02000000009 - Space Commodities - Produção e Inteligência: A Importância de Cada Um - Por Fernando A. Dal Piero 08/11/00


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Produção e Inteligência: A Importância de Cada Um

Por Fernando A. Dal Piero*

"NÃO: NÃO quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem de moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus me livre, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna.
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo direito de sê-lo.
Com todo direito de sê-lo, ouviram?

[...]
Deixe-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

[...]
NÃO SOU nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte a isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Poesias. Fernando Pessoa 1996)

A atual civilização está enraizada em diversas rupturas epistemológicas que são exclamadas na poesia de Fernando Pessoa, nas falas dos executivos e nos textos jornalísticos dos nossos tempos.

No âmbito da gestão empresarial, as organizações exigem cada vez mais que os seus empregados tenham uma visão generalista, privilegiando o pensamento dito criativo e inteligente em detrimento da produção. Diz-se até que o ato de produzir não interessa estrategicamente!

No campo da educação, fala-se em promover o aprendizado por meio da multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e pluridisciplinaridade o que tem levado a se enfocar uma apresentação de várias competências simultaneamente esquecendo – espero que deliberadamente e por curto tempo – de estabelecer guias para a abordagem até o coração do conhecimento científico e do treino nos métodos que ajudam a distinguir o real do ilusório. São tantas as opções e variáveis que nos confundem. Temos o progresso técnico sem equivalente visão de que é impossível isolar o ser vivo de seu ecossistema e que a missão do ser humano é reconciliar e integrar os opostos, explorando holisticamente a educação, a saúde, a produção e a inteligência.

Parodiando com as palavras de Pessoa, neste artigo, não pretendemos concluir. Não vamos apresentar sistemas complexos. "Não quero nada". Apenas vamos contar uma história. Uma história que começa entre o fim da Idade Média e o começo do Renascimento, quando houve uma profunda separação entre o sujeito e o objeto, entre a cultura humanística e as ciências experimentais e quando se passou de uma visão tradicional ternária do homem, tido como sendo composto de corpo, alma e espírito, para uma visão binária corpo e espírito, na qual o elemento mediador, a alma, foi suprimido.

Essa ruptura acabou em uma outra, que se consumou no séc. XIX, quando a teoria do conhecimento se apoiava em uma visão mecanicista, separativista e cientificista, e que reduziu o real a um único nível e o homem a apenas sua dimensão física, enquanto sujeito ou objeto. Nesse tempo, imperava o esforço pelo "especialismo" e a repetição produtiva em substituição ao "de tudo um pouco", essencialmente generalista, que era visto como improdutivo. O sistema, então, dizia-se, precisava de gerentes capazes de organizar, controlar e manter a força de trabalho – recursos humanos – em torno de objetivos específicos, ainda que se concedesse a alguns o privilégio de pensar diferente, dentro de certas normas. Mas hoje, lemos e ouvimos falar que é preciso integrar os diversos níveis do conhecimento e da competência, mais flagrantemente dicotômicos no mundo dominante, uma vez que a crise da modernidade se origina dessas rupturas e é nutrida por elas. Entretanto, ainda que a tônica do discurso seja modernizante, não somos capazes de transformar o presente para indicar o futuro. Ainda estamos agarrados ao paradigma reducionista. Pregamos então que nações e pessoas devem formar competências essenciais sobre essa ou aquela vertente socioprodutiva quando, na verdade, precisamos apenas entender que o produto final, seja ele qual for, é resultado da aplicação de um conjunto de habilidades e conhecimento. O todo é maior que a soma das partes, como nos disse William Blake.

Pensamos que essa dificuldade que estamos vivendo é devido a inabilidade que temos para perceber que a sabedoria, a mais das vezes, não vem apenas da forma convencional, por intermédio da erudição. A "boa operação" ou decisão empresarial é resultado da capacidade do decisor de perceber as influências do ambiente, de articular as diversas fontes de conhecimento e principalmente de acreditar não que a sua liberdade de intervir termina quando começa a do outro, mas sim que ela começa quando ele pode somar a outros e assim trabalharem para disponibilizar produtos ou serviços, fazendo crescer a competitividade e transformando o mundo num lugar em que se viva bem.

Pode ser difícil vencer barreiras seculares. No entanto, neste momento das nossas sociedades, é muito mais imperativo o esforço para encontrar as leis fundamentais da vida e monetizar a consciência social, ecológica, planetária e espiritual própria da antropologia globalizante, a que Michel Camus (Congresso de Locarno – CIRET- UNESCO, 1997) chamou de "... recentralização do ser humano sobre sua própria riqueza interior e por sua reorientação em direção a uma simplicidade de ser, cada vez mais viva, consciente e integrada" do que ficar discutindo sob a "nova antiga lógica Decartiana" se criação é mais importante do que produção.

Esse processo de reeducação exige muito de cada ator social, especialmente o entendimento de que técnica, habilidade e o conceito (criatividade, inteligência e produção) formam flechas que partem do mesmo arco: o arco do conhecimento. Para vencer o desafio imposto, precisamos combinar a disciplinaridade, a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade que são os métodos pelos quais iremos compreender como contextualizar, concretizar, globalizar e abstrair. É isso o que nos permitirá estabelecer as pontes entre as diferentes disciplinas do conhecimento coligido, entre essas disciplinas e os significados e nossas habilidades interiores. Dessa forma, naturalmente teremos aprendido a fazer, com cientificidade, o que certamente significa a aquisição de uma profissão, seja de economista, administrador ou cientista. Dessa forma, não trataremos de pensar que o valor agregado da produção seja menor do que o da criação.

