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03027000085 - Environment Justice x Finance - Os Equivocos Energéticos do Brasil continuam - Por Sidney Gripp 19/10/00

Environment Justice x Finance

Os Equivocos Energéticos do Brasil continuam

Por Sidney Grippi*

O problema da falta de perspectivas e os equívocos energéticos que vem surgindo no Brasil, afligem o país dado principalmente a ausência de um planejamento energético competente não visto até aqui. Nossa matriz energética atual é totalmente focada nos recursos hídricos e na "benção de São Pedro em mandar chuvas"; com uma capacidade instalada de 64.000 MW, quando não chove para encher os reservatórios, esta capacidade oscila entre os 30 - 40.000 MW. Segundo especialistas, a demanda necessária hoje no Brasil encontra-se na ordem de 80.000 MW. Em se falando de erros de planejamento energético e de equívocos também energéticos, temos no empreendimento da geração de energia núcleo-elétrica, o caso mais desastroso.

Os bilhões gastos até aqui com a iniciativa da energia nuclear, mal representam 1% da energia elétrica produzida no país, com isso, não há um retorno satisfatório ao grande investimento realizado com esta forma de geração de energia. Com a entrada em operação de Angra II (e somente se esta funcionar bem) e ainda o perfeito funcionamento de Angra I, esta capacidade instalada pode saltar para próximo dos 3%; ainda assim, insatisfatória para as necessidades atuais do país e com um retorno em benefícios muito baixo, dado ao alto investimento realizado como dito e os riscos industriais presentes.

Após mais de 20 anos da criação do programa nuclear brasileiro e a alternativa da energia nucleo-elétrica, esta leva-nos a contramão da atual tendência mundial onde países detentores desta mesma forma de geração de energia, como por exemplo o "pai atômico do Brasil", a Alemanha, estes vem desativando gradativamente suas centrais nucleares e buscando novas formas de fontes energéticas; e o que é mais surpreendente, através de fontes naturais renováveis como a solar ou a eólica. No que tange a Alemanha, país onde o Brasil foi buscar acordos leoninos e knowhow para seu programa nuclear e a construção das usinas termonucleares Angra II e III, esta caminha progressivamente fechando suas instalações nucleares e revendo sua matriz energética. Na última viagem do presidente da república a este país, ele ouviu um sonoro não do governo Alemão, sugerindo que os recursos pedidos pelo presidente fossem canalizados em investimentos em fontes de energia renováveis e não na construção de Angra III como pretendia. O parque de geração de energia eólica na Alemanha, já encontra-se no patamar de 1.570 megawatts de capacidade elétrica instalada, superior inclusive, a Angra II que eles nos venderam há 20 anos atrás e que foi recentemente inaugurada, esta entretanto, não chegando aos 1.300 MW de capacidade, menor portanto, que o atual parque eólico da Alemanha. O pai disse um não ao filho que não fez o dever de casa como deveria. Outros dados indicam que nos Estados Unidos, somente em 1999, a energia produzida com a força dos ventos aumentou 19% e na Dinamarca, 10% de toda energia produzida no país, provém desta mesma fonte natural.

Depois desta introdução, podemos concluir que mal começamos com a energia nucleo-elétrica e esta já é um seguimento em extinção no mundo como poderá ser percebido, mesmo sendo o outro lado da energia nuclear, sinistro e funesto, um elemento bastante cobiçado pelos militares, da mesma forma que as armas químicas e as biológicas. Talvez seja este então o legado do programa nuclear brasileiro, quando a razão de sua existência era deixar de ser colônia das grandes potências mundiais e dominar a fissão do átomo como fonte de geração de energia elétrica, para fins pacíficos e econômicos; e não para fins militares. Com todos estes equívocos de planejamento energético, já que a eletricidade núcleo-elétrica é uma parcela muito pequena de nossas necessidades, ainda somos vulneráveis a sua falta. Vale destacar que militares no mundo inteiro, são fascinados pela energia nuclear porquanto seu potencial para ser usada como arma e mostrar poder de dissuasão. Assim o mundo presenciou a guerra fria durante anos, sendo que a verdadeira "guerra quente", infelizmente foi protagonizada pelo pai militar atômico, os Estados Unidos, que desde 1940 vinha colocando em processo de gestação a bomba atômica, ou simplesmente projeto Manhattan, que teve seu funesto auge com a destruição das cidades de Hiroshima e Nagasaki no Japão, o único caso conhecido do uso de bombas atômicas como instrumento para exterminar seres humanos. Aqui no Brasil, esta aventura novamente atrasada diante do contexto mundial, sem sentido e como dito na contramão da tendência global, indicam passos de nossos militares na direção do submarino nuclear cujo projeto vem sendo desenvolvido no distrito de Iperó na cidade paulista de Sorocaba e o projeto Atlântico, para desenvolvimento de um reator de gás-grafite em Guaratiba no estado do Rio de Janeiro, com a finalidade de produzir plutônio, que como todos sabem, é o principal insumo para a fabricação de bombas nucleares. Assim como o urânio está como elemento combustível para os reatores das centrais nucleo-elétricas, está o plutônio como combustível para as armas nucleares. Com tudo isto, ainda não temos sequer, um local seguro para disposição do rejeito nuclear produzido no país. Finalizando, chegamos a conclusão que, no Brasil assim como na maioria dos países, os programas nucleares para fins militares, se desenvolvem secretamente e à sombra dos programas civis para geração de energia núcleo-elétrica. Ainda no caso particular do Brasil, a energia nuclear está sob forte influência da secretaria de assuntos estratégicos, órgão do governo federal, muito embora se seu objetivo fosse realmente e tão somente a núcleo-eletricidade, pacífica e econômica, caberia estar vinculada aos órgãos da ciência e tecnologia ou ainda das minas e energia, e não na mão de arapongas, o que confirma o equívoco maior do governo brasileiro em montar eficientemente sua matriz energética deixando uma pequena e desprezível parcela desta, na mão de militares. 

