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02102000002 - Space Commodities - Imprensa em Debate - Coletânea - Lições da Memória - Aloysio Biondi e o anti-jornalismo - Por Armando Medeiros de Faria 05/09/00

Space Commodities - Imprensa em Debate

Coletânea - Lições da Memória

Aloysio Biondi e o anti-jornalismo

Por Armando Medeiros de Faria (*)

Em setembro de 1992, conversei durante mais de duas horas com o jornalista Aloysio Biondi. Na entrevista, a veemência contra a unanimidade foi o traço mais marcante. Trechos de seu depoimento foram incluídos na dissertação "O jornalismo econômico e a cobertura sobre a privatização (1990/91)", apresentada no mestrado em Comunicação (área de concentração: Jornalismo), junto a Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo.

Além do jornalista ávido por análises independentes, o depoimento trouxe percepções muito acuradas. Sem receio de ser isolado como ranzinza e herético, o jornalista pronunciava profecias "malditas" e ousava duvidar de dogmas. Entre as heresias cometidas por Biondi, naquela conjuntura de euforia com a diminuição do Estado e de absorção acrítica de experiências internacionais, estava o anúncio – concretizado anos depois – da derrocada do modelo vigente nos países chamados "Tigres Asiáticos".

A originalidade de Biondi, em uma imprensa cada vez mais macdonalizada, era reafirmada na atitude diária, teimosa, insistente, de caminhar contra a maré e remar contra ondas à direita, ou à esquerda. "Mesmo no jornal Opinião, ou no governo Geisel, apostei nos assuntos ‘em si’, sem preconceitos e maniqueísmos, à despeito de visões consagradas pela esquerda", revelou.

Em relação ao tratamento da imprensa ao programa de privatizações, tema ainda hoje na agenda pública, Biondi entendia que o tema estava sendo aceito garganta abaixo. "Discordo totalmente da maneira como a privatização foi feita, de uma forma obscurantista, emburrecendo as pessoas, mentindo, sem discussão, sem debate, mas sim com manipulação, de uma maneira sórdida, às custas da sociedade", observou.

A trajetória de Biondi, não isenta de erros de avaliação, revela reiteradas vezes o mérito de seu incansável inconformismo diante das visões consagradas. Para os estudantes de Comunicação, cada vez mais obcecados com as "técnicas", do que propriamente com os "conteúdos", a capacidade analítica e a bagagem informativa foram os traços distintivos do jornalista. Em um de seus últimos trabalhos para a revista Caros Amigos, Biondi anunciava a revisão das macropolíticas econômicas que orientaram o mundo a partir do Consenso de Washington, da década de 80. Chegou a vez do "Consenso de Berlim", sentenciava, lamentando o desinteresse e a omissão da imprensa quanto ao significado humanista desta mudança.

A pesquisa realizada sobre jornalismo econômico revelou que a maior contribuição de Biondi para a imprensa, muitas vezes mal compreendida pelo posicionamento crítico renitente, foi justamente a de enfrentar o formato jornalístico no qual a realidade social é dominada por pessoas, números, circunstâncias e não por estruturas, forças sociais ou processos "naturais" invisíveis, anônimos ou abstratos.

Além disso, ao deplorar a descontinuidade da cobertura jornalística, os textos de Biondi eram exercícios estimulantes no sentido de descobrir as relações entre os acontecimentos. Eram, enfim, uma forma de rejeição ao conceito de notícia como "partícula da realidade". A maioria dos questionamentos e reflexões dessa entrevista mostram um jornalista asfixiado por uma reportagem diária que não exprime a totalidade da vida, "uma condição para o conhecimento filosófico", como afirma o trabalho "Novidade sem mudança", de E. Barbara Phillips (Journal of Communication, vol,26, n.4, 1976).

Baseada em Platão, a mesma autora lembra que a tarefa do teórico é evitar o desmembramento da realidade em pequenos pedaços. "Isso é precisamente o métier do jornalista – apreender a ‘realidade’ em pequenos pedaços. Enquanto o teórico procura as regularidades, os padrões e as leis, o jornalista é atraído pelo contingente. E, enquanto o teórico põe em evidência fatos para explicar as estruturas, o jornalista centra-se no acontecimento, aduzindo fatos no seu próprio interesse", observa.

