tema.

Revista Rural - Sr. Vidal, como o sr. foi parar no programa do pró-alcool?

José Walter Bautista Vidal- Quando ocorreu o embargo do petróleo, em 1973, eu estava em Austin, na Universidade do Texas, como professor visitante. Austin fica ao lado de Houston, onde se localizam as matrizes das grandes corporações de petróleo. Pude então conversar com os principais dirigentes dessas corporações que estavam revoltados com a política norte-americana que favorecia Detroit, onde se localizam as principais indústrias automobilistas norte-americanas. Essa política mantinha o preço do petróleo muito baixo para permitir permanente expansão dessas indústrias. O embargo provocou o colapso dessa política e as grandes corporações de petróleo levaram avante a ruptura baseando-se então no conhecimento das limitações das reservas de petróleo e no fato que os principais países produtores estavam organizados na OPEC. O que ocorreu então todos têm conhecimento. A sociedade americana ficou histérica pela falta de combustível e pela elevação de seus preços.

Ao chegar ao Brasil, em fevereiro de 1974, Severo Gomes, que seria oministro da Indústria e do Comércio, convidou-me para ser o Secretário de Tecnologia Industrial desse Ministério. Reuni equipe de engenheiros e físicos de larga experiência e levantamos a situação energética mundial. Reconhecemos então ter o Brasil elevado potencial energético, renovável e limpo, a partir da biomassa tropical. Não existia porém tecnologia atualizada disponível, o que nos encarregamos de desenvolver montando o que se tornou o melhor grupo do mundo em desenvolvimento tecnológico para uso desses combustíveis. Primeiro resolvemos o problema de misturar álcool anidro à gasolina e depois a adaptação dos motores de ciclo Otto para o uso exclusivo do álcool. Esse domínio tecnológico foi transferido para as subsidiarias das corporações automobilistas com fábricas no Brasil. O papel do Estado brasileiro foi fundamental nesse processo, criando condições tecnológicas e políticas para tornar realidade nossas evidentes vantagens comparativas.

Revista Rural - Porque ele sofreu um esfriamento?

Vidal - O êxito obtido pelo Brasil foi incontestável. Estávamos preparados para substituir o óleo diesel de petróleo pelos óleos vegetais em condições até mais fáceis do que ocorreu com a gasolina. Na realidade, o que queríamos substituir era o petróleo e não apenas um de seus derivados. Quando isso ia se realizar, surgiu o bloqueio devido a pressões internacionais que terminaram impedindo a expansão do programa ao óleo diesel; assim como garrotearam o Proálcool cortando o crédito aos pequenos produtores de cana que representavam cerca de 50% dos fornecedores. Ai faltou álcool, criando o descrédito. Então cerca de 98 % dos carros novos de ciclo Otto já usavam o álcool, o que foi invertido para 1%!

Revista Rural - Que outras fontes de energia, podem ser extraídas da natureza?

Vidal - O álcool etílico é apenas um dos combustíveis renováveis extraído da biomassa - hidratos de carbono formados nos vegetais graças à fotossíntese, entre os quais destacamos os açúcares, os amidos, os óleos vegetais e a celulose. A cana de açúcar é um dos vegetais que permite a produção de combustível para os motores de ciclo Otto. A mandioca é outro, entre muitos outros. O Proálcol representou apenas a ponta de um imenso "iceberg" capaz de tornar o Brasil o grande produtor mundial de combustíveis renováveis e limpos. Foi isso que assustou as nações hegemônicas e, em especial, as corporações de petróleo e automobilistas, todas com sede em países não tropicais e portanto sem condições de produzirem essas excepcionais alternativas aos derivados do petróleo. Faltam-lhes sol, água e grandes extensões de terras ainda não ocupadas

Rural - São necessários muitos recursos financeiros para isto?

