Lgcta2.gif (7527 bytes)


Rede CTA-Consultant, Trader and Adviser
Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo
Rede - Sindecon Tel/Fax.: 3107.2035 - amyra@netdoctors.com.br

03027000029 - Environment Justice x Finance - Coletânea - Série "A Doença do Racismo" - A Alfabetização em genética é parte da luta anti-racista*! - Por Fátima Oliveira - 26/07/00,14:58:04

Environment Justice x Finance - Coletânea

Série "A Doença do Racismo"

A Alfabetização em genética é parte da luta anti-racista*!

Por Fátima Oliveira*

    É lamentável que uma empresa do porte da Empresa Jornalística Caldas Júnior permita a veiculação de conceitos supostamente científicos, mas no fundamental de conteúdo anticientífico, machista e racista. Refiro-me ao artigo do Sr. Flávio A. Gomes: "Transgênicos", publicado pelo Correio do Povo, em 29 de novembro de 1999. Cabe recordar que em nosso país, o Brasil, racismo é crime.

    Compartilho da opinião que atualmente entender um pouco de genética é condição absolutamente essencial para o exercício da cidadania. Há anos dedico parte substancial de minha vida a divulgar e a popularizar os saberes da genética, pois acredito que a alfabetização em genética é indispensável para combater as posturas anticientíficas, anticiência, antitecnologia e as distorções, inclusive racistas, dos conhecimentos oriundos da genética.

    Para quem não sabe e para quem deveria saber, mas como não sabe urge que volte para a escola (no caso o Dr. Natal Ferrari), a transgênese é uma biotecnologia aplicável em animais e vegetais que consiste em adicionar um gene, de origem animal ou vegetal, ao genoma que se deseja modificar. Denomina-se transgene o gene adicional. O transgene passa a integrar o genoma hospedeiro e o novo caráter dado por ele é transmitido à descendência. O que significa que a transgênese é uma biotecnologia germinativa.

     Biotecnologia é um conjunto de conhecimentos que possibilita ao ser humano associar, degradar ou sintetizar substâncias que  compõem os seres vivos. Classifica-se as biotecnologias em: clássicas (biotecnologias tradicionais ou antigas biotécnicas) e moleculares (engenharia genética). É importante compreender que a engenharia genética é uma biotecnologia, mas nem toda biotecnologia é engenharia genética!

    As biotecnologias tradicionais são descobertas que resultaram da observação, experimentação, "erros e acertos’’ ("seleção"), e da paciência de escolher as que pareciam "melhores", ou "mais apropriadas", ou "mais necessárias", ou "mais desejadas". Podemos afirmar que as biotecnologias surgiram da tradição hibridista e são tão antigas quanto a história da humanidade, pois a síntese, a degradação e a associação da matéria viva (biotecnologia) através de erros e acertos (processo empírico) remonta aos primórdios da humanidade. Estes saberes asseguraram a sobrevivência da espécie humana, pois através deles aprendemos a selecionar vegetais e animais; a fabricar remédios de origem biológica; pão; transformar leite em coalhada e queijo; uvas em vinho, e muitos outros produtos alimentícios.

    A hibridação (cruzamento entre espécies diferentes) de plantas e a de animais foi uma decorrência natural do desenvolvimento da agricultura, da domesticação de animais e do pastoreio, graças ao empenho cotidiano, durante séculos, de hibridistas – pessoas que, desde tempos imemoriais, se ocupam do cruzamento entre espécies diferentes, visando obter novas e/ou melhores variedades.

    Atualmente a capacidade de intervenção humana consciente nos processos da síntese e/ou da linguagem da vida chama-se engenharia genética (ou bioengenharia) e consiste em uma biotecnologia que trabalha (manipula) os genes – as moléculas da vida, através de um conjunto de conhecimentos científicos (físicos, químicos e biológicos) e de técnicas que conseguem reformar, reconstituir, reproduzir e até constróem seres vivos não existentes na natureza.