Como a citação de Pessoa recomenda, também vamos tirar a metafísica. Não quero apregoar sistemas completos, não vou enfileirar conquistas. Até porque a ciência contemporânea já mostrou que essa concepção mecanicista do universo não é mais defensável, mesmo sob o ponto de vista estritamente científico. Mas desejamos afirmar que a humanidade precisa vivificar a dimensão da esperança, enraizar-se na demanda concreta da educação e da habilidade, privilegiando e associando o espírito de responsabilidade perante nosso planeta com uma aspiração genuína pela evolução contínua da sociedade e da dimensão individual do ser humano. Só assim vamos começar a formação de um contexto econômico, político, social e cultural no qual valores como a ética, a cidadania, a liberdade, a justiça social, a igualdade, a consciência da totalidade do ser humano e o poder do conhecimento poderão ser discutidos e incorporados à realidade de maneira a nos permitir criar e configurar os novos paradigmas.

O significado de paradigma para Capra (1995, p.17) corresponde à "totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão de realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza". O surgimento de novos paradigmas é, portanto, resultado de um processo evolutivo que envolve uma análise da realidade presente e a busca de novas alternativas para os problemas vigentes.

Se a realidade presente é, fundamentalmente, reflexo dos pressupostos do paradigma cartesiano-newtoniano, que se caracteriza por um condicionamento materialista, mecanicista e reducionista e tem nos trazido desequilíbrio ecológico, elevados índices de violência e permitido a permanência de uma situação de miséria em que vive grande parte da população, isso revela que a mudança paradigmática se configura como "uma questão de sobrevivência para a raça humana" (Capra e Steindel-Rast, 1991, p. 79). É preciso, então, vencer o desafio do "homem que se fez máquina" e robotizou a sua mente e mecanizou sua rotina existencial. É preciso encetar uma busca pela renovação das concepções básicas que orientam a conduta humana. Especializar-se, mesmo que seja em inteligência, é reducionismo, é permanecer robotizado, não é evolução.

Não é verdade que cada vez fica mais difícil encontrar lugar para o ser humano que aperta, ad infinitum, o parafuso que lhe cabe? Está longe o tempo no qual o filósofo pensa, o matemático calcula, o seminarista reza, o padeiro faz o pão, o poeta sente, o marceneiro martela, o místico delira, o cientista comprova, o professor ensina e tantos parafusos mais. Todos dependemos de todos.

Por tudo isso, os novos tempos indicam que os próximos paradigmas contemplarão um processo de flexibilização e adaptabilidade das organizações devendo resgatar o lado substantivo da razão humana, trazendo para dentro do espaço organizacional a capacidade de reflexão e de análise crítica que transforma o homem em participante e sujeito do processo de aprendizagem, não apenas um produto deste. É importante esclarecer, no entanto, que isso não pode significar a completa destruição da burocracia do método e da produção. As dimensões burocráticas e os métodos serão sempre identificados no espaço socioprodutivo, sob pena da destruição das organizações, pois muitos fenômenos sociais que lhe deram origem permanecem presentes. Por isso insistimos em dizer que produção e inteligência são faces da mesma moeda. Como diz Pessoa: " Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo direito de sê-lo. À parte a isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo".

Numa perspectiva mais ampla, que extrapola os limites da organização, Ferguson (1980) analisa essa fase de grandes transformações como o surgimento de uma nova mentalidade – a ascensão de uma surpreendente visão de mundo que reúne a vanguarda da ciência e visões dos mais antigos pensamentos registrados. A partir dessa concepção, o autor identifica os principais aspectos que representam a delimitação entre o antigo e o novo paradigma que apresentamos, de forma sintética, no Quadro 1 a seguir.

Quadro 1: Comparações entre o Paradigma Atual e os Novos Paradigmas

PARADIGMA ATUAL

NOVOS PARADIGMAS

Consumo indiscriminado

Consumo consciente

Pessoas que satisfaçam ao trabalho

Trabalho que satisfaça as pessoas

Imposição de objetivos e educação que privilegiem o intelecto

Autonomia e auto-realização, conciliação entre efetividade e afetividade

Fragmentação e ruptura entre ciência e cultura

Transdisciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e pluridisciplinaridade, união das culturas artificialmente antagônicas

Competição

Colaboração e cooperação

Trabalho como meio para atingir um fim

Trabalho como meio de realização

Manipulação e domínio do futuro

Cooperação com a natureza e visão orgânica do trabalho e da riqueza

Estabilidade

Transformação constante

Valores econômicos - avaliação do progresso pelo produto

Valores espirituais - o contexto do trabalho é tão importante quanto o conteúdo: não exatamente o que se faz, mas como se faz

Subserviência à tecnologia

Tecnologia como instrumento

Fonte: Elaborado a partir da obra de Ferguson. (1980)

Diante de tudo o que vimos analisando, não podemos concordar com qualquer dicotomia, especialmente entre produção e inteligência, criação e ação. Acreditamos firmemente que, se quisermos conciliar a exigência da competição e a preocupação com oportunidade e distribuição de bem-estar igual para todos os seres humanos, cada atividade/profissão deverá ser tecida de maneira a atar, no interior dos seres humanos, fios, unindo-os às outras ocupações. Não se trata simplesmente de se adquirirem várias competências ao mesmo tempo, de estar mais apto a pensar do que a agir, mas de criar um núcleo interior flexível e uma via de trânsito capaz de permitir um rápido acesso tanto a uma quanta outra mão de direção.

Fernando Antonio Dal Piero* é professor no depto de Administração do Centro Superior de Vila Velha, ES -com diversos artigos e colunas publicadas nos jornais O Globo,Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Gazeta- ES, IOB, entre outros. email: email: fpiero@zaz.com.br fone 021 27 327 1518

Artigos são revisados pela profª. Alina da Silva Bonella  Telefone 021 27 327 1518


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