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03027000094 - Environment Justice x Finance - Salon.com - http://www.salon.com/ - Zen, Palestina e debates na América - Por Camille Paglia* Tradução Pedro Doria e Leonardo Pimentel* 29/10/00

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Salon.com - http://www.salon.com/

Zen, Palestina e debates na América

Por Camille Paglia* Tradução Pedro Doria e Leonardo Pimentel*

[ 25.Out ]  Com o centro de gravidade da campanha para a presidência americana tendo se deslocado para fora do país com o aumento da tensão e o conflito aberto no Oriente Médio, os Estados Unidos encontram-se numa posição perigosa. Com a falta de visão militar e um planejamento estratégico empobrecido, ambos demonstrados pela vulnerabilidade do destróier USS Cole, atacado por um pequeno bote no porto de Aden no Iemen, aumentaram as chances de o presidente Bill Clinton, já preocupado com as aparições desastrosas do vice Al Gore, ordenar intervenção militar em algum lugar do mundo antes do dia da eleição. Podemos apenas esperar que, se isto acontecer, será uma ação medida e racionalmente dirigida para resolução e não outro exemplo da política de abuso militar orientada a conseguir alguma vantagem dentro de casa.

A repentina crise no Oriente Médio também desestabilizou a temporada de campanha ao fazer ressurgir a questão irritantemente recorrente de qual o papel exercido ou não pelos judeus americanos no apoio dos EUA a Israel. Na Marcha de Um Milhão de Homens organizada pela Nação do Islã em Washington, na última semana, um jurista muçulmano sírio culpou o que chamou (segundo o jornal "Washington Post") de a "mídia sionista" nos EUA pelo mal tratamento à causa palestina. Enquanto a maioria dos observadores iriam rejeitar categoricamente esta idéia inflamatória, é verdade que a Web permitiu aos americanos que monitorassem reportagens bem mais balanceadas na cobertura do Oriente Médio feitas pela imprensa européia, britânica e canadense.

"Conversão ao Islã está crescendo entre afro-americanos", disse o título de matéria escrita por Monica Rhor na edição de 14 de outubro do "Philadelphia Inquirer". Ao longo dos últimos 40 anos esta tendência tem estimulado um sentimento pró-árabe e anti-semita entre uma comunidade que o Partido Democrata sempre viu como parte de suas bases. A escolha de um judeu ortodoxo, o senador Joseph Lieberman, para vice da chapa de Al Gore foi muito popular entre profissionais liberais brancos de classe média e acadêmicos do nordeste americano, mas parece ter gerado tensão entre trabalhadores negros urbanos, cujo voto no dia da eleição é crucial tanto para Gore quanto para a primeira-dama Hillary Clinton, que disputa uma vaga no Senado pelo estado de Nova York.

O poder do lobby pró-Israel – que certamente não inclui todos os judeus americanos, que à esquerda e na Academia tendem a ser simpatizantes dos palestinos – é demonstrado pelo comportamento desconcertante de Hillary quando ela começou a disputar ativamente a cadeira. Tendo uma história de simpatia pela criação do Estado Palestino, chegando ao ponto de manter um relacionamento de beijos e abraços com a senhora Arafat, a candidata tem cautelosamente reconstruído seu discurso para ganhar o apoio do eleitorado judeu, que representa algo entre 10% a 12% dos novaiorquinos. O fato de que havia poucos negros (fora estrelas de Hollywood) na lista oficial dos 404 "amigos" que foram convidados para discretas noites na Casa Branca entre julho de 1999 e agosto último, diz tudo sobre onde os Clintons acreditam que o poder realmente está.

Raiva e ódio na multidão

Mas imagens contam milhares de histórias, e rompem a censura por parte da imprensa. Os horrores e as paixões irreconciliáveis do Oriente Médio foram recentemente dramatizadas pela morte de um menino palestino de apenas 12 anos, atingido pelo fogo cruzado enquanto tentava proteger-se com seu pai numa rua de pedra. Mais tarde, o massacre e a mutilação bárbara de dois oficiais israelenses de reserva numa estação policial em Ramallah chocaram o mundo. O furor da multidão e seu uso de postes de metal e até da esquadria de uma janela para destroçar os corpos lembram o desenlance sangrento de "De repente, no último verão", peça de Tennessee Williams que termina com um grupo de meninos mendigos espanhóis que destroçam um esteta rico com cacos afiados de latas e pedaços de metal vindos do lixo. É o ódio despertado por um desespero abjeto, a vingança dos explorados e despossuídos que terminam por desumanizar ambos os lados.