    A tradição hibridista, precursora da engenharia genética, as chamadas "técnicas clássicas" de melhoramento genético, baseadas em um processo lento e de erros e acertos, evidentemente não possuem a "especificidade refinada" da engenharia genética e nem prescindem da reprodução sexuada, além do que obedeceram aos processos de melhoramento convencional que, como sabemos, não são os mesmos da engenharia genética!

    Só a partir de 1953, data da descoberta da molécula de DNA, os processos biotecnológicos vêm sendo realizados de forma consciente e a engenharia genética pode prescindir da reprodução sexuada e desconhece as barreiras interespécies, pois ao  transferir genes entre espécies diferentes quebrou a fronteira entre elas possibilitando que qualquer ser vivo adquira novas características ou de vegetais, ou de animais ou humanas. É de domínio público que estão em curso, via transgênese, processos de "humanização" de animais (para uso de órgãos de animais para transplantes em humanos, produção de substâncias  úteis), mas ainda não se cogitou a "animalização" de humanos!

    Digo ao Sr. Flávio  A. Gomes, ao Sr. Júlio Cézar Corrêa Lima e ao Dr. Natal Ferrari que alfabetização em genética não faz mal a ninguém. As mulheres não são "frutos", são seres humanos. E que mulata (que etimologicamente vem de "mula") é algo que não existe na espécie humana, pois seria um caso exemplar de "animalização" de humanos (ou seria de "humanização" de animais, Dr. Natal Ferrari? Então... negros não seriam humanos? Seriam animais?! Veja que imbroglio!) E caso existissem, jamais poderiam ser transgênicas, segundo o conceito científico de transgênicos, posto que seres humanos não resultam da ADIÇÃO de genes, mas de procriação. Não é apenas uma questão de semântica e causa espanto que um médico ginecologista não saiba disso!

    Procriar, o que chamamos de  "reproduzir a espécie", é gerar um ser semelhante com constituição genética diferente ("reprodução sexuada") mas da mesma espécie. Na chamada reprodução sexuada não ocorre o fenômeno da re-produção, ou seja, não há cópia (reprodução), tão-somente duas metades diferentes dão origem a uma terceira personagem, que não é idêntica a nenhuma das duas que a originaram, apenas semelhante (procriação).

    Por outro lado, cabe ensinar-lhes que as chamadas "raças humanas" são variações do mesmo tema: Homo sapiens. Raça, enquanto terminologia,  encerra sempre um significado biológico, embora não possua o fatalismo genético de sexo e não seja uma categoria biológica. A inexistência de raças humanas  é uma verdade científica das biociências contemporâneas. As pesquisas da genética demonstram que a espécie humana (Homo sapiens) é uma só, que dentro da espécie a variabilidade genética impõe, como o padrão de normalidade da natureza, a realidade de que cada ser humano é geneticamente único. É fato científico incontestável que geneticamente não existem raças humanas.

    Os saberes da genética molecular dizem que, considerando-se  o DNA como o material hereditário e o gene como unidade de análise biológica, é impossível dizer se estas estruturas pertencem a uma pessoa negra, branca ou amarela. Isso é o óbvio, pois o gene carrega possibilidades de caracteres e não os caracteres. O conceito dito científico de raça foi construído pela ideologia racista e a palavra raça e o conteúdo histórico de tal conceito referem-se a algo que não existe.

    Voltando aos transgênicos, relembro que é de interesse para o futuro da humanidade que o debate sobre os produtos e os alimentos transgênicos seja realizado em alto nível e que compreendamos o seu inteiro teor científico, social, econômico, político e ético.  

*Carta Belo ao Sr. Editor Correio do Povo. - Correio@cpovo.net


Correio do Povo Brasil  - http://www.correiodopovo.com.br/

PORTO ALEGRE, 29.11.1999 

Trangênicos

Por Flávio A. Gomes 
Enquanto prossegue acirrada nos Guerrilheiros da Notícia a discussão sobre os transgênicos, recebo preciosas colaborações.  Hoje, duas delas. De Santa Cruz, Júlio Cézar Corrêa Lima  manda fax: 'Estamos consumindo transgênicos há vários anos e até agora ninguém reclamou.