Ao introduzir conceitos, questionar dados isolados de séries históricas, comparar estatísticas, em vez da sedução pelo fetiche dos números ou da informação capturada na superfície, Biondi buscou afastar-se da natureza do trabalho jornalístico diário, constituído de cortes de uma "realidade" esmiuçada em pedaços, chamados notícias, formato incapaz de levar ao conhecimento. Não se enquadrava, portanto, em uma mídia que se pauta por um jornalismo persecutório, mais inspirada no fácil modelo de gritar "pega ladrão" em vez de investigar estruturas e mecanismos que circundam, de fato, a rapinagem. No caso do ex-secretário da Presidência da República, certamente ele estaria questionando o pano de fundo - as relações Estado e Poder Judiciário, nas quais parece hábito o Executivo pressionar a Justiça para causas favoráveis nas cortes trabalhistas – do que empolgado por possíveis aquisições imobiliárias em Miami.

Cobertura fragmentada

A seguir, uma transcrição de reflexões e críticas de Aloysio Biondi sobre o comportamento da mídia:

"A imprensa dá um tratamento absolutamente fragmentado na área da economia. Dá um fato e abandona, dá um fato e abandona. No fundo, o que está por trás é uma concepção do jornalismo: só vale o que foge da ‘normalidade’."

"Escrevi um artigo, em 1991, procurando tratar disso, lidando com exemplos fora da economia. Citei o caso dos incêndios dos poços de petróleo do Kuwait, quando falaram que demorariam anos para serem extintos. Eram 900 poços e os incêndios demorariam três, quatro, anos para serem apagados. Dali a três dias 200 poços incendiados já estavam sob controle. Eu era editor-geral e enchia o saco do editor de internacional. Faltava também informação: já se dispunha de materiais modernos para apagar incêndios.

"Durante a crise de petróleo em 1979, falou-se exaustivamente no esgotamento das reservas. Esqueceram-se do desenvolvimento de novas técnicas de exploração (fotografias de satélite, novos métodos de perfuração, novo material – ligas de aço – para as sondas etc.). Quer dizer, se você não acompanha perde totalmente a noção do que está de fato ocorrendo.

"A queda da Bolsa de Nova York em 1989. Tinha subido 40% em pouco tempo e, lógico, deveria cair.

"No caso dos ‘Tigres Asiáticos’, se você não acompanha perde a visão adequada. Ao longo do tempo a situação deles começou a se deteriorar. Nas minhas matérias eu indicava: não vamos embarcar nessa desse jeito. Quanto a Thatcher, nós demos a queda dela um mês antes por acompanharmos a economia. E estas informações não chegavam aqui.

"Um caso nosso, o da Previdência. O ministro Marcílio Marques Moreira informava sobre o saldo de caixa e o superávit do Tesouro. A cada informação variava o número. O superávit era muito maior porque a previsão de gastos estava superestimada no orçamento. A arrecadação, por exemplo, de Finsocial e Pis estavam em queda brutal. Mas o Imposto de Renda não, havia crescido 100% em relação a 1991. Como é que o leitor vai saber disto se o jornalista não ficar atento?

"No tempo do Maílson, os melhores jornalistas saíam dizendo sobre o ‘excesso de gastos com pessoal’. O Maílson fez a cabeça de muita gente. Fez acreditar que 80%, 90% do orçamento era consumido nas despesas com funcionalismo, que o Estado não tinha jeito. Ele fez muito a cabeça da sociedade, até com um certo cansaço mostrando que o ‘Estado estava falido’. E todo o mês, o secretário do Tesouro, Luís Antônio Gonçalves dava entrevista e distribuía tabelas. Estava lá: gasto com funcionalismo, e era só você calcular o percentual. Naquele momento os gastos não passavam de 40%. No DCI a gente dava manchete: ‘Novo superávit do Tesouro/Gastos com funcionalismo não passam de 40%’."

Sobre imprensa e jornalismo

"A imprensa, ao fazer oposição, esquece de duvidar das notícias ruins. Sempre duvidava, mas só do que é bom. Com isso o jornalista acaba servindo como inocente útil.

"Acho que o jornalismo econômico está muito repetitivo. As pessoas nem checam. Hoje o pretenso pensamento econômico está repleto de chavões, de uma pretensa visão do momento brasileiro e as coisas se repetem. A sensação que você tem, lendo os artigos na diagonal, é que as matérias se baseiam em generalidades e são muito repetitivas. É raro você sair de um artigo achando que ele provocou alguma reflexão e mudou seu ponto de vista.

