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03027000056 - Environment Justice x Finance - O Estado de São Paulo - Sem-terra e ciência defrontam-se em São Paulo - Por CARLOS SOULIÉ DO AMARAL 05/09/00

Environment Justice x Finance -

O Estado de São Paulo

Sem-terra e ciência defrontam-se em São Paulo

Por CARLOS SOULIÉ DO AMARAL* - Especial para o Estado 

03.09.2000

Famílias ocupam fazenda do governo que se destaca   na pesquisa agropecuária

Um confronto inédito surge na área agroindustrial mais   desenvolvida do País: a nova invasão da Estação Experimental de  Zootecnia de Sertãozinho, no norte de São Paulo, apresenta um  grupo de sem-terra que apela não apenas "contra a injustiça social",  mas, sobretudo, contra o espaço da ciência e da pesquisa  promovida pelo Estado, que, no entender dos invasores, "está  exagerado".

Por isso, e "com o objetivo de pôr em xeque a política  superada de utilização de terras públicas para pesquisas   científicas", conforme declarou ao Estado o líder máximo da  invasão, Hélio Neves, presidente da Federação dos Empregados  Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp), os sem-terra estão mostrando à região da Mogiana "e também ao  Brasil inteiro" seu poder de fogo.

Esse poder não fica apenas no espaço metafórico, como bem demonstrou a ocupação que ocorreu pouco antes da  meia-noite do dia 4 de agosto. Desde então, 330 "famílias" de  trabalhadores rurais filiados à Feraesp, com sede em Araraquara e  C.G.C. número 58998915/001-18, estão espalhadas na Estação  Experimental, uma fazenda de 1.780 hectares.

Apreensão - Até agora, os sem-terra já atearam fogo em   pastagens e capineiras, queimaram as bordas e partes internas da  mata nativa que constitui a maior reserva ecológica da região,  abateram capivaras, destruíram cercas e bebedouros, contaminaram  o manancial de água potável que abastece as casas das 50 famílias  residentes no lugar e mataram 17 cabeças de gado. Os funcionários  e moradores desse centro conhecido e reconhecido nacional e   internacionalmente pelos trabalhos de melhoramento genético  aplicados no estudo da única raça bovina genuinamente brasileira, a  caracu, bem como em provas de ganho de peso das raças nelore,  gir e guzerá, de origem indiana, vivem dias de apreensão,  sobressalto e angústia.

O governo do Estado aguarda a ordem judicial de   desocupação da área. Mas os sem-terra se movimentam no fórum  de Sertãozinho, afirmando que não vão sair de suas barracas e que  aguardam uma audiência com o governador. Já cuspiram na cara de  um sargento da Polícia Militar. Já foram recebidos pelo secretário da  Justiça. Mas acham que isso não foi bastante. Impunes, continuam  matando vacas e bezerros, esquartejando-os e deixando no pasto  apenas a cabeça e a barrigada das reses abatidas. O juiz de   Sertãozinho diz que está estudando o caso, sem decidir se  restabelece ou não a ordem de reintegração de posse suspensa a  pedido do promotor.

Sem solução - E o caso, que já poderia estar resolvido,  continua sem solução por causa, aparentemente, de uma questão  de vaidade pessoal ferida. Ou, como prefere dizer o promotor  Sebastião Donizeti Lopes dos Santos, que evitou a retirada dos  invasores quando tudo estava pronto para efetivá-la, em virtude de  "uma indelicada falta de comunicação".

Situada no km 94 da rodovia SP-333, entre os municípios de  Barrinha e Sertãozinho e a 30 quilômetros de Ribeirão Preto, a  Estação Experimental de Zootecnia, órgão do Instituto de Zootecnia  da Secretaria da Agricultura, existe desde 1930. Nela se fez a  primeira reunião de hipólogos e técnicos destinada a tipificar os  eqüinos da raça mangalarga. Mas o destino da estação foi o estudo  da possibilidade de se conseguir ganhos de produtividade, pelo  melhoramento genético, na produção de carne bovina.

Os resultados do trabalho desenvolvido nos 70 anos de   existência desse centro de pesquisa são extraordinários. De início,  foram selecionados os rebanhos da raça caracu (espécie oriunda da  adaptação ao clima tropical e subtropical dos primeiros taurinos  trazidos para a América pelos colonizadores portugueses) e das  três raças zebuínas que para cá vieram desde o fim do século  passado: guzerá, gir e nelore. (Na verdade, a última é uma mistura   das raças brancas da Índia - ongole, missore, ariana e kangaian -  sendo o nome brasileiro derivado do porto onde o gado era  embarcado.)

Lucros - Definidos e apurados os rebanhos, começaram, a   partir de 1951, as provas de ganho de peso. Hoje, a Estação  Experimental de Sertãozinho tem 2.700 cabeças de gado  registradas, é economicamente auto-sustentável, emprega 67  pessoas, entre pesquisadores, técnicos e funcionários - e dá lucro.

