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03027000009 - Environment Justice x Finance - A Soberania dos Miseráveis ou Para que servem as Elites? - Por George Felipe Dantas

Environment Justice x Finance

A Soberania dos Miseráveis ou Para que servem as Elites?

Por George Felipe Dantas*

Washington, EUA  - Uma rede de televisão brasileira veiculou recentemente (transmitindo via  satélite para várias regiões do globo) uma extensa matéria jornalística  acerca da Amazônia brasileira. Dentre os vários segmentos apresentados, um  deles mostrava um balneário frequentado principalmente por pescadores  estrangeiros, um verdadeiro paraíso criado numa localidade ribeirinha da  Amazônia. A propriedade foi cedida graciosamente pelo poder público local a  um empresário estrangeiro, o qual ali passou a explorar um multi-milionário  "business" da pesca desportiva.

O programa registrou a proibição de pesca imposta aos humildes brasileiros  residentes  nas cercanias do tal balneário, num arranjo entre o empresário e  a municipalidade local, visando com isso preservar as espécies de peixes (de  grande porte por sinal) para os estrangeiros que alí vão gozar das maravilhas  da fauna pesqueira da região. O repórter mostrou a indignação dos 'caboclos'  locais, impedidos que passaram a ser de realizar suas tradicionais atividades  de pesca de subsistência no atual 'paraíso gringo'…

Não é assim que acontece com os milhares de brasileiros que sairam de nosso  país com a finalidade de trabalhar no exterior. Primeiro, as exigências para  que um empresário brasileiro se estabeleça em países como os EUA envolvem a  disponibilização de um capital inicial considerável (fazendo prova prévia de  sua disponibilidade de maneira formal e insofismável) e a geração de emprego  para um determinado número de nacionais norte-americanos na empresa por ser  criada. Isso para não falar do respeito que se deverá ter à legislação local, o que parece não acontecer com esse empresário estrangeiro instalado na  Amazônia, atropelando até o sagrado 'direito de ir e vir' da população local. 


Nos EUA, privilegiar um empresário estrangeiro e seu negócio, restringindo o  "direito de ir e vir" de norte-americanos, só como tema de piada e, ainda  assim, das mais inverossímeis… Mas o que ficou de mais chocante do programa esse foi a cena dos nossos  irmãos, 'brasileiros ribeirinhos,' apontando, na maneira simples do povo, o  lugar onde não podem mais pescar…

Lembrei, perplexo, dos 'conceitos de soberania nacional,' tão propalados ao  tempo do 'regime militar'… Teorias rebuscadas, geralmente comentadas por  militares e políticos de destaque da época, quase sempre articuladas num  'espaço conceitual' muitas vezes de difícil compreensão até pelas platéias  mais eruditas. Nessa 'engenharia da política estratégica,' falava-se nos anos  70 de uma "Transamazônica" e de uma "Perimetral Norte" e no efeito integrador  que teriam, como se devessemos preservar nossa soberania 'integrando para não  entregar'… Nos anos 80 foi a vez do projeto 'Calha Norte,' utilizando as  Forças Armadas brasileiras para, semelhantemente ao conceito da década  anterior, 'ocupar pela presença'… Nos anos 90, tempos de liberdade política e  da volta ao Estado de Direito, soberania nacional passou a ser um tema de  segundo plano, supostamente por ser exclusivamente do interesse da 'agenda  militar.'  Ledo engano, já que é um tema de interesse nacional permanente,  independente do tipo de regime que esteja instalado no país.  

Mas se a temática da  'soberania nacional' avocava, no passado recente,  questões essencialmente de 'defesa explícita,' tendo a ver com a 'projeção do  poder militar,' as imagens do programa jornalístico citado apontam em outra  direção: a da 'defesa implícita,' conseguida através da 'projeção do poder  que conferem  o domínio da ciência, da tecnologia e da capacidade  empresarial'...

