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03027000098 - Environment Justice x Finance - Revista Prêmio Wladimir Herzog - "Direitos Humanos" - Caros Amigos - http://www.carosamigos.com.br - Ai de Ti, Jerusalém! - Por José Arbex Jr.* 29/10/00

Environment Justice x Finance -

Revista Prêmio Wladimir Herzog -  "Direitos Humanos"

Caros Amigos - http://www.carosamigos.com.br  

Ai de Ti, Jerusalém!

Por José Arbex Jr.*

A fundação do Estado Palestino, marcada para 15 de novembro, enfrenta três obstáculos – o maior deles está na Cidade Santa. Não ultrapassá-los pode significar guerra.

Se a "questão de Jerusalém" não for resolvida no mês de outubro, haverá um novo "banho de sangue" no Oriente Médio, dizem diplomatas e "especialistas". A urgência – argumentam – é determinada pelo calendário eleitoral dos Estados Unidos (o presidente Bill Clinton encerra neste mês a sua gestão) e pelas dificuldades internas do gabinete israelense chefiado pelo primeiro-ministro Ehud Barak (que enfrenta forte pressão dos partidos religiosos e da extrema direita contra o acordo de paz com os palestinos). Saindo, eventualmente, da cena política a dupla Clinton-Barak, ninguém mais controlaria os radicais israelenses. A paz se tornaria impossível. Os palestinos, liderados por Yasser Arafat, não teriam, nessa perspectiva, outra opção senão aceitar imediatamente a solução da "questão de Jerusalém" proposta por Israel. Não é necessário conhecer o conteúdo da proposta israelense para detectar o cinismo dessa formulação: os palestinos estão sendo vítimas de um terrorismo diplomático, de uma chantagem internacional, supostamente em nome da paz.

Israel negocia a paz com a Autoridade Palestina, organização política presidida por Arafat e assentada, territorialmente, sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia (ocupadas pelas tropas israelenses em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias). A Autoridade Palestina foi fundada com base nos Acordos de Oslo, resultado de um longo processo de negociações entre israelenses e palestinos, cuja conclusão foi marcada, em setembro de 1993, pelo célebre aperto de mãos entre Arafat e o então primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin (que seria assassinado três anos depois, por um extremista religioso judeu). De conformidade com os Acordos de Oslo, a Autoridade Palestina é o embrião do Estado soberano palestino, que deverá ser fundado em 15 de novembro de 2000 (a data inicialmente prevista, 13 de setembro, foi adiada como tentativa de concluir um acordo com Israel).

Mas a fundação do novo Estado palestino esbarra em pelo menos três grandes obstáculos. O primeiro é: onde acomodar os refugiados palestinos espalhados pelo mundo (mais de 3,5 milhões) que queiram, legitimamente, voltar para casa? Israel já afirmou que poderia aceitar apenas 60.000 em seu próprio território. Os demais teriam de se acomodar na minúscula e miserável Faixa de Gaza e na Cisjordânia, ou se contentar com permanecer nos países árabes vizinhos (desde que sejam aceitos, obviamente). O segundo obstáculo diz respeito às colônias judaicas estabelecidas nos territórios ocupados. Essas colônias são habitadas, em sua imensa maioria, por fanáticos religiosos e extremistas de direita que não querem a paz. A solução encontrada por Israel é manter em seu poder as áreas ocupadas majoritariamente por colonos judeus, cedendo à Palestina outras terras não habitadas.

O terceiro obstáculo é, de longe, o mais complicado: a "questão de Jerusalém", reivindicada como capital, ao mesmo tempo, por Israel e pela Autoridade Palestina. Os árabes palestinos aceitam a partilha de Jerusalém, que seria uma capital binacional. Eles ficariam com a parte "velha" ou oriental da cidade, onde se situam os locais sagrados do Islã, incluindo a mesquita de Al-Aqsa, e Israel ficaria com a parte nova. Mas o governo israelense não aceita negociar o caráter "uno e indivisível" de Jerusalém. A proposta israelense – essa que Arafat está sendo pressionado a aceitar, supostamente em nome da paz – é a de que Israel mantenha sua total soberania sobre Jerusalém, aceitando apenas compartilhar com os palestinos o controle sobre os bairros árabes e outras áreas da cidade, incluindo o acesso à mesquita de Al-Aqsa.

Não é possível entender corretamente a dimensão dessa questão sem refletir sobre o complexo caráter cultural de Jerusalém. Declarada cidade internacional pelas Nações Unidas (em 1948), sede das três mais importantes religiões monoteístas (judaísmo, catolicismo e islamismo), local bíblico de passagem de profetas e vilões, pecadores e santos, messias e déspotas, território disputado por impérios, por cruzados e por mercadores, Jerusalém, mais do que qualquer outra cidade no mundo, é um símbolo – que transcende em muito, nessa qualidade, a sua eventual importância estratégico-militar. Quando se discute a posse de Jerusalém, o que se coloca em jogo é a posse de uma chave quase mágica, que conferirá ao seu eventual senhor a legitimidade de pelo menos 3.000 anos de história.

‘‘O ano que vem em Jerusalém’’ – na senha da Diáspora judaica, Jerusalém tornou-se o lugar mitológico de um povo milenarmente destituído de seu lugar geopolítico. Um mito de tamanho poder, uma virtualidade sustentada por uma força tão material que pôde fundamentar, culturalmente, uma coesão que desafiou o tempo, a hostilidade dos impérios e – suprema ignomínia – o holocausto de Adolf Hitler. ‘‘Sanaúd’’ (voltaremos) – na senha palestina, nessa Diáspora contemporânea, a saudação tem o duplo valor de uma advertência e de uma aspiração. Jerusalém não é, agora, um local apenas preservado pela memória. Não. Ali estão, ainda, as casas das quais palestinos ainda vivos foram expulsos pelos novos ocupantes judeus, as ruas e as construções que ainda ecoam suas vozes, mesquitas em que jamais foram interrompidas suas orações. Voltar a Jerusalém é sanar uma injustiça, costurar o que foi rompido, lavar com água fresca a amargura da des-possessão.