Há 23 anos, empenha-se em avaliar as mudanças genéticas  decorrentes da seleção feita com base nas provas de ganho de   peso, quantificando a melhoria obtida em relação a rebanhos não   selecionados.

Esta é a única pesquisa do gênero em todo o mundo. O   diretor da Estação, Leopoldo Andrade de Figueiredo e o pesquisador   Alexander George Razook, conduzem o programa e revelam as  conquistas já alcançadas: "Nesses 23 anos, os bezerros ganharam  3 quilos por ano aos 12 meses de idade; isso significa que  conseguimos aumentar em 69 quilos a quantidade de carne que  cada animal resultante de nossa seleção apresenta ao completar  um ano de vida." Mas as conquistas não param aí.

O gado vai para o frigorífico aos 18 meses. A diferença de  peso apurada em relação a animais que não são do rebanho  selecionado é 125 quilos por cabeça. Ao mostrar esses dados,  oficialmente conferidos, Figueiredo e Razook recebem a notícia de  que mais duas novilhas, prestes a darem cria, foram mortas pelos  sem-terra na tarde de 1º de setembro.

Bodas de ouro - E, numa voz constrangida, cheia de   desânimo e tristeza, observam: "Não estamos brincando de fazer   pesquisa, estamos dando uma contribuição para o aumento da  produção de carne, via genética, a campo, sem acréscimo de custo  para o produtor, cujo resultado final será o prato do brasileiro; mas,  infelizmente, essa invasão começa a comprometer todo o nosso  programa." Folheando a pilha de boletins de ocorrência registrados  na delegacia de Sertãozinho, Figueiredo comenta:

"Corremos o risco de não concluir a 50ª prova anual de ganho  de peso, com a qual iríamos comemorar as bodas de ouro da   pesquisa."

Diante de algumas barracas na área de plantio de milho da  fazenda, ao lado de um bebedouro destruído, Jaci Mariano, um dos   coordenadores da ocupação, rodeado de companheiros, também  quer comemorar. "Nós invadimos a Experimental no dia 3 de  setembro do ano passado", registra. "Ficamos aqui até o dia 18 de  maio; plantamos arroz, feijão, milho e mandioca; colhemos bem e  tivemos comida, remédio, roupa para viver até agora; no ano  passado eram 700 famílias, agora são 330 as que estão aqui,"   avalia. "Quem tinha para onde ir já foi, os que restaram somos nós,
que vamos comemorar um ano de luta nessa terra."

A única mulher da roda, Aparecida Camargo, interrompe Jaci  para se manifestar. "Se a terra é do governo, a gente, que é pobre,   merece ficar com ela em lugar da pesquisa e do gado que estão  aqui." A intervenção de Aparecida faz sucesso. Em coro, os  membros da roda exclamam: "Isso mesmo!" E Aparecida explica:

"Somos 330 famílias de todo jeito; tem gente com dois filhos, tem  uma com sete filhos, tem homem sozinho e mulher sozinha, que   nem eu; mas ninguém tem para onde ir e ninguém vai sair daqui."

Jaci tem dois filhos. "Mas nem eu nem ninguém daqui tem  boa formação escolar; o que sabemos fazer é trabalhar na terra,  onde o emprego está cada vez mais difícil; como ajudante de  pedreiro, não dá para viver na cidade", argumenta. E Aparecida se  mostra esperançosa: "O promotor e o juiz de Sertãozinho estão  ajudando a gente, o doutor Sebastião (o promotor) é muito bom." Os  chefes da ocupação negam que tenham matado vacas e novilhas e   se dizem inocentes em relação aos incêndios. Um colega de Jaci  chega a afirmar que "por certo foram os empregados da fazenda que  puseram fogo nos pastos".

Os empregados da fazenda estão com medo.

Laércio Franchini, que trabalha na Estação Experimental há  32 anos (ele nasceu lá) foi num domingo, dia 13, ver como estava a   nascente de água que abastece os moradores e a sede. Viu umas  dez mulheres lavando roupa na fonte. Seu relato: "Assim que me  viram, elas gritaram; então um negrão, líder deles, veio para cima de  mim com um caibro de dois metros e me atacou; consegui me  desviar do primeiro e do segundo golpe, graças a Deus, a Nossa   Senhora Aparecida e ao meu anjo da guarda, mas ele arrebentou o  pneu da minha bicicleta; saí correndo, arrastando a bicicleta, e  quando cheguei no bico da mata, meu irmão apareceu a cavalo e  ajudou a sossegar o povo que me perseguia gritando `mata! mata!' E  foi assim que escapei da morte."

Por sorte, perto da sede existe uma mina que foi reativada e  passou a fornecer água potável aos moradores.

Divulgado por Fábio Cyrillo email:cyrillo@sesupermercados.com.br


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