"Não adianta entrevistar fonte errada. Por exemplo, ouvir economistas que só olham para o mercado financeiro (consultores e analistas), ou agricultores que só choram.

"Um dos problemas do jornalismo de negócios no Brasil é que não tem nada a ver com a economia brasileira. Exame faz apologia de empresários e não aborda o que seria, de fato, uma ‘história de negócios’. É muito personalista.

"O jornalista tem a ilusão de fazer oposição só porque fica dizendo que a inflação está alta, ou que o déficit público aumentou, etc. E não percebem quem se beneficia desse processo."

Jornalismo de negócios e privatização

"No chamado jornalismo de negócios, a privatização teve um grande avanço. Havia nessa expansão esse ideal privatizante, do espírito empreendedor. Lembro que a justificativa para se falar mais da empresa era a de que seria uma reação contra a ditadura, uma reação ao fato do Estado ser a grande fonte e o lado do empresário estar sendo deixado de lado. Como sempre, você cai no extremo. Algumas justificativas de pauta, do tipo – valorizar o agente econômico - é mais importante saber o que o ‘seo Zé do Botequim’ está fazendo do que o Ministro da Fazenda pensa acabam caindo no outro extremo. O ideal é o equilíbrio: ter a vida empresarial e a análise de política econômica."

Vícios e problemas no jornalismo econômico

"Ficou mais rara a preocupação, a dúvida com a versão dos dois lados, com a pesquisa, com a memória. Causas? Não sei. Acho que a ditadura – em relação aos formadores de opinião em geral - era um agente provocador, que mobilizava contra. Numa conversa com Cristovam Buarque. em Brasília, há uns dois anos, ele afirmava que as pessoas tinham perdido certos interesses coletivos e assumido posturas mais individualistas. Ele lamentava a perda da militância tradicional. Não é nada de querer ‘guerreiros’, mas parece que está em desuso a própria necessidade de tentar mudanças."

Fontes e consultorias

"Em geral, as empresas de consultoria foram formadas por ex-ministros e economistas. Eles continuam sendo ouvidos individualmente. É preciso usar as consultorias de forma correta. Não se deve dar muita importância a eles, e sim selecionar o tipo de informações que geram. Pesquisas por exemplo. É preciso acompanhar, para ver se a tendência aumentou ou diminuiu."

Jornalismo engajado

"Você não ajuda as pessoas com o discurso conservador do Roberto Campos nem com o discurso maniqueísta do Menegueli, que é insuportável. Quando ele criticou a adoção do reajuste semestral, dizendo que era para esvaziar o movimento sindical, eu escrevi na época falando que se o movimento sindical precisa de derrota para sobreviver, que avanço histórico este movimento sindical está fazendo?"

(*) Gerente de Comunicação Externa do Banco do Brasil e professor do Uniceub-Brasília-DF


ALOYSIO BIONDI (1936-2000)

O que todo jornalista deveria ser

Marcos Dantas

Foi com muita tristeza que li a nota informando a morte de Aloysio Biondi. Em sua homenagem, quero dar um testemunho pessoal.

Fui jornalista. E fui jornalista enquanto pude ser, com dignidade, um fiel discípulo de Aloysio Biondi.

Trabalhei com ele, no Jornal do Commercio, ali por volta de 1973-74. Época braba de ditadura. Época que, no imaginário de hoje, é tida e havida como de total censura e de total silêncio na imprensa. Pois naquele cenário de medo e quase nenhuma chance (aparente) de se escrever outra coisa que não fosse notícia oficial, naquele cenário, Aloysio ensinou-me duas lições básicas.

A primeira: o jornalista não pode se limitar a publicar o que dizem as chamadas fontes (em "on" ou em "off"), mas está obrigado a pesquisar, a es-tu-dar. Aloysio era um devorador de estatísticas. Estatísticas oficiais. Lia os relatórios do Banco Central, do IBGE, da Cacex, aquela monteira de tabelas e números que, em si, nada significam. E ele mostrava-nos que você não precisa ser "economista", não precisa ser "técnico", para cruzar dados, interpretar números, extrair das tabelas informações que os autores das tabelas pareciam querer nos ocultar. Sim, você precisa, sim, é não ser preguiçoso! Você precisa, sim, é não está disposto a aceitar a primeira explicação que lhe dão. Você precisa, sim, é querer ter um pouco mais de trabalho, na hora de escrever o seu texto, do que simples e facilmente transcrever as anotações das suas conversas do dia, com aspas ou sem aspas.