    A transgenia não é feita apenas através de manipulação genética, mas por seleção dos melhores cruzamentos ao longo do tempo. Alguns exemplos: 1) Chester. 2) Frangos de corte  em geral (todos são brancos). 3) Perus de corte (também brancos). 4) Milho híbrido. 5)  Sementes híbridas em geral. 6) Uvas sem sementes. 7) Suínos de corte em geral (geralmente brancos e quase sem gordura). 8) Tomate de longa vida. 9) Limão sem semente. 10) Nectarina, híbrido da ameixa com o pêssego'.

À relação, acrescenta o médico ginecologista dr. Natal Ferrari: 'No debate sobre os transgênicos, faltou mencionar o  melhor e mais nobre de seus frutos: a nossa gloriosa mulata'.

E-mail: 1. correio@cpovo.net; 2. alcaraz@cpovo.net

Eis algumas respostas ao artigo de Flávio A. Gomes: PORTO ALEGRE, SEGUNDA-FEIRA, 6 DE DEZEMBRO DE 1999

Flávio A. Gomes 

TRANSGENIA

1. E-mail de Silvana David Leite (sdleite@zaz.com.br): 'Ao ler seu artigo de 29/11/99, fiquei abismada com a citação do médico ginecologista (tinha que ser um!). Ele disse que à relação dos transgênicos, no debate, se deveria acrescentar o "melhor e mais nobre de seus frutos: a nossa gloriosa mulata". Eu, como mulher, cidadã (e branca!) achei esse comentário infeliz e repugnante.

    Como ainda se tratam as mulheres dessa forma? Por que o tal médico não o citou  nosso "glorioso mulato"? Há um machismo resistente e ignorância absurdos. Infelizmente  essas idéias ainda são propagadas nos meios de comunicação e não me surpreende que seja na minúscula coluna de um jornalista ultrapassado, retrógrado e antipático como o  sr. Flávio Alcaraz Gomez'.

2. De Selvero do Rego   (samy@cpovo.net): 'Como velho assinante do "róseo", sou seu  habitual e encantado leitor. Em sua coluna de hoje (29/11), a gozação do médico Natal  Ferrari sobre a mulata transgênica foi simplesmente genial'.

E-mail: 1. correio@cpovo.net; 2. alcaraz@cpovo.net 

Correio do Povo. Porto Alegre - RS - Brasil   http://www.correiodopovo.com.br  

Fátima Oliveira é  Médica. Bolsista da Fundação MacArthur, projeto Divulgação e popularização da bioética: direitos reprodutivos. Integra a Coordenação Nacional da União Brasileira de Mulheres; o Conselho Diretor da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos; da Comissão de Cidadania e Reprodução;  a Secretaria Executiva da Sociedade Brasileira de Bioética. Conselheira do CNDM – Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.  Coordenadora da Rede de Informação sobre Bioética: bioética&teoria feminista e anti-racista http://culturabrasil.art.br/RIB  email: fatimao@medicina.ufmg.br

Co-autora de Fundamentos da bioética (Paulus, 1996);

Tecnologias Reprodutivas: gênero e ciência (UNESP, 1996);

Ciência e Tecnologia em debate (Moderna 1998)

Questões da saúde reprodutiva. Org. Karen Giffin e Sarah Hawker Costa (Editora Fiocruz, 1999).

Autora de Engenharia genética: o sétimo dia da criação  (Moderna, 1995); Bioética: uma face da cidadania  (Moderna, 1997)

Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições, 1998). 

Debate: "Geledés Instituto da Mulher Negra", <geledes@geledes.com.br> "listafeminista@onelist.com" <listafeminista@onelist.com>


Consulte o banco de dados da Rede CTA-UJGOIAS
O Universo Jurídico do Estado de Goiás
http://www.ujgoias.com.br - ujgoias@ujgoias.com.br

"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"    Peter Drucker

Rede CTA-Consultant, Trader and Adviser
Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
Sindicato dos Economistas, no Estado de São Paulo
amyra@netdoctors.com.br - www.sindecon-esp.org.br

[ Topo ]

.

UJGOIÁS - O Universo Jurídico

.