O que foi mostrado não caracteriza uma 'ocupação forçada' da hiléia. Muito  pelo contrário, já que a presença estrangeira não é apenas 'permitida,' como  também "incentivada," vis-a-vis  os privilégios oferecidos, incluindo até  mesmo a gratuidade de uso da propriedade pública, ao extremo do poder local  ceder o que 'é de todos' a um estrangeiro, impedindo ilegalmente seu acesso a  nacionais brasileiros residentes locais .

O imediatismo da intelingência e do humor, em tal circunstância   (indignação…), imputa imediatamente ao poder local a 'culpa' por uma situação  como essa.  Será?! 

- Há que ter sempre em conta, quando se 'pensa o Brasil,' um estado de  'carência crônica de recursos,' mormente em locais como a Amazônia, não sendo  por isso difícil de entender o que se passa numa comunidade como a que foi  mostrada no programa. É enorme a vulnerabilidade do poder local àquele que  oferece 100 pelo que na verdade vale 1.000 ou 10.000. Afinal, o empresariado  brasileiro ainda não chegou lá… Ninguem chegou ainda! Não são só os empresários estrangeiros que estão 'recolonizando' a Amazônia,  auferindo com isso grandes lucros e facilidades… São cientistas, estudantes,  pesquisadores, supostos "evangelizadores," prosélitos do mundo religioso em  geral e, quiçá, até mesmo turistas, depois de constatarem as 'oportunidades e  facilidades,' ficando por lá e explorando o que nos brasileiros não  exploramos e sequer disciplinamos (proativamente) a exploração por terceiros. Culpa deles? -Tampouco… As oportunidades abertas, numa 'lei universal,' são  para serem 'agarradas' e aproveitadas. Qualquer brasileiro faria o mesmo no  Japão ou nos EUA, caso fosse dado a ele vislumbrar oportunidades equivalentes…

A nossa grande miséria, nessa hora, e que nos 'nega a soberania sobre o que  legitimamente é nosso' é o despreparo da Nação brasileira em poder usufruir  do 'poder do conhecimento' em sua 'projeção' sobre nossas riquezas, não só na  Amazônia brasileira, mas no próprio país como um todo. Esperar do poder  público a defesa desses interesses é a negação de um velho 'truísmo  histórico.'  Desalento? -Tampouco… E as nossas 'elites,' onde estão, por onde  andam?

Iniciativas do tipo das 'commodities ambientais' podem reverter todo esse  processo. Historicamente, as elites intelectuais e empresariais do país tem  'arrastado' o restante da Nação (e até mesmo o poder constituido…).  São  Paulo (respondendo por mais da metade do PIB nacional) não existiria não  fosse a 'economia do café'… Os primeiros movimentos de consolidação da Nação  brasileira estão inescapavelmente atrelados aos ciclos do açúcar e do ouro…  Elites? -Sim, obra de elites, com todos seus ônus e bônus…

Porque não, agora, um 'ciclo da economia da floresta,' marcando um Brasil que  ressurge de suas vulnerabilidades no umbral do Século XXI?

Se o brasileiro comum, o ribeirinho Amazônico, entre tantos outros, é  impotente diante de um quadro como esse, tal não acontece com o empresário  brasileiro de visão futurística e inovadora, capaz de avocar a si a  'advocacia' da administração dessas riquezas, até mesmo por sentimentos menos  nobres ($). Mas "que diabo," não é assim o capitalismo?! Melhor ele que  qualquer outro!!!

Talvez caiba ao poder constituido apenas liderar esse movimento, deixando-o  fluir e ser abraçado pelas elites empresariais e do mundo acadêmico da Nação  brasileira. Já aconteceu antes…        

George Felipe Dantas é doutor e mestre pela "Graduate School of Education and Human Development" da "The George Washington University," com atuações como consultor da ONU.  E-mail: dantasf@hotmail.com


"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"     Peter Drucker

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