Era com base nos próprios números oficiais que Aloysio desmascarava as verdades oficiais, em plena ditadura, em plena era do reinado de Delfim Netto. Claro, você precisa, sobretudo, é ter coragem. Coragem, não para enfrentar ameaças e censura. Isto é fácil. Você precisa de coragem, é para não se corromper com as lantejoulas e purpurinas que a profissão de jornalista, tornando tão fácil o convívio com ricos e poderosos, tornando tão acessível os restaurantes caros e as viagens ao exterior, que essa profissão pode lhe fantasiar. Você precisa, sim, é de coragem para não trocar a verdade por tantas facilidades...

Esta foi a primeira lição. A segunda, muito mais importante (primeira, aliás, em ordem de importância), relaciona-se ao final, acima escrito. Aloysio defendia uma tese que pude constatar e reconfirmar muitas outras vezes. Em plena a ditadura, ele nos dizia: a pior censura é a autocensura dos editores. Ele definia como nossa meta, testar SEMPRE os limites da censura – não somente os da censura policial mas, sobretudo, os limites da censura dos patrões. Para ele, era proibido dizer-se, ou nos dizer, "não devemos publicar isto, ou aquilo, por que pode dar problema com o boss". Ao contrário: devemos publicar o que acharmos necessário publicar, devemos palmilhar, por assim dizer, "o terreno", avançar sempre na ousadia do noticiário e na "ofensa" aos interesses, até recebermos clara e explicitamente alguma poderosa "advertência". Esta "advertência", quando chegava, não chegava de forma delicada, ou como simples cartão amarelo. Vinha com toda a raiva e virulência de chefões e, sobretudo, chefetes, que, de repente, se davam conta que uma espécie de "guerrilha noticiosa" vinha sendo travada sob seus olhos e narizes...

Por isso, Aloysio e os que com ele trabalhavam eram uma espécie de ciganos da imprensa. Dificilmente seguíamos empregados por mais de um ano em um jornal qualquer. Mas era este mesmo o projeto: resistir, não apenas a uma ditadura militar, mas ao controle da informação pelos grandes donos da mídia. Se você quer ser jornalista de verdade, você precisa desdenhar o seu emprego, a segurança do salário ano após ano, o medo de enfrentar o mercado de trabalho. É a escolha: ser jornalista ou não passar de burocrata de redação. Este projeto, Aloysio jamais traiu, mas a grande maioria dos que com ele trabalhavam estão aí, hoje em dia, gordos e satisfeitos empregados nesta imprensa de m.... que, há muito tempo, deixou de dar a Aloysio Biondi o espaço, o respeito e o mérito a ele devido. Sabemos todos como foram duros os seus últimos anos.

Por isto fui jornalista. Na medida em que os outros envelheceram, eu preferi seguir fiel a mim mesmo e fui fazer outras coisas na vida. Fui ensinar às novas gerações o que este país já foi um dia. Um dia, mesmo sob a ditadura, que parecíamos estar mais empenhados no avanço da nossa sociedade do que na versão mais avançada de software...

Obrigado, Aloysio!


Crítica e otimismo

Roberto Goulart Menezes

O Brasil e todos aqueles que lutam por justiça social ficam desfalcados com a morte do companheiro Aloysio Biondi. Foi com espanto e tristeza que recebi a notícia. Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente no ano passado, quando ele esteve no Cursinho da Poli [em São Paulo] para debater com os estudantes o seu livro o Brasil Privatizado. Naquela ocasião, ele possibilitou aos jovens uma visão otimista e crítica do nosso país. Em nenhum momento descambou, assim como em seus textos, para o simplismo e o populismo. Transmitiu a todos a necessidade de continuarmos a pensar e repensarmos o destino e os rumos da nação.

Fica a lição de vida e a luta que será levada adiante. Fica o testemunho de que é mais do que possível exercemos nossas profissões de forma ética e honesta, sem que para isso tenhamos que abrir mão da verdade.

Só temos a lamentar a sua partida.


ASPAS

Washington Novaes

"Aloysio Biondi, doutor em tudo", copyright Folha de S. Paulo, 22/7/00

"Com Aloysio Biondi , desaparece um tipo raro de jornalista -competente, experiente, apaixonado, detentor de um acervo impressionante de informações sobre o Brasil e principalmente sobre a sua economia. Ao mesmo tempo, extremamente pessoal, distante de ideologias, refratário a grupos, poderes, conveniências, meios-termos. Nada disso o prendia nem ditava sua conduta jornalística -seguia apenas sua consciência, ao preço que fosse.