A luta pela posse de Jerusalém, assim, sintetiza simbolicamente a luta de judeus e árabes palestinos pelo direito ao ingresso na história. Se os judeus foram vítimas de Roma, que causou a diáspora no começo da era cristã, também foram os responsáveis pela expulsão dos palestinos, cuja semente foi plantada pelo lema do movimento sionista – "Uma terra sem povo para um povo sem terra" –, que germinou na Europa no início do século 20. A ‘‘terra sem povo’’ era a Palestina; o ‘‘povo sem terra’’, obviamente, era o judeu. A premissa sionista era completamente falsa. A Palestina nunca foi uma ‘‘terra sem povo’’. Ao contrário, foi ocupada desde pelo menos o século 7 por uma imensa maioria de árabes muçulmanos e também por minorias de árabes cristãos e judeus. Isso significava, entre outras coisas, que os judeus de origem européia, os grandes arquitetos do sionismo, só poderiam ocupar a Palestina mediante a expulsão dos habitantes árabes daquela região. E isso foi feito, como reconhece ninguém menos que o próprio general Moshe Dayan, comandante das tropas israelenses durante a Guerra dos Seis Dias.

‘‘Viemos para este país que já era habitado pelos árabes, e aqui estamos estabelecendo um Estado hebreu, isto é judaico. Em áreas consideráveis do país, compramos as terras dos árabes. Cidades judaicas foram construídas no lugar das cidades árabes. Vocês nem sabem o nome das cidades árabes, e não os culpo por isso, porque nem existem mais os antigos livros de geografia; mas não apenas os livros não mais existem, como as cidades árabes também desapareceram.’’ Dayan deu essa declaração ao jornal israelense Ha-Aretz, em 4 de abril de 1969. Temos, então, o seguinte problema: o movimento sionista europeu foi obrigado a negar a existência dos árabes palestinos, como forma de justificar e legitimar uma suposta ‘‘volta’’ do povo judeu ao seu lar de origem, a Palestina. Mas como foi possível negar a existência de todo um povo?

O professor palestino-americano Edward Said dá uma resposta: ‘‘Devemos entender a luta entre palestinos e sionistas como uma luta entre a presença e a interpretação, a primeira sendo sempre derrotada e eliminada pela segunda’’. E como a ‘‘intepretação’’ sionista ocultou a ‘‘presença’’ árabe palestina? Simples: por um jogo de mobilização de preconceitos culturais. Os árabes, do ponto de vista europeu ocidental, constituíam um povo ‘‘atrasado’’, uma civilização ‘‘estranha’’, que adotavam outros deuses, outras vestimentas, outro alfabeto. Os sionistas, ao contrário, eram cidadãos europeus (ainda quando vinham da Europa Oriental). Assim como, à época das grandes navegações, os habitantes originais das Américas eram vistos como ‘‘selvagens’’ não civilizados – prova disso é que não conheciam as letras efe, ele e erre, e não tinham, portanto, nem fé, nem lei, nem rei –, assim também os árabes eram descritos como uma civilização exótica, distante, habitantes de terras longínquas, de algum lugar que tinha existência mais forte na fantasia do que em alguma região do planeta. Eram seres desencarnados, que não possuíam história, despojados de seu passado, seu presente e seu futuro. Eram não-seres.

E assim se construiu o mito de uma ‘‘terra sem povo’’. O movimento sionista contava com a simpatia de uma forte percepção eurocêntrica do mundo, que condicionava o olhar até mesmo dos intelectuais e filósofos de esquerda, como Karl Marx, que, por exemplo, saudou o ‘‘processo civilizatório’’ do capitalismo inglês durante a colonização da Índia. Mas a ‘‘presença’’ de uma história e de uma cultura não se deixa enterrar tão facilmente. A memória de todo um povo que teima em existir foi a base sobre a qual se construiu a Autoridade Palestina, forma embrionária do Estado que resgatará para esse povo o direito à própria história.

Jerusalém, finalmente, é a teimosia da presença, ou a "persistência da memória", se quisermos empregar, metaforicamente, a magistral figura criada por Salvador Dalí. Mas tampouco Jerusalém é o condomínio de judeus e palestinos. É um patrimônio da humanidade naquilo que ela tem de mais perene, a identificação religiosa materializada em símbolos e locais ‘‘sagrados’’. Ali estão o Muro das Lamentações, as sinagogas ancestrais, os túmulos de Davi e Absalão, a Basílica do Santo Sepulcro, o Santuário da Ascensão de Cristo, o caminho do Calvário, as mesquitas muçulmanas, a tumba de Lázaro. É dessa identificação – a mesma que, nos limites tantas vezes construídos pela história, gera a intolerância cultural, o ódio étnico e exclusivista – que a ‘‘Cidade Santa’’ extrai sua força, seu magnetismo, seu enigma. Nesse sentido, Jerusalém também é o grande testemunho de que os homens hoje não são tão radicalmente distintos daqueles que vagavam pelos desertos do Oriente Médio antes de Cristo.

Subsiste, agora, o dilema. A que Estado pertence Jerusalém? É absolutamente injusto exigir que os palestinos arquem com a responsabilidade de uma decisão, "até o final de outubro", para "evitar um banho de sangue". Jerusalém, patrimônio da humanidade, é um problema da humanidade. Ai de ti, Jerusalém!

José Arbex Jr. é jornalista. casamar@uol.com.br


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