O que passou com poucos comentários pela imprensa americana foi o difundido vídeo do que aconteceu posteriormente naquele dia, quando um helicóptero israelense limpou a cidadezinha de Ramallah, já deserta, com mísseis. O prejuízo foi contra propriedades, não pessoas. Ainda assim foi profundamente perturbador e ilustra, melhor do que qualquer outra coisa que eu tenha visto, o grau em que o superior poder militar israelense, provido pelos EUA, tem intimidado e brutalizado palestinos desarmados e desviado o ódio árabe contra americanos. Aquelas máquinas monstruosas feitas com a mais alta tecnologia pairando impessoalmente sobre as antigas montanhas de Ramallah, forradas com pequenas casas quadradas e simples, me lembraram as cenas terríveis, apocalípticas, do filme "A guerra dos mundos" de 1953, quando espaçonaves marcianas varrem lenta e constantemente cidades da Terra.

Dados os sentimentos intratáveis do pessoal de linha dura de ambos os lados, dos militantes islâmicos que querem destruir Israel aos religiosos fundamentalistas judeus que acreditam que Deus lhes passou a propriedade daquela terra, nunca fui otimista em relação ao "processo de paz" lançado com fanfarra sete anos atrás pelos acordos de Oslo. Se os judeus lembram de Jerusalém passados 1.900 anos da diáspora (provocada pelos meus ancestrais, os romanos imperiais) então como podem esperar que os palestinos esqueçam, em apenas 50 anos, as terras e propriedades que foram roubadas pelos europeus carregados de culpa tentando reparar crimes cometidos por europeus contra judeus? Culpar as nações árabes por não ter feito as coisas mais fáceis para o ocidente absorvendo os palestinos em suas populações é tanto fútil quanto problemático do ponto de vista étnico.

Mas Israel agora é fait accompli (fato consumado) e é nosso aliado democrático mais confiável no Oriente Médio, por onde muito de nossa política passa por conta de nossa super-dependência do petróleo estrangeiro (e de combustíveis fósseis em geral). É difícil imaginar como os EUA podem substancialmente modificar seu compromisso com uma nação com conexões tão intrincadas com cidadãos americanos em cargos tão altos. Por outro lado, a confidência israelense no apoio americano e na ajuda econômica tem feito seus governos arrogantes e talvez prolongado os conflitos por lhes dar pouca razão para assumir compromissos. Seja como for, um debate mais aberto é necessário para discutir a aliança histórica entre Estados Unidos e Israel. Com freqüência demais criticar a política israelense tem sido visto e tratado como se fosse anti-semitismo.

Os debates americanos

Voltando à política doméstica. Um grande número de leitores reclamou que eu deveria ter publicado comentários logo em seguida dos debates presidenciais, entretanto, devido a minhas tarefas como professora, esta coluna está agora sendo publicada a cada três semanas. Eu participei da mesa-redonda da "Salon" sobre o primeiro debate, no qual senti que o desprezível, suspirante e compulsivo por papéis Al Gore mostrou-se juvenil e estranho. Sobre o monótono segundo debate, no qual um Gore subjugado ainda estava muito presunçoso, tenho pouco a dizer, exceto que o muito vago George W. Bush, com seus lábios franzidos e sua postura empertigada (para aumentar sua altura?) lembrava-me ora Ross Perot (milionário e candidato independente nas eleições de 1992), ora o quadro A Mãe, de Whistler.

Sobre o terceiro debate, entretanto, tenho muito o que dizer. Os comentários do gênero "remando com a maré" feitos por jornalistas profissionais sobre o evento foram lamentavelmente errados. O debate de Saint Luis deveria entrar para a História como o mais brilhante uso da TV por um candidato (no caso, Bush) desde que o carisma de John F. Kennedy empalideceu outro experiente e bem-informado vice-presidente, Richard Nixon.

