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02000000006 - Space Commodities  - Escolha seu (ua) candidat@ - Um jeito e amor: cacos para um vitral - Por Kusum Toledo 03/09/00

Space Commodities  - Escolha seu (ua) candidat@

Um jeito e amor: cacos para um vitral

Por Kusum Toledo*

Em 30 de agosto pp, a rede CTA divulgou artigo de Stephen Kanitz intitulado Administração Feminina e me chamou a atenção o olhar do autor sobre a presença da mulher na gestão empresarial e, mais que isto, sua esperança de que o voto na mulher traria, automaticamente, as mudanças desejadas e necessárias no exercício do poder e uma qualidade de bem estar à sociedade brasileira. A polarização/generalização homem versus mulher vem me incomodando e a apresentação da mulher como poção mágica aos desafios do horizonte e do cotidiano às vezes me toca como um recurso que abandona a complexidade das coisas tecidas juntas. Daí que me propus a refletir no coletivo e por escrito sobre alguns pontos.

Recém venho  de um seminário, Gênero, Participação Comunitária e Manejo de Recursos Naturais, onde discutimos uma evidência constatada em estudos de caso e empiricamente por todos que trabalhamos com etnoconservação e participação comunitária no manejo de áreas protegidas, presentes ao seminário. Qual era essa evidência? A de que se observava, com assustadora freqüência, a reprodução de padrões autoritários e opressivos na condução de associações, trabalhos e afins por parte das mulheres. A discussão nos conduziu a reformular aquilo que via de regra vimos identificando como modelos 'masculinos' de gerência, como se autoritarismo e opressão fosse exclusividade deste gênero.

Minha percepção me conduz à pensar que, na realidade, muito mais que 'masculinos' se tratam de padrões gerados no útero duma organização social fincada na competição, na ganância, na separação e na exclusão. No autoritarismo, na opressão,  na manipulação e na inveja. Historicamente, tendo o homem se responzabilizado pela atuação no mundo 'lá fora', consolidou modos de agir a ele afinados. Mas a mulher os reproduz dentro de casa, e fora também. O mundo do trabalho e o mundo do lar são partes do mesmo universo: com naturalidade e 'bom senso' pais e mães estimulam a rivalidade e a competição entre os filhos, tal qual uma empresa atiça vaidades de seus funcionários pra que rendam mais, na direção que interessa aos lucros da empresa. Nas escolas, professores e professoras igualmente reproduzem este modelo, de resto exacerbado na publicidade. Em seu artigo, Stephen Kanitz escreve: "As poucas mulheres que galgam os altos escalões das 500 maiores, com todo o respeito que elas merecem, o fazem dançando a música dos homens. A contragosto, precisam dar uns socos na mesa de vez em quando e soltar alguns palavrões por aí". E ele está certo, só discuto o à contragosto: conheço várias que deliram com a possibilidade deste exercício e, quando questionadas, justificam seu movimento inclusive pelo sentimento de revanche, o "agora é a minha vez". Além do mais, nunca me esquecerei de uma fala de Ronald Reagan sobre a 'dama de ferro' inglesa

"- Mrs. Tatcher é o homem que eu gostaria de ter no senado americano". Sem comentários. 

No  'Administração Feminina', artigo que estou tomando como referência para esta conversa, Stephen Kanitz diz ainda "Sendo franca minoria, as mulheres nunca conseguem impor sua forma própria, um estilo feminino de administração". E prossegue: "As 400 maiores entidades nacionais beneficentes são muito mais bem administradas do que a maioria das empresas brasileiras, por mais absurda que possa parecer esta minha observação. Existem várias razões para esse desempenho superior das entidades beneficentes. Clareza de propósito, ética, motivação dos funcionários, satisfação pessoal com os resultados. Mas a principal razão para mim é bem clara: a grande maioria, se não a totalidade das 400 maiores entidades, é administrada por mulheres. Lá elas conseguiram impor, sem sombra de dúvida, seu estilo feminino de administrar, com técnicas novas, com concepções novas de gerenciamento, calcadas em relacionamentos e não em orçamentos, uma administração mais leve, suave, num ambiente mais divertido."

Proponho que a gente pense a partir do objetivo destas empresas, radicalmente diferentes daqueles voltados à produtividade monetária, à produção de mercadorias para um mercado estressante, competitivo, onde ou você ganha ou é excluído. Será que mais que feminino ou masculino não é o motivo da existência da empresa que torna possivel as características/diferenças que vc observou em seu estudo?

Para finalizar, penso que poder votar em mulher - assim como em índios, negros, homossexuais, deficientes físicos e outros segmentos sociais - é, na realidade, o reconhecimento público do direito de cada cidadão de se apresentar como candidato; é a visibilidade do exercício não discriminatório; e a ampliaçao das nossas possibilidades de escolha, pela inclusão de um gênero a mais no leque de opções. Deste ponto de vista é um passo além. Mas uma sociedade mais leve, mais divertida, suave e amorosa não é uma questão de gênero. Votar em mulher por ser mulher, é quase o mesmo que atribuir uma situação de liderança a um homem porque ele é homem: o buraco é mais embaixo, as escolhas se vinculam a jeitos de viver, de criar. de construir e de sonhar o mundo, um mundo de homens e de mulheres. E de aves, de plantas, de água, solo, ar e tudo o mais que vive nesse nosso planetinha azul, cosmicamente pulsando e interagindo num universo infinito.

Homens e mulheres, sei que temos nossas singularidades, nossas diferenças desde à biologia e eu amo cada uma delas. E mais que tudo, sei que somos complementares, a unidade dos contrários.

Kusum Verônica Toledo é pesquisadora e educadora ambiental, trabalha com participação comunitária no manejo de recursos naturais. kusumtoledo@netpar.com.br

Este texto foi originalmente comentado e incorporou contribuições de Odilon Vargas Toledo, Amyra El Kalili, Mauricio Mercadante e Arthur Soffiati

* combinação de falas múltiplas by Adelia Prado


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