Sempre foi assim. Conheci-o em 1956, quando fiz teste para revisor da Folha da Manhã, mãe desta Folha de S.Paulo. Estranho que pareça, ele era sub-chefe da Divisão de Sucursais, Correspondentes e Representantes, à qual a revisão era subordinada. E era ele quem supervisionava os testes.

Um mês depois, chamou-me par a trabalhar como redator de notícias do interior do Estado -uma pedreira, já que nos obrigava a tornar interessantes informações passadas em meia dúzia de linhas pelos correspondentes. Aloysio era rigorosíssimo, mandava reescrever muitas vezes a mesma notícia -que tinha de sair clara, elegante, impecável, sem gerúndios.

Embora muito moço -tinha pouco mais de 20 anos nessa época-, já era apontado como prodígio desde sua cidade de origem, São José do Rio Pardo (260 km ao norte de SP), onde assombrou uma banca julgadora com seus conhecimentos sobre Euclydes da Cunha e ‘Os Sertões’, na olimpíada literária que se realizava todos os anos em homenagem ao escritor, que viveu ali um tempo.

Na Folha também era considerado um prodígio. Mário Mazzei Guimarães, então redator-chefe, admirava-se com a qualidade dos editoriais que Aloysio produzia sobre temas do interior do Estado, revelando um conhecimento e maturidade que seriam sua marca pela vida afora.

Depois, correu mundo, muitas redações, voltou à Folha com Cláudio Abramo, mudou-se para o Rio, onde nos reencontramos, em uma das muitas vezes, na revista ‘Visão’. Saímos de lá por causa de um atrito com o jovem então ministro da Fazenda, Delfim Netto, a quem Aloysio, como editor de economia, criticava duramente pela política de abertura desregrada das importações e endividamento externo. Já então o país sofria com essas coisas, Aloysio não se conformava, enfurecia-se com cada número que descobria.

Fomos, juntos, fundar uma revista econômica –‘Fator’- que só durou três números, sufocada pelo Ato Institucional nº 5. Na capa do primeiro número, uma foto do ator Joel Barcellos com a boca entupida de dólares. Feroz, como o Aloysio, que a planejara.

Reencontramo-nos no ‘Correio da Manhã’, onde fizemos juntos o ‘Diretor Econômico’, um caderno diário, de muito êxito e vida breve, tais as resistências que levantou no governo e em outras áreas.

Aloysio voltou para São Paulo, onde fez um longo périplo por redações, ora como editor de economia, ora como diretor de Redação. Sempre com o mesmo estilo, a mesma flama.

Em uma de suas passagens por esta Folha, travou memorável polêmica com os chamados ‘economistas de esquerda’, inconformados porque em plena ditadura ele escrevia e teimava, fiel a suas informações e interpretações, que a economia brasileira estava se recuperando da crise do endividamento do início dos anos 80. Até de ‘louco’ foi chamado. E por escrito. O tempo provou que a razão estava com ele.

Teve duas passagens breves por Goiânia -outros reencontros, outras tentativas de enxergar o Brasil de outras formas, de outros ângulos, outras abrangências. Como teve outras passagens por outras redações paulistas. E por uma coluna semanal nesta Folha, que marcou época por sua coragem, independência, lucidez -apontando solitariamente desde o início, por exemplo, os erros que vão encalacrando o atual governo federal.

Seu testamento talvez seja o pequeno e formidável livro sobre as privatizações, em que, baseado no seu fantástico acervo pessoal de informações e na prodigiosa memória, dissecou os erros do processo, os favorecimentos inaceitáveis, os prejuízos para o país e para os cidadãos que, com seu esforço ao longo de décadas, construíram o patrimônio alienado.

A Fundação Cásper Líbero, onde ensinava jornalismo nos últimos tempos -para alegria de tantos jovens-, em boa hora lhe concedeu um título de doutor, pelo ‘notório saber’. Era, de fato, doutor em jornalismo, doutor em economia, doutor em Brasil, doutor em dignidade.

Fará uma falta enorme. Como jornalista. Como cidadão. Como pai. Como professor. Como amigo alegre que gostava de cantar nas noites boêmias. Muito raramente, até voltava ao piano da juventude, às vezes para acompanhar sua linda filha Beatriz, minha afilhada querida.