Assim, com uma matriz energética 96% focada nos recursos hídricos, como já afirmado, estes estão ficando cada vez mais escassos. Termoelétricas a óleo e a carvão mineral são altamente poluidoras, termoelétricas a gás, menos poluentes mas da mesma forma impactantes ao ar dada a emissão de dióxido de carbono, tem sua origem em uma fonte de recurso natural não renovável, portanto esgotável. A esta altura, pode-se perguntar o que nos restou então, e a alternativa existe e vem sendo amplamente usada por países de visão sustentável como os já exemplificados.

É sabido que em certas regiões brasileiras, existem correntes de vento suficientes para impulsionar geradores eólicos com capacidade para fornecer energia elétrica para pequenas populações ou ainda para áreas agro-industriais. Sabemos que um projeto de 15 MW é o suficiente para abastecer de energia 15 mil residências. A costa marítima do estado do Ceará, tem se revelado como uma área potencial. O aproveitamento da fonte solar para geração de energia, é outro exemplo mau utilizado. O Brasil tem sol praticamente o ano inteiro, seria talvez a solução para as populações do nordeste investimentos cujo retorno fosse na ordem dos 100 MW de demanda instalada como vem desenvolvendo uma multinacional Holandesa que tem investido pesado na exploração de fontes limpas de energia. O biogás, poderia ser outra solução ao ser extraído de aterros ou de processos de decomposição anaeróbios de lodo de estações de tratamento de esgoto, neste caso em particular, precisaríamos que outras mazelas brasileiras como a ausência de estações de tratamento de esgoto e a disposição de resíduos em lixões, fossem resolvidas. O biocombustível, produzido com óleo de girassol ou soja, ainda é um recurso raro, limitando-se a escalas laboratoriais nos institutos de pesquisa.

Com isso o país vive fragilizado, no vermelho em 16.000 MW e a possibilidade da falta de energia elétrica ainda não acabou, com isso problemas de apagões, blecautes e a falta de luz, não cessaram totalmente, simplesmente porque não existe um planejamento energético satisfatório e eficiente, voltado principalmente ao desenvolvimento sustentável. São prejuízos severos na indústria com perdas de produção, nos domicílios e sem falar no que se perde pela falta de novos investimentos devido a um sistema estrangulado, obsoleto e vulnerável. Em contra partida, o meio ambiente nunca foi tão generoso em prover as fontes de energia naturais e os defensores da energia núcleo-elétrica, por outro lado, insistem em colocar esta no mix de possibilidades do sistema energético nacional, mesmo que estes volumes não consigam ultrapassar a casa dos 3% em demanda de megawatts elétricos instalados como demonstrado. É bom esclarecer que para chegar a este número, 3%, Angra III precisa ser ainda construída, e as outras duas operarem satisfatoriamente. Muito pouco retorno dado ao alto investimento financeiro e ao alto risco industrial envolvido. 

A despeito do que se imaginava, como já foi abordado, os recursos hídricos potencialmente existentes para geração de energia elétrica no Brasil, estão ficando cada vez mais escassos; sistema este que é responsável por 96% da produção de energia elétrica no país. O Brasil precisa de visão estratégica, voltada a sustentabilidade e a sobrevivência futura, com progresso, qualidade de vida e preservação ambiental. Os recursos naturais estratégicos são plenamente disponíveis nos dias de hoje, é uma questão de mudança na matriz energética atual. As usinas termoelétricas movidas a gás natural, tendência atual dessa tentativa de mudança, também são impactantes e de fonte esgotável, portanto limitadas nas próximas décadas. Estima-se se tudo correr bem, que até 2003 elas poderão gerar um acréscimo de 8.000 MW na matriz energética brasileira, portanto um salto na ordem dos 12%. É bom lembrar que mesmo assim, ainda precisaremos de outros 8.000 MW para atender a real demanda existente que é na ordem dos 80.000 MW segundo especialistas, permitindo assim, espaço para novos investimentos.

É hora de um acompanhamento mais eficaz para que o país mude este modelo de desenvolvimento e fuja do caos energético e principalmente do equívoco nuclear da era Geisel. Estas mudanças são necessárias em prol da melhoria da qualidade de vida, do progresso e da preservação do meio ambiente. Os investimentos em fontes de energia alternativas não são uma utopia. Existe a plena possibilidade de crescimento econômico nas linhas do desenvolvimento sustentável. Espero entretanto, que não venhamos a lembrar disso exatamente na próxima falta de energia elétrica. No mundo 21, é necessário que todos reflitam sobre a sustentabilidade do planeta, a desmilitarização, a paz e acima de tudo, o respeito a vida, conhecendo melhor a carta da terra e seus princípios para um mundo melhor no novo século onde as ações do homem deverão estar focadas acima de tudo no desenvolvimento sustentável e na preservação do planeta.

http://www.earthcharter.org/draft/charter_po.htm

Sidney Grippi, Biólogo pós-graduado em Engenharia de Meio Ambiente pela Escola de Engenharia da UFRJ, pós-graduado em Perícia e Auditoria Ambiental pelo Centro de Estudos Ambientais da Universidade Estácio de Sá/RJ, possui especialização em Meio Ambiente pelo Instituto Tecnológico Ambiental Mapfre, Espanha, Environmental Auditor and Lead Assessor of Quality Systems. E-mail: grippi@resenet.com.br


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