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03027000031 - Environment Justice x Finance - De solução à problema - Por Carlos A. Amaral, 28/07/00, 16:44:53

Environment Justice x Finance -

De solução à problema

Por Carlos A. Amaral*

Em praticamente uma década, a globalização está deixando de ser encarada como solução para o desenvolvimento da humanidade para tornar-se em uma "crescente ameaça para a terra e seus habitantes". Esta colocação foi feita em um lúcido artigo, A Globalização Pressiona a Saúde da Terra, em revista publicada pelo Worldwatch Institute, no qual é comentado o livro da pesquisadora Hilary French - O Desaparecimento das Fronteiras -, em que são apontados os reflexos deste processo no meio ambiente e que preconiza sabias ações praticas que poderiam ser tomadas pelo movimento ambientalista para este processo fosse orientado para nos servir e não contra nós.

Alias, esta não é uma critica isolada. Já existem movimentos em todo mundo, de todas as cores políticas e ideológicas, dos mais variados segmentos sociais e culturais apresentando duvidas quanto a divisão dos resultados econômicos e dos custos das tendências da globalização.

O problema é que junto com os benefícios já estamos sentindo também os custos sociais, econômicos e ambientais. Pois, as mudanças geradas por este processo não são homogêneas, não acontecem ao mesmo tempo, impactam complexos sociais heterogêneos e nos mais diferentes níveis de desenvolvimento. Existem no mundo, segundo Toffler, sociedades vivendo em três estágios de desenvolvimento ou ondas diferentes e, não raro, algumas convivendo no pior dos mundos, com todas ao mesmo tempo.

Neste contexto, as criticas tornam-se procedentes pois decorrem de uma serie de avaliações e previsões quanto os contornos deste fenômeno e, geralmente, estão centrados em como seus resultados já afetaram ou afetarão os rumos da humanidade, as relações entre os países, os contextos sociais, as interdependências econômicas, o nosso meio ambiente e, por decorrência, em como isto se refletirá em nossa vida como indivíduos.

Mas, em alguns casos, da forma como a discussão vem sendo colocada pode-se perder o foco do que estamos atravessando atualmente. As transformações são tantas, a velocidade com que acontecem é tão rápida, o seu impacto é tão profundo e as interdependências das mudanças são tão intricadas que a nossa cabeça pode até entende-las mas, nem sempre, a nossa emoção consegue administra-las facilmente.

A globalização é apenas um destes fenômenos e pode ser um fato gerador mas, sem duvida, é uma das resultantes do exponencial crescimento do conhecimento humano nos últimos tempos. O processo tem como pano de fundo o acumulo do saber, a fantástica evolução das ciências e dos seus reflexos práticos, em todos os setores da vida humana porém, dificilmente pode ser entendida como um fato isolado.

Estamos tomando consciência que, da mesma forma como os sistemas físicos, os sociais também são interdependentes, interagem entre si, se retroalimentam e vivem em um instável equilíbrio dinâmico, dissipativo ou, não raro, resultam de uma lógica nebulosa ou caótica. Com isto tudo, realmente, fica difícil identificar o que é fruto do que e para onde as mudanças estão nos levando o que nos leva à conviver com uma desagradável sensação de insegurança .

O que não podemos nos esquecer que é excetuando-se aquilo que deriva da própria dinâmica dos sistemas universais e da mãe natureza, tudo o que acontece conosco, coletiva ou individualmente, e ao meio ambiente é, de alguma forma, fruto de nossa interviniência. Ou seja, basicamente, depende de nosso comportamento.

Os resultados até podem acontecer pela tirania das circunstâncias, que nada mais é do que um forma sutil de consciência das nossas limitações mas, em geral, é fruto de alguma ação comandada pela nossa mente. Porem, o saber em sua evolução e acumulo, em todas as suas formas e em suas diferentes aplicações é o elemento aglutinador e multiplicador que vem promovendo as profundas modificações nas ciências e nos complexos socais.

Ele influiu nas transformações das estruturas das sociedades, reformulou a visão do uso dos recursos naturais, provocou a consciência ecológica, encurtou distancias, possibilitou o mundo comunicar-se mais facilmente, mudou a importância do consumidor no mercado, dinamizou os meios de produção e reformulou as relações entre os agentes econômicos. Além disso, o avanço do conhecimento é o elemento ativo da ciência e de todos os processos que envolvem a tecnologia, refletiu-se no avanço da informática, da robotização, da comunicação, da genética, da engenharia, da medicina e assim por diante.

Entretanto, o fato mais relevante é que este mecanismo cumulativo saltou de um crescimento aritmético para uma evolução exponencial, nos últimos tempos e, provavelmente, mal estamos enxergando a ponta deste imenso iceberg. Esta diferença entre o salto dos conhecimentos e a inércia da mudanças da sociedade e das suas instituições está criando um enorme fosso e constantes choques entre elas. O problema é que estas tendências somente serão revertidas através de profundas mudanças sociais, culturais e comportamentais mas que, a historia nos lembra, são vagarosas.

Até recentemente as relações do homem com o meio ambiente foram pautadas por uma atitude cultural antropocêntrica distorcida de que a natureza estava aí só para nos servir. Mas, a coisa não é bem assim. As ciências físicas e biológicas nos ensinaram que os sistemas que sobrevivem por mais tempo são aqueles que melhor se adaptam ao seu meio ambiente. E, apenas somos mais um sistema inserido, integrado e interdependente com O Sistema. Indiferente da visão que tenhamos dele.

