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03027000017 - Environment Justice x Finance - Site Aventure-se - Sessão Biosfera - http://www.aventurese.com.br/biosfera.htm - Água: Estão envenenando o sangue de Mãe-Terra - Por Marcelo Baglione 22/07/00 11:50:05

Environment Justice x Finance
Site Aventure-se - Sessão Biosfera
http://www.aventurese.com.br/biosfera.htm

Água: Estão envenenando o sangue de Mãe-Terra

Por Marcelo Baglione*

De súbito...um grito de dor profunda ecoou por toda a Terra. Era o senhor Urano que acabara de ser castrado pelo seu filho Cronos. O céu de estrelas, Urano, tem então seu sangue, sêmen e testículos dispersos sobre a terra e o mar.

Do oceano agitado por ondas que misturavam o sangue e o sêmen do deus mutilado, surgiu uma alvíssima espuma; e dela emergiu a mais linda mulher já concebida. Nascia, assim, Afrodite, a deusa da beleza e do amor.

Sinceramente, me responda: você consegue imaginar o nascimento de Afrodite, aquela cuja beleza estarreceu todo o Olimpo, por exemplo, nas praias da zona sul do Rio de Janeiro que nos últimos anos vem sendo impiedosamente batizadas por línguas negras, irresponsabilidade governamental e índices alarmantes de coliformes fecais?

Como o litoral brasileiro é grande, e a omissão das autoridades que governam este celeiro biosférico é ainda maior, se este relato mítico tivesse que se repetir hoje, Cronos teria que olhar bem para baixo e ver o local mais adequado para caírem os despojos reprodutores de seu pai, evitando, desse modo, que a deusa da beleza não surgisse de um mar de imundice: fruto do descaso e da inimputabilidade ambiental reinante no Brasil.

No mitologia afro do candomblé, o orixá regente da água salgada é Iemanjá.

De acordo com Pierre Verge, o nome Iemanjá deriva de Yèyé omo ejá, "Mãe cujos filhos são peixes". Embora não sejamos criaturas marinhas, num certo sentido somos verdadeiros peixes fora d’água, pois necessitamos do mar e seu ecossistema tanto quanto os seus habitantes naturais.

Não satisfeito em corromper e envenenar a morada da Rainha dos Mares, o homem e sua inconseqüência invadiu, também, o espaço vital de Oxum: o orixá que regente da água doce.

Dos 97% de água salgada existentes na Terra, apenas 3% são de água potável, cabendo ao Brasil a guarda de 8% desta riqueza em suas bacias hídricas; uma respeitável reserva mundial do petróleo branco do século XXI.

Uma bênção de Deus e mamãe Oxum?

Segundo alguns entendidos no assunto, este ano 2000 que a UNESCO escolheu como tema a "Água para o Século XXI", é regido por Oxum. Não sei se é coincidência, mas entre os dias 17 e 22 de março (dia mundial da água) realizou-se em Haia, na Holanda, o II Fórum Mundial das Águas que discutiu e propôs uma conscientização planetária em torno dos recursos hídricos existentes, bem como a sua sábia gestão.

 

No documento elaborado em Haia, dos sete importantes desafios para a obtenção de água no próximo século, um item me chamou muito a atenção, o de letra f: "atribuir valor econômico à água". Acrescentaria: atribuir valor econômico e ecumênico à água, pois nada nesta luta de conscientização mundial irá adiante sem compaixão e solidariedade entre os povos e seus governantes.

Um exemplo disto, é a seríssima disputa territorial entre Israel e Síria que já é, há algum tempo, uma luta pela valiosa água tão escassa naquela região.

Lembrei-me de Leonardo Boff, e entendi que precisamos conjugar melhor o verbo cuidar e dividir se quisermos resolver problemas de ordem geopolítica e ambiental como este.

O Fórum Mundial das Água traz, no entanto, uma certeza: GESTÃO DA ÁGUA, É GESTAÇÃO DA VIDA.

A água, o sangue de Mãe-terra concentrada nas bacias hídricas do mundo, as veias e artérias de Oxum, são imprescindíveis para a vida na biosfera.

Se o sangue de Gaia, a água, é vida, por que o progresso mundial agride constantemente a Terra, a casa de todos nós?

A meu ver, esta postura desequilibrada do homem ante a natureza é uma neurose coletiva. Uma deficiência psico-espiritual da humanidade em lidar com o elemento feminino. Logo, a devastação ambiental é a mais elevada agressão que cometemos contra o feminino porque atinge uma perspectiva planetária. Esta relação permissiva com a Mãe-Terra é uma atitude suicida e matricida.

Estive pensando numa música do Gil...

Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco d'água
E os meus olhos pedem teu olhar

A planta pede chuva quando quer brotar
O céu logo escurece quando vai chover
Meu coração só pede o teu amor
Se não me deres, posso até morrer

(Tenho Sede, Dominguinhos e Anastácia)

Realmente não há saída! É impossível falar na divisão de riquezas ambientais como a água potável sem uma política de solidariedade porque a água, como herança comum de toda a humanidade, não pode se tornar mais um tipo de ouro negro que atende somente aos interesses de castas políticas e econômicas, em detrimento das reais necessidades da espécie humana.

Este precioso bem não é esmola, pois a vida não é um óbolo: é dádiva, e, como tal, deve ser dividida e ofertada com racionalidade e equilíbrio.

Neste ciclo de conscientização mundial sobre a água potável no século XXI, o Brasil tem uma posição importantíssima como depositário de uma estupenda reserva de água doce, ainda mais se controlar direito as quase cinco mil prefeituras aqui existentes: as maiores poluidoras de nossas águas.

Acreditem: as mineradoras, as indústrias e agroindústrias não conseguem poluir mais as águas do que as prefeituras brasileiras.

Até quando teremos que aturar estas improbidades ambientais cometidas contra a água, um bem que já é valorizada a peso de ouro em certas parte do mundo?

Se o Brasil não abrir os olhos para esta vital e estratégica questão, ficaremos à mercê da cobiça internacional que somente degradará a nossa soberania biosférica.

O que não podemos é esperar que mamãe Oxum verta lágrimas amargas quando os seus filhos sequiosos quiserem saciar a sua sede através de uma água envenenada com os germes da ambição e do egoísmo — ou de um progresso que deu as costas para uma relação equilibrada e sadia com o meio ambiente.

Marcelo Baglione é jornalista e escritor. Formado em Comunicação Social pela PUC/RJ. Assina a sessão Biosfera do site Aventure-se www.aventurese.com.br, no IG. Também assina as sessões Polêmica e Televisão/Documentário no Aqui! www.aqui.com.br. E-mail: mabaglione@rionet.com.br e paxbiosferica@rionet.com.br


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