Acreditem ou não, eu lia jornal na manhã de ontem quando me assustei com um beija-flor perdido, que entrara de súbito e se debatia com os vidros da janela do meu escritório em Goiânia. Foi exatamente na hora em que o Aloysio morreu. Era ele, tenho certeza."


Luís Nassif

"A morte de um mestre", copyright Folha de S. Paulo, 22/7/00

"Morto ontem, de infarto, Aloysio Biondi foi o mais importante jornalista econômico brasileiro, desde que a imprensa descobriu o jornalismo econômico, em meados dos anos 60. Começou a atuar mais firmemente na imprensa nesse período, época em que o jornalismo econômico engatinhava. Na fase inicial, Biondi trouxe componentes técnicos, de análises de empresas e de conjuntura, aliados a um espírito altamente polêmico e a uma enorme capacidade de remar na contramão da maioria, que foi sua característica principal.

Nos anos 70 militou na imprensa nanica e desde então foi um fecundo formador de jornalistas. Em toda redação por que passava deixava discípulos.

Era um radical na defesa de suas idéias, em tudo o que o termo encerra de qualidades e defeitos. Em meados dos anos 80 Biondi atingiu o seu auge, como jornalista e analista.

No início do ano o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia detectado o movimento de recuperação da economia. A enorme recessão do início da década -após a moratória de 1982- chegava ao fim.

Quando a oposição chegava ao poder, em 1985, a economia estava em recuperação. Dos principais jornalistas de oposição nos anos 70, crítico implacável da política econômica de Delfim, Biondi resolveu apostar na intuição e defender com unhas e dentes a tese da recuperação. Foi o único jornalista a apostar todas as suas fichas nos estudos do BNDES.

Os críticos utilizavam os indicadores tradicionais da macroeconomia como se fossem dogmas cristãos, mas com objetivos claramente políticos; Biondi deixava a teoria de lado e focava na realidade. Muitas vezes forçou a barra para comprovar suas teses. Aliás, sempre foi um mestre no uso das ênfases em favor de suas teses. Mas por trás de tudo isso havia o uso criativo da intuição -algo que pode chocar os tecnicistas, mas que permitia uma visão de conjunto da economia fundamente calcado em sinais da realidade.

Nessa época, ele me passou uma lição inesquecível, aparentemente simples, mas que representava -pelo menos representou para mim- uma profunda mudança de paradigma na forma de analisar a economia. ‘A gente vai vendo notícias boas daqui e dali’, dizia ele, ‘aí as boas notícias começam a se avolumar. A economia é assim mesmo, é como uma bola descendo uma montanha cheia de neve. Quando ganha velocidade, vai aumentando, até provocar uma avalanche’. Vale para notícias boas ou ruins.

Ou seja, o resultado final da economia é a soma de um conjunto variado de fatores. Em vez de analisar cada fator por si, olhe o conjunto. Se não conseguir entender o conjunto, vá juntando cacos da realidade. Se muitos cacos indicarem que a economia está melhorando -ou piorando-, é porque ela está melhorando (ou piorando). Em vez de ficar teorizando e adaptando a realidade a sua teoria, constate primeiro qual é a realidade e só depois vá se preocupar com as explicações.

Biondi sempre foi um intuitivo brilhante, que abominava as teorias e não tinha muito respeito pelos números. Como todo radical, era capaz de sacadas exemplares ou então de rejeitar fatos e evidências que pudessem colocar sua tese em xeque. Manteve até o fim seu estilo de tomar partido.

Mas, com sua cabeça dura e seu coração enorme, ajudou não apenas o jornalismo econômico como toda uma geração de economistas a pensar a economia de uma forma sistêmica. Nesse sentido, foi de um pioneirismo exemplar."


Janio de Freitas

"Aloysio Biondi", copyright Folha de S. Paulo, 23/7/00

"A grande contribuição de Aloysio Biondi para o jornalismo só agora vai se mostrar, na plenitude, com a sua falta. A imensa contribuição de Aloysio Biondi para o país só será percebida na plenitude quando, e se, houver estudos históricos abrangentes, de meados de 60 para cá, das relações entre imprensa e poder, entre a propaganda oficialesca e a realidade econômica, entre governo e negócios.