Aqueles que creditam a Gore a vitória no debate conhecem pouco de TV e de sua relação com um grande público. Após mais de duas décadas na política, Gore mostrou que nem ele nem seus assessores entendem de TV ao vivo. Gabando-se dos "mil encontros com a comunidade" que diz ter comandando, Gore entrou no debate pensando ter que impressionar e convencer a platéia de eleitores declaradamente indecisos (mas que curiosamente soavam liberais) sentada diante dele. Mas, após suas fracas performances nos debates anteriores, quem ele tinha que alcançar era a grande e invisível massa de telespectadores em todo o país.

Gore e sua equipe (incluindo provavelmente sua afetada filha Kareena) cometeram um enorme erro quanto à apresentação. As piruetas de Gore, sua mania de apontar para as pessoas e seu movimento constante no palanque podem ter parecido dinâmicos e dominantes para o espectadores que estavam lá. Só que essa coreografia estava fora de sintonia com as câmeras, às quais ele se mostrava pouco atento – a não ser quando sentava-se numa postura estudada ou levantava-se com vigor. A maneira de Gore ocupar o espaço no palco restrito foi inábil e incoerente. Logo, para os telespectadores, seus movimentos pareciam estranhos, erráticos, febris, disconectos e caóticos, dando a impressão não de autoridade presidencial, mas de instabilidade psicológica.

Acrescente-se a isso a assustadora incapacidade de Gore para modular sua voz ao microfone e comunicar-se de forma eficiente com os telespectadores, muitos dos quais estavam chegando em casa ou (na Costa Leste) prontos para dormir. Gore estava determinado de modo tão implacável a conquistar o pequeno grupo em Saint Luis que berrava em alto volume num ritmo forçado, monótono e quase sem fôlego, muito mais adequado a um comício. Enquanto Bush freqüentemente parecia não ser capaz de completar as próprias frases, Gore parecia estar recitando, o que o fez perder grandes oportunidades – por exemplo, não conseguiu assumir um tom de conversa ao descrever como fora chamado à Casa Branca na semana anterior para ser informado quanto à crise no Oriente Médio.

A arte zen de Bush filho

A grande notícia, surpreendentemente, é como Bush reagiu à afetação de Gore. Não ficou claro se era resultado de um treinamento soberbo ou de seus próprios instintos, mas quando era hora de Bush falar, ele tratava a câmera como se fosse íntima, como se ele e os telespectadores em casa estivessem unidos contra uma intimidante máquina de vento. Depois de algum tempo os berros ensurdecedores e indiscriminados de Gore chateavam tanto que qualquer coisa que Bush dissesse, não importa quão desconjuntada fosse a sintaxe, soava como um alívio, como uma chuva fresca sob o sol escaldante. Bush foi tão hábil e manhoso em cortar Gore que em dado momento eu disse a mim mesma "Isso é zen!" É isso, Bush fez de si um bambu dobrando-se ao vento; projetou uma imagem de modesta auto-contenção – mas essa é a estratégia de uma raposa.

É difícil para oradores – como sei por minha própria experiência na produção para TV – misturar a performance ao vivo com o estilo feito para TV. O que funciona muito bem em pessoa e ocupa um auditório parece muito estridente na telinha. Minha avaliação inicial do terceiro debate parece confirmada pela subida de Bush nas pesquisas logo depois – para a surpresa dos consultores democratas e de seus aliados na mídia, que nunca sacaram como os americanos escolhem seus presidentes. Ninguém quer na Casa Branca um elitista convencido e cheio de lábia. Escritores profissionais como repórteres e acadêmicos sempre superestimam o valor das palavras, que são um meio pouco confiável para conduzir a verdade emocional ou a realidade concreta (daí a força universal das artes visuais)

Como disse em minha última coluna, vou votar em Ralph Nader (candidato do Partido Verde à presidência dos EUA), uma vez que continuo acreditando que o fortalecimento de um terceiro partido é o melhor remédio para o atrofiado discurso político neste país. A recusa da grande imprensa liberal em cobrir a campanha de Nader – mesmo quando acontecem fatos historicamente graves, como conflitos entre sindicalistas pró-democratas e ativistas verdes nas ruas durante o primeiro debate, em Boston – mostra o nível de repressão da situação.

Uma vitória de Gore vai apenas perpetuar a conexão corrupta e incestuosa do Comitê Nacional Democrata com a grande imprensa e o dinheiro fácil da elite de Hollywood, cuja produção (não por coincidência) tem se tornado a cada dia mais provinciana e medíocre. O liberalismo de limosine, com sua ostentação maquiada e sua complacência tola, é uma ameaça não apenas a uma política genuinamente progressista, mas ao futuro da arte na América. O ridículo sentimentalismo politicamente correto ainda estrangula a criatividade em diversas áreas.