Vidal - Os recursos financeiros deveriam ser apenas símbolo de riqueza e não papel pintado sem lastro, fruto de emissões arbitrárias e fraudulentas do sistema financeiro internacional. O que deveria contar se não vivêssemos em uma tirania financeira de moeda fictícia seriam os recursos naturais que permitem a criação de riqueza e, portanto, a emissão de dinheiro verdadeiro, sempre por conta de uma riqueza nova e, neste caso, estratégica: a energia líquida que substitui os derivados do petróleo. Isso, porém, a fraudulência do dinheiro especulativo atual impede. Vivemos em uma camisa de força especulativa em que a produção de verdadeira riqueza nada vale ...

Rural- Qual o potencial do Brasil para produzir estas outras fontes?

Vidal - É enorme. Somente em área levantada pela EMBRAPA na Amazônia, apta para o dendê, permitiria a produção de cerca de seis milhões de barris por dia de óleo vegetal substituto excepcional do diesel artificial obtido do petróleo. Esta produção é equivalente à produção de petróleo da Arábia Saudita antes do bloqueio imposto ao Iraque. Os motores Elsbett, de ciclo diesel, chegam a fazer 40 kilômetros por litro de combustível, em comparação com 7 e 8 dos motores convencionais. Também existe grande potencial visando a produção de calor e de eletricidade a partir da lenha, carvão vegetal e gás de madeira, este para acionar turbinas de alta eficiência na produção de eletricidade. Também na siderurgia a substituição do carvão mineral importado pelo carvão vegetal é uma excepcional alternativa, limpa e renovável, vinda do campo. Isto representa a solução para a redução do terrível efeito estufa e da chuva ácida. O Brasil, sendo o continente tropical, com esse imenso potencial, tem estado de costas para a ele, por causa da alienação da cabeça de seus dirigentes que se comportam como mentes colonizadas. É evidente também que as pressões que a opção suja e não renovável dos países não tropicais representam um grave impedimento.

Rural - Dizem que já existem motores funcionando com outras fontes, caso da mamona. Isto é verdade?

Vidal – Além do dendê existem nos trópicos centenas de óleos vegetais excelentes para substituir o diesel de petróleo, entre os quais a mamona. Os motores Elsbett que queimam óleo vegetal sem qualquer tipo de problema podem ser produzidos no Brasil desde que se criem condições para a substituição do óleo diesel de petróleo. O Centro Técnico Aeroespacial - CTA desenvolveu motor para uso de álcool ou gás com potência de 180 CV, ou seja, aplicável no transporte coletivo e em caminhões.

Rural - Como é o processo de industrialização?

Vidal – Em geral a obtenção de óleo vegetal combustível é obtida por simples esmagamento mecânico e filtragem, o que pode ser feito no campo. Caso se pretenda usar os óleos vegetais nos motores diesel convencionais é preciso retirar a molécula de glicerina contida nesses óleos. Isto se faz pela transesterificação dos óleos.

Rural - E o babaçu?

Vidal - Do babaçú extrai-se óleo das amêndoas; excepcional carvão vegetal para a siderurgia do mesocarpio; amido, portanto álcool, do endocarpio e ainda calor da sua parte externa. Da queima para a produção de carvão vegetal se obtém uma série de produtos químicos industriais. Do babaçú, portanto, pode-se obter três combustíveis e ainda uma babaçú-química

Rural - Todas estas fontes podem virar alternativas de plantio, como é o caso da cana?

Vidal - Tudo depende das condições edafo-climáticas, sempre respeitando as tradições de cultivo regionais.

Rural - Como o produtor rural pode ser ativo participante deste processo?

Vidal - Com a criação das condições de infra-estrutura, desenvolvimento tecnológico e definição de políticas do Estado. Jamais essas condições existirão se depender apenas do mercado. O óleo de baleia retardou trinta anos o uso do petróleo ....

Rural - Porque este tema ainda não é largamente debatido?

