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03027000028 - Environment Justice x Finance - Trocar de Civilização e não de Tubulação - Por Arthur Soffiati - 26/07/00,14:37:23


Environment Justice x Finance -

Trocar de Civilização e não de Tubulação

Por Arthur Soffiati*

O esquecido Herbert Marcuse, num antigo depoimento, declarou que "a violação da Terra é um aspecto essencial da contra-revolução. A guerra, genocídio contra o povo, é também ‘terricida’ na medida em que ataca as fontes e os recursos da própria vida. Já não chega acabar com os homens vivos: é preciso também proibir a existência aos que ainda não nasceram, queimando e envenenando a terra, desfolhando as florestas, fazendo rebentar os diques." Há, nesta passagem, o fervor de um socialista que talvez hoje não fosse mais ouvido. Descontada esta faceta, Marcuse toca no cerne da questão ambiental: nossa civilização é contra-natural, não apenas no que afeta à natureza não-humana, mas ao próprio ser humano, que se movimenta nesta civilização e nela tem o seu ser. Mircea Eliade, Kostas Papaioannou e Arnold Toynbee diriam que o divórcio entre ser humano e natureza começou com a revolução monoteísta do judaísmo. Outros localizariam sua raiz no século XVII europeu, com a hegemonia do paradigma mecanicista e a ascensão de uma economia de mercado. Outros ainda situariam a origem de uma civilização violenta ao meio ambiente na revolução industrial, a partir do século XVIII. Creio que todos estes momentos integram um processo não programado que construiu uma civilização oposta à natureza não-humana e humana.

Marcuse não fica só no diagnóstico. Ele propõe uma terapia, bem geral, é verdade, ao advertir que "a luta por uma expansão do mundo da beleza, da não-violência, da calma, é uma luta política. Não se trata de converter a abominação em beleza, de esconder a miséria, de desodorizar o mau cheiro, de florir as prisões, os bancos, as fábricas; não se trata de purificar a sociedade existente, mas de a substituir."

À luz destas palavras tão remotas, de um tempo em que floresceu uma plêiade de ecologistas de boa cepa, tentemos analisar o desastre da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária, na grande Curitiba. Como em todas as catástrofes ambientais do mundo (antes dividido em Primeiro, Segundo e Terceiro; hoje, em Mundo Norte e Mundo Sul), o que se discute é o acidental, nunca o essencial; o circunstancial, jamais o estrutural. Dirigentes empresariais, governantes, órgãos governamentais de meio ambiente e defensores da natureza batem boca entre si sobre as causas do sinistro, sobre as condições de segurança da unidade industrial, sobre a manutenção do equipamento, sobre o tempo de vazamento do óleo, sobre a espessura e a extensão da mancha, sobre os danos ao ambiente, sobre os prejuízos econômicos, sobre o valor das multas, sobre as medidas para minorar os impactos. Mas ninguém, ou quase ninguém, discute o modelo de civilização alimentado por combustíveis fósseis, que exige altos investimentos na prospecção de petróleo, gás natural e carvão mineral, na perfuração de poços profundos com tecnologia pesada, em dutos sujeitos à corrosão, na montagem de refinarias com alto potencial poluidor, tudo para alimentar um estilo de vida em que o veículo automotor individual foi imposto pela indústria automobilística como necessidade essencial para o ser humano, assim como o ar, a água, a alimentação, o repouso, as condições salutares de higiene, a moradia, a educação, o trabalho socioambiental útil, a vestimenta, o lazer, a cultura e a espiritualidade.

Mas não vamos reduzir a complexidade desta civilização anti-humana e anti-natural, que se globalizou, ao calhambeque, como diria Michel Bosquet, outro grande ecologista esquecido pelos dos ambientalistas defensores de um modelo auto-sustentável e de uma ecologia pragmática, no qual os resultados são mais valorizados que o respeito e o cuidado. O âmago da questão nem está no caráter consumidor da civilização ocidental e ocidentalizada e sim no seu caráter consumista. O consumo é comum a todos os seres vivos. O consumismo, por sua vez, estimula o consumo do supérfluo e do perverso, como salienta Ignacy Sachs em seus escritos.

É neste contexto que a calamidade ambiental causada pelo derramamento de quatro milhões de óleo nos rios Barigui e Iguaçu deveria ser discutido. Ou é esta discussão que deve voltar-se a travar. Não apenas tratar da questão de forma superficial. Utopia? Sim, trata-se de utopia pretender uma civilização com os traços gerais delineados por Marcuse. No entanto, utopia maior é crer na viabilidade de uma civilização com grandes unidades geradores de energia e industriais, com descomunais torres e plataformas para extração de petróleo em escala exponencial, com centrais nucleares, com gigantescas hidrelétricas, com megalópoles tentaculares e, ao mesmo tempo, sem acidentes, sem destruição do ambiente, sem empobrecimento da biodiversidade, sem injustiças sociais, sem violência de todo tipo, sem contra-produtividade, sem entropia perniciosa. Será que só poucos estão percebendo a nudez do rei? Será que apenas uma minoria se dá conta de que não é possível ter o melhor de dois mundos antagônicos?

A utopia ecologista não alimenta a ilusão de um mundo perfeito, mas não crê possível sustentar uma civilização insustentável colocando um esparadrapo aqui, uma bandagem ali, um placebo acolá. Substituir a tubulação da Refinaria Presidente Getúlio Vargas trata-se de uma medida paliativa que em pouco ou em nada contribuirá para a construção de uma civilização respeitadora da vida.

Arthur Soffiati é Historiador e escritor com vários livros publicados, especialista em História Moderna e Contemporânea pela Universidade Católica de MG, Mestrado em História Ambiental pelo Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da UFRJ, Doutorando em História Ambiental pelo IFCS/UFRJ e Professor da Universidade Federal Fluminense  email :soffiati@.censa.com.br


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