Aborto e ironia na política

Como membro da organização Paternidade Planejada, que é fervorosamente comprometida com o direito irrestrito ao aborto, devo protestar contra o comportamento de colegas democratas que deixaram-se ser condicionadas pelo Comitê Nacional do partido a pensar que cada voto em nível local, estadual ou nacional deve ter como foco o aborto. Isso é histeria e superstição. Não deveria haver senhas ou testes químicos para avaliar os muitos atributos que um presidente ou juiz da Suprema Corte deveria ter. Os liberais deveriam parar de grudar um adesivo de neon escrito "aborto" em toda campanha política e começar a ler e pensar mais profundamente na complexidade histórica do governo e das políticas públicas.

Sendo uma libertária, tenho também que expressar minha oposição à legislação para crimes de ódio (provocados por preconceitos raciais, religiosos ou sexuais), que não é progressista, mas autoritária. O governo deveria aplicar ou mesmo reduzir as leis existentes, não apelar para mais e mais regras e policiamento, que aumentam o tamanho e a intromissão do estado. Leis contra crimes de ódio formalizam uma inquisição ideológica que beira um policiamento de pensamento totalitário. Numa democracia, o governo não tem que ficar decidindo que um ou mais grupos merecem mais proteção que outros. A Justiça deveria ser cega.

Falando em policiamento de pensamentos, estou sendo importunada por membros do Partido Libertário que pensam possuir a palavra "libertário". Larguem do meu pé, por favor, e prestem atenção na incapacidade de seu partido em ficar em sintonia e apresentar sua credibilidade filosófica ao eleitorado nacional. Em colunas anteriores, eu disse que o Partido Libertário, que uma vez convidou-me para disputar uma indicação à presidência, é muito conservador para o meu gosto e muito distante de questões culturais. Se e quando o Partido Libertário indicar alguém como a brilhante analista Virgina Postrel, vou reconsiderar meu apoio ao Parido Verde, cujo atual estigma de socialista é realmente excessivo. Veja o texto "Processo Irônico" de Postrel, uma fascinante dissertação sobre a arrepiantemente despersonalizada visão de mundo de Gore, na edição de novembro da revista Reason.

Nessa reta final da campanha, é maravilhosamente irônico ver como os estrategistas democratas estão admitindo implicitamente que o movimento feito em maio para o controle de armas, a chamada Marcha de Um Milhão de Mães, foi um imenso erro. Ela apenas revoltou e deu forças à base republicana e afastou os democratas que possuem armas, que Gore está agora tentando seduzir com uma conversa de fim de festa em favor da caça.

Uma vez que essa é minha última coluna antes da eleição, estou nutrindo uma minúscula chama de esperança de que, quando nos encontrarmos de novo, Hillary Clinton seja coisa do passado – levada pelo vento como uma embalagem engordurada de peixe frito com batatas nas margens do Tâmisa. Se essa mulher brutal, com sua colorida história de mentiras e incompetência, for eleita para o Senado, será apenas por meio de conluio com a grande imprensa. Um exemplo: na semana passada, o "New York Times" finalmente publicou (com 16 meses de atraso) um artigo sobre a fracassada tentativa de Hillary em reformar a saúde pública, em 1993. Mas houve uma sincronia curiosa: no dia seguinte, o jornal anunciou seu apoio formal a ela.

São tantos exemplos de manipulação da mídia que eu fico me questionando a respeito dos argumentos curiosos que chegam a esta coluna. Por exemplo, diversas cartas este mês questionam a autenticidade de uma conhecida foto de Gore que o texto de seu site oficial afirma ter sido tirada no Vietnã. Os leitores afirmam que a indumentária não é tropical e só deveria ser usada em um treinamento ainda nos Estados Unidos. Eles afirmam também que Gore não poderia hierarquicamente usar o uniforme de gala que ostentou em seu casamento. Eu gostaria muito de ver essas questões esclarecidas por leitores com conhecimento específico das tecnicalidades militares.

Tradução de Pedro Doria e Leonardo Pimentel  - http://www.no.com.br/

Divulgado por Fátima Oliveira email:  <fatimao@medicina.ufmg.br> Lista Bioética


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