Este desajuste cria uma pressão não é apenas ambiental ou econômica mas, principalmente social. A economia é a ciência que estuda a alocação da escassez entre os homens. Nós, entretanto, não paramos de procriar, especialmente nos países menos desenvolvidos, e, de modo geral, estamos sempre gerando novas necessidades, utilizando mal a natureza herdada e com isto exaurindo os recursos naturais que vão, em contrapartida, progressivamente ficando cada dia mais escassos.

Além do crescimento populacional aumentar assustadoramente, acrescentando mais de 80 milhões de seres a cada ano, o avanço da tecnologia nas ciências biológicas e na medicina, tendem à reduzir a mortalidade infantil e dilatam significativamente a sobrevida do ser humano. Com isto aumentam a demanda por mais empregos e pressionam os sistemas de previdência e de benefícios sociais.

Soma-se neste cenário, a tendência que o avanço tecnológico, via informática e a robotização, vem reduzindo drasticamente o numero de vagas nas industrias, especialmente nas atividades repetitivas ou de controle. Este quadro fica ainda mais grave pois as relações de trabalho estão se modificando, a estabilidade de emprego está sendo drasticamente reduzida e o vinculo empregatício torna-se cada vez mais fluido. A situação somente não é pior porque a geração de riquezas mudou o seu eixo principal, da industria para a área de serviços. Mas, em contrapartida, a preparação educacional e profissional nem sempre é compatível com as novas exigências do mercado de trabalho.

A comunicação e a informática também mudaram radicalmente a composição e a face dos mercados, os consumidores tornarem-se mais conscientes dos seus direitos, ficassem mais exigentes com a sua saúde, com o meio ambiente, e segmentam-se em grupos sóciocomportais cada vez menores. Ambas, junto com a robotização, modificaram profundamente também as estruturas de geração de bens e serviços, os volumes produzidos, a capacidade e a flexibilidade da produção, os conceitos de qualidade dos produtos e de produtividade das maquinas.

Os conceitos de interdependência e interação sociais, políticas, culturais e econômicas intrínsecos da globalização , sem dúvida, não são desconhecidos para mundo a não ser quanto as suas formas e dimensões atuais. Porém, só recentemente estamos descobrindo que estas interações produzem problemas sistêmicos até com o meio ambiente.

Entretanto, a diferença importante neste processo é que atualmente ele orienta-se para um conceito bem mais abstrato, o mercado, e têm como pano de fundo o exponencial avanço do desenvolvimento tecnológico.

Além disso, os seus principais componentes, e os capitais internacionais e as organizações transnacionais, que passaram de 6.000, em 1970, para 60.000 atualmente, evoluíram de tal forma que fogem completamente a qualquer controle a nível das nações, individual ou coletivamente. Este é um processo tão recente e envolve tantos interesses, que não se chegou a qualquer tipo de solução e já se transformou em um sério impasse institucional e das alianças transfronteiriças.

A globalização é ainda um processo sem precedentes em sua magnitude, que ainda não foi completamente compreendido quanto a sua forma, sua natureza ou ao seu alcance e tem sido confundido com uma economia completamente globalizada, o que não é verdade.

Entretanto, negar que ele tenha efeitos positivos e negativos torna-se irrealista até porque eles já podem ser nitidamente sentidos. Isto seria algo como negar, pelos mesmos motivos, que a medicina está evoluindo, eventualmente com alguns tropeços e correções de rumo, porque nem todas as doenças foram curadas.

Por outro lado, conforme o artigo da Worldwatch , o comércio internacional aumentou 17 vezes, passando de US$ 311, em 1950, para US$5,4 trilhões, em 1998, e os investimentos diretos foram multiplicados por 15, nos últimos vinte anos. Porém, se notarmos este números refletem principalmente o atendimento das necessidades de um crescente aumento da população. Tanto isto é verdade que houve um aumento no volume físico das transações, não somente no preço dos produtos, e uma importante parcela deste comercio é de alimentos, remédios e combustíveis resultado de trocas que respondem as carências dos países que não produzem estes bens de primeira necessidade.

Entretanto, isto pode representar tanto exportação de água, de sol, de nutrientes naturais limpos, insumos puros, biodegradáveis, recicláveis, quanto de produtos fabricados com elementos químicos nocivos ou incorporando defensivos agrícolas, hormônios, componentes farmacêuticos e, até doenças. Tudo depende não só dos insumos envolvidos mas qual o estrago que deixaram na origem como resultado da forma que eles foram produzidos e do tipo de tecnologia aplicada.

O que, sem duvida, nos mostra a importância que tem o conhecimento quando ele é aplicado em tecnologia de produção. Já sabemos que ela pode ser utilizada em beneficio ou não do homem. Porém, é fundamental também compreendermos que os recursos tendem a tornarem-se mais escassos quando a demanda, criada pelo aumento da população, é maior do que sua disponibilidade, sua geração ou sua renovação. E, isto, depende de decisões que nós tomamos.

Somente teremos um aumento de produção de bens e serviços capaz de superar este gargalo, com sustentabilidade ambiental, com tecnologia limpa e sem depredar os recursos naturais quando houver uma seria mudança nesta visão antropocêntrica e promovermos as transformações culturais e sociocomportamentais necessárias. Ou seja, quando tivermos a lucidez de entender que viveremos mais e com melhor qualidade na medida de nossa adaptação aos demais sistemas, e ao Sistema.

E que, sem duvida, o termômetro não pode ser culpado pela nossa febre.

Carlos Alberto A . do Amaral* Economista, MBA- Mast– Berkeley, Ca - Consultor de Empresas - Professor do CTA – Consultant Trade Adviser- co -autor do livro Introdução à Globalização - Em co-autoria com Ricardo W. Caldas- E-mail caaamaral@uol.com.br


"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"     Peter Drucker

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