Vidal - Porque existe um monolítico bloqueio nos meios de comunicação de massa, fruto do domínio absoluto do mercado pelas corporações do petróleo e automobilistas estrangeiras.

Rural - O Sr. tem idéia do custo de produção/implantação de 1 hectare de alguma destas culturas?

Vidal – Se convertemos a realidade física em moeda controlada de fora do País, com essas taxas de câmbio e de juros, não há vantagem comparativa que resista à "livre" concorrência do mercado. São outros os fatores que precisam ser considerados. E as externalidades dos economistas como o desemprego, a vida das pessoas nos grandes centros urbanos, as gravíssimas questões ecológicas, não contam? Quanto custa o desmoronamento das rodovias que ligam a cidade de São Paulo ao mar, Imigrantes e Anchieta, provocado pela destruição das florestas que protegem as encostas devido à chuva ácida provocada pela queima de combustíveis fósseis?

Rural - Estas fontes podem criar um agronegócio como é o caso da cana de açúcar?

Vidal – Muito mais do que isso, imediatamente, porém isso é perfeitamente possível. Para responder a esta pergunta, listando as alternativas sob total controle de custos dos produtores, precisaria a revista inteira.

Rural - Qual o potencial de faturamento?

Vidal – O ocaso dos combustíveis fósseis abre uma perspectiva enorme para os combustíveis derivados da biomassa extraordinária. A redução das reservas de petróleo – hoje o controle do petróleo é uma questão militar com a ocupação armada do Oriente Médio, onde se localiza 80% das reservas mundiais - e o efeito estufa obriga à redução da queima do carvão mineral, além da chuva ácida. As únicas alternativas à substituição dos derivados desses fósseis são os combustíveis de origem vegetal dos trópicos. Ou seja, surge a grande oportunidade histórica que nenhum povo jamais teve. Isto porém exige medidas de médio e longo prazos que permitam o preparo da estrutura produtiva para esse gigantesco desafio, o que não está sendo feito. Transformar o Brasil em um dos principais fornecedores mundiais de energia não é tarefa fácil. O começo como não poderia deixar de ser deveria ser o mercado interno. Entretanto continuamos importando esses combustíveis. No ano passado só de petróleo gastamos seis bilhões de dólares e os preços internacionais continuam crescendo, eles tiveram aumentos de 150% no último ano. O aumento de faturamento depende naturalmente da nossa capacidade de transformar esse potencial em realidade.

Rural - Os países estrangeiros, veriam esta alternativa com bons olhos?

Vidal – Os EUA têm petróleo em seu território para apenas cinco anos. A Alemanha, Japão, Itália, França etc. não têm petróleo. Qual as alternativas deles para esse combustível fóssil? Nenhuma. O que tem sido feito pelo Brasil para preencher esse terrível vácuo ? Nada. Evidente os interesses das corporações de petróleo não coincidem com o interesse dos países. Os bons olhos precisam transformar-se em realidade para que sejam dirigidos em nossa direção.

Rural - Em quanto tempo teríamos estas fontes, gerando energia?

Vidal – O potencial é imenso e nada foi feito para decidir por onde começar como serão as etapas seguintes. São tantas as preliminares que é muito difícil responder a essa pergunta. As hipóteses são muitas, mas quais e quando serão implementadas ?

Rural - Existem formas de gerar energia elétrica sem depender exclusivamente de usinas ou de motores?

Vidal – O que está em jogo não são as usinas ou os motores mas os combustíveis alternativos aos fósseis, que entram no ocaso. As avaliações mais consistentes mostram o imenso potencial brasileiro, capaz de abastecer as diversas carências mundiais que começam a se manifestar de modo claro e irretorquível

 

Nelson C. da Cunha Moreira* é Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, há 13 anos atua no setor rural. É diretor da Agropress Agência de Comunicação, editor de agronegócio da revista Rural. É consultor de conteúdo de sites - email:  nmoreira@cpovo.net

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