Biondi não frequentava ministérios, bancos, gabinetes estatais, rodas de grandes empresários. E, no entanto, jamais um jornalista soube de modo tão completo quanto ele, e duvido que algum dia outro venha a saber, o sentido real, os pormenores e as consequências das decisões econômicas e monetárias, como dos grandes negócios envolvendo interesses governamentais ou sociais.

O dia-a-dia de Aloysio Biondi era uma ourivesaria sem fim, pinçando e estabelecendo a conexão, surpreendente e verdadeira, dos maiores e dos mínimos dados presentes nas seções de economia, nos boletins de serviços governamentais, nas estatísticas e nos balanços, de que era admirável analista. Sua memória incomum guardava tudo, mas seus leitores também podiam guardar: Biondi nunca sonegou uma informação que lhe parecesse devida ao leitor, nunca deformou para que não desagradasse o empresário influente, o poder governamental ou objetivos não-jornalísticos do seu empregador, se fosse o caso.

Não é à toa que Aloysio Biondi foi um tanto maldito, apesar do seu êxito como editor, como colunista, como articulista e repórter. Simples, tranquilo, bem-humorado, passou a vida de redação em redação. Em cada uma, formou, com a competência didática e a fraternidade incomuns, uma legião de jornalistas. Nos últimos tempos, essa sua qualidade foi descoberta pela renovada Faculdade Cásper Líbero de Jornalismo, que o incluiu no seu corpo docente e, neste ano, lhe outorgou o reconhecimento de Notório Saber.

A quantidade de farsas e negociatas que Aloysio Biondi desnudou não tem conta. Seu livrinho recente sobre as privatizações é e será sempre um trabalho de consulta obrigatória a respeito do período atual. Mas não sei quem foi mais excepcional, entre o jornalista e a pessoa Aloysio Biondi, se é que um dos dois foi mais excepcional do que o outro.

A coragem e a altivez com que Biondi aceitou as muitas adversidades são, em minha memória, um caso único. Sua vida foi de dificuldades contínuas, mas ninguém poderia ser mais generoso do que Aloysio Biondi. Nem de caráter mais límpido.

Cedo ao lugar-comum, nada pode agora ser mais verdadeiro e eloquente: Aloysio Biondi, uma perda irreparável."


Folha de S. Paulo

"Infarto mata o jornalista econômico Aloysio Biondi", copyright Folha de S. Paulo, 22/7/00

"O jornalista econômico Aloysio Biondi, 64, morreu ontem às 9h30, vítima de infarto agudo do miocárdio, aneurisma da aorta abdominal e complicações pós-operatórias. Ele havia sido internado no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, às 20h30 de quinta-feira, para uma cirurgia de emergência.

O corpo do jornalista, que ficará no velório do hospital até as 10h de hoje, será enterrado no cemitério da Paz, no Morumbi. Ele tinha três filhos.

Com 44 anos de profissão, Biondi ingressou na Folha em 1956, onde foi editor de Economia e manteve uma coluna entre novembro de 92 e junho de 99.

Foi diretor de redação do ‘Jornal do Comércio’ (RJ) e do ‘DCI -Diário Comércio & Indústria’ (SP). Também trabalhou nas revistas ‘Veja’ e ‘Visão’ e nos jornais ‘Gazeta Mercantil’ e ‘Correio da Manhã’, entre outras publicações.

Sempre foi conhecido por seus textos críticos sobre economia. Quando dirigiu o ‘Jornal do Comércio’, no Rio, nos anos 70, conseguiu realizar uma verdadeira revolução no conceito da cobertura econômica, atento à necessidade de se praticar um jornalismo crítico e indagativo.
A falta de subsídios aos pequenos produtores agrícolas e sua posição contrária à abertura econômica eram temas que apareciam constantemente nos seus trabalhos nos últimos anos.

Um de seus últimos artigos criticava a forma como foi ignorada a assinatura de um tratado no encontro do G-7 (que reúne as sete maiores economias do mundo), na Alemanha, em junho, rejeitando as políticas neoliberais. Em 1999, publicou o livro ‘Brasil Privatizado’, no qual faz um levantamento das privatizações no país, mostrando seu lado negativo.

A Fundação Cásper Líbero, onde lecionava jornalismo, lhe concedeu o título ‘Notório Saber’.

Atualmente, publicava seus textos nos jornais ‘Diário Popular’ e ‘Correio Braziliense’, nas revistas ‘Caros Amigos’, ‘Bundas’ e ‘Educação’ e no portal MyWeb."

Divulgado por Ney Gastal email: gastal@uol.com.br


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