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03027000089 - Environment Justice x Finance - Os Ambientalistas e o Tabagismo - Por Sérgio Luís Boeira 24/10/00

Environment Justice x Finance

Os Ambientalistas e o Tabagismo

Por Sérgio Luís Boeira *

Nós precisamos fazer autocrítica. Ou não? A julgar pelo silêncio dos ambientalistas brasileiros a respeito do tabagismo, pode-se concluir que estão mais envolvidos pela ideologia liberal do que gostariam de admitir. Claro, sempre há as honrosas exceções, mas neste caso apenas confirmam a regra. O ambientalismo brasileiro tem um forte componente individualista e liberal, às vezes disfarçado de esquerdismo ou populismo. Refiro-me ao fato de que para muitos ambientalistas o direito do fumante de jogar para dentro do seu próprio corpo uma porção inacreditável de toxinas e depois expelir outro tanto para o ambiente é algo perfeitamente "normal". A psicologia "cordial", tal como no caso do racismo, impede-nos de ver que o sujeito que fuma é também um predador da natureza, tanto da sua própria quanto de florestas e até da camada de ozônio. Refiro-me ao processo produtivo das folhas de fumo, em que se utilizam estufas à base de lenha, em grande parte de árvores nativas, e também ao uso de agrotóxicos como o brometo de metila, que agride a camada de ozônio 50 vezes mais do que os gases CFCs (segundo a ONU). Também cabe lembrar os inúmeros incêndios derivados de cigarros.

A quase totalidade da crítica antitabagista parte de médicos e de ex-fumantes, enquanto que aos ambientalistas da região sul do país, na qual são produzidas 90% das folhas de fumo e grande parte dos cigarros, tem restado o silêncio ou projetos agroecológicos, na tentativa de diversificar a produção agrícola das famílias que dependem da fumicultura para sobreviver. Na sua maior parte, as ONGs ambientalistas desconhecem as estratégias ardilosas e inescrupulosas das indústrias de tabaco. Os fumantes, idem. Muitos ficam agressivos diante de qualquer crítica, e podem até fumar mais um cigarrinho para mostrar ao mundo sua "liberdade". A manipulação tecnocientífica, a fraude, a propaganda enganosa, o controle de parte do contrabando de cigarros, a corrupção de políticos, de cientistas e de artistas por parte da "indústria da morte" tem recebido uma solene indiferença por parte de muitos ambientalistas. Nos livros de educação ambiental, o antitabagismo é raríssimo, embora se repita o chavão de que o "homem faz parte do meio ambiente". Ainda nos falta descobrir o "paradigma perdido – a natureza humana", que Edgar Morin encontrou no início dos anos 70. Para muitos de nós, poluir uma lagoa é algo bárbaro, mas promover a morte de quase 100 mil pessoas por ano com milhares de toxinas faz parte da liberdade de mercado das empresas e do sagrado direito do consumidor de "fazer do seu corpo o que bem entender". Assim, erra-se por todos os lados. Fica-se prisioneiro do fetiche da mercadoria (cigarro) e do processo tecnocientífico de manipulação do cérebro pela nicotina misturada com amônia, formol, pólvora, cádmio, acetona, naftalina, butano e outras 4.700 substâncias tóxicas. O fumante é simultaneamente vítima e predador.

A indústria de fumo é responsável por grande parte da devastação da Mata Atlântica na região sul, desde 1918, ano em que introduziu no país o uso sistemático de sementes do tipo virgínia, financiando em seguida agricultores para que os mesmos construíssem estufas e secassem as folhas queimando árvores nativas. Na região o total de estufas passou de 94.942 para 116.559, entre 1995 e 1998, portanto um aumento de 21.617 unidades. As indústrias controlam todo o processo produtivo por meio de um contrato dito de "compra e venda", inclusive atribuindo aos fumicultores toda a responsabilidade pelos danos ambientais. Pagam a cada uma das 150 mil famílias (sem contar as outras 50 mil de outras regiões do país) a miséria de 2 a 5 mil reais por ano, em média. É comum, principalmente no nordeste, o trabalho infantil nas lavouras de fumo. Entretanto, a maior parte dos ministérios apóia abertamente a indústria de fumo, isolando politicamente o ministério da saúde. É um caso típico de "anel burocrático", como diria Fernando Henrique Cardoso nos seus velhos tempos de sociólogo.

Sérgio Boeira é Doutor em Ciências Humanas (UFSC) e autor da tese "Atrás da Cortina de Fumaça. Tabaco, Tabagismo e Meio Ambiente: Estratégias da Indústria e Dilemas da Crítica". email: slboeira@matrix.com.br


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