03027000106 - Environment Justice x Finance - Interdisciplinaridade e Desenvolvimento Sustentável - Por Sérgio de Mattos Fonseca 18/11/00


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Interdisciplinaridade e Desenvolvimento Sustentável

Por Sérgio de Mattos Fonseca *

Há pouco tempo atrás, como contribuição ao evento de grande importância na história da conscientização do Homem sobre a importância do meio ambiente, o relatório Brundtland ofereceu à Conferência Eco 92 e ao mundo uma reflexão condensada em duas palavras: desenvolvimento sustentável. A partir deste marco o conceito de desenvolvimento sustentável vem se tornando cada vez mais fluído, acomodando-se de acordo com o formato do recipiente cerebral que o contém. De uma forma ou de outra o senso comum tergiversa sobre o conceito e, via de regra, enrola a língua e as idéias, desfiando um colar de pérolas quase sempre misturando crescimento econômico com preservação ambiental e ausência de poluição.

Em busca da compreensão e longe de procurar alcançar um único conceito, antes mesmo da sua formulação, faz-se necessário o entendimento da temática do desenvolvimento e a força ganha no contexto da "guerra fria" do início dos anos 60, quando ficou nítida para o mundo a emergência de duas potências dos escombros da II Grande Guerra Mundial: os Estados Unidos - EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS. Foi neste contexto que começou uma guerra psicológica detonada pelos EUA no ocidente, que buscava identificar o americam way of life com o que é desenvolvido e moderno, restando à outra potência a pecha de retrógrada e atrasada. Assim a sociedade ocidental foi colocada sob uma ótica reducionista, identificando-a com a importação pelos países dos valores culturais da sociedade norte-americana, assim como seu modelo de industrialização. Esse modelo vinha sempre acompanhado de projetos de cooperação internacional, como a Aliança para o Progresso, implementado no Brasil durante o governo do presidente americano J.F. Kenedy. Este programa ganhou destaque no período inicial de governo dos militares pós-64, corroborado pelas altas taxas de crescimento econômico expressas pelo aumento do PIB - Produto Interno Bruto dos países, agora chamados em desenvolvimento. A reação abaixo do equador veio pela Comissão Econômica para a América Latina - CEPAL, quando tinha a frente economistas do porte de Celso Furtado, propondo o rompimento das relações de trocas desiguais, ainda com matiz do antigo pacto colonial do remoto século XVIII, em prol do desenvolvimento de uma industrialização endógena. Os economistas cepalinos não identificavam no crescimento econômico capitalista, necessariamente, o desenvolvimento das sociedades, demonstrando que o aumento da renda per capita não é um indicador confiável de bem estar.

Recentemente a ONU divulgou, através do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, uma revisão no seu índice de desenvolvimento humano - IDH - que busca avaliar os diferentes estágios de desenvolvimento das nações, relacionando o poder aquisitivo, com a expectativa de vida e o nível de escolaridade nos países membros. Neste ranking o Brasil, entre as dez maiores economias mundiais, aparece em modesto 79° lugar. Esta situação nos leva a refletir se o crescimento industrial sem limites está levando à eliminação da miséria, ou apenas possibilitando que esta se veja e seja vista ao vivo e a cores por uma aldeia global a "sustentabilidade" de seu desenvolvimento.

O relatório que sugere um futuro comum para a espécie humana propõe o conceito de sustentabilidade como a capacidade das atuais gerações de atender as suas necessidades sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras (CMMAD, 1988). Enaltecido por uns e criticado por outros, tem a seu favor o fato de trazer definitivamente para o cenário mundial a problemática ambiental, propondo uma mudança no teor do crescimento econômico, mas pecando na identificação da pobreza dos países subdesenvolvidos como uma das causas da degradação ambiental. Entre os próprios economistas há o entendimento de que a pobreza é um dos rejeitos da acumulação capitalista, identificando nos países desenvolvidos o foco gerador desta poluição humana. Com isso amplia-se o conceito, além da política do bom comportamento, internalizando a este as externalidades, a incorporação dos danos ambientais provocados pela atividade econômica aos custos das indústrias, o que coloca os países desenvolvidos em grande débito com a recuperação dos ecossistemas do planeta.

Desta forma compreende-se o conceito do desenvolvimento sustentável como um mosaico de entendimentos, cabendo desde a leitura de uma forma neocolonialista ou da continuidade do domínio imperialista sobre os países subdesenvolvidos, assim como paradigma para a compreensão ambiental holística, nova forma de relacionamento do homem com a Natureza, resgate da natureza humana como mais uma das espécies que compõe a biodiversidade, incorporando-se de forma ecológica a existência no planeta da espécie sapiens.

Fruto da revolução das idéias em curso neste final de milênio, a interdisciplinaridade coloca-se como instrumento para o alcance do desenvolvimento sustentável. Aliás, despojando-se do conteúdo ideológico, se possível, a visão interdisciplinar significa a integração entre os diversos ramos do conhecimento científico, diferentemente da simples colaboração entre as áreas disciplinares, como sugerem alguns autores. A abordagem ecológica da diversidade coloca a riqueza de um ecossistema como função da quantidade de espécies por esse suportada, constituindo assim uma intrincada teia de inter-relacionamentos, impossível de ser compreendida apenas por um de seus nós. Como na teoria de sistemas descrita por Capra (1996), assim como em Giuliani (1998), é clara a necessidade da interação entre as ciências, compondo assim uma visão holística, sinônimo da interdisciplinaridade. A ciência ambiental com que se pretende atingir o desenvolvimento sustentável, assim afasta-se da apropriação cartesiana, compondo para o próximo milênio um mosaico do saber integrado por todas as disciplinas: um conhecimento interdisciplinar.

Referências Bibliográficas

CAPRA, Fritjof : A Teia da Vida, Editora Cultrix, São Paulo, Parte 2, 1996.

CMMAD - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento: Nosso Futuro Comum, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1988.

GIULIANI, Gian Mario: Sociologia e Ecologia: Um Diálogo Reconstruído, Revista Dados, vol. 41 Junho, pág.117, IUPERJ, Rio de Janeiro, 1998

HERCULANO, Selene: Elementos para um Debate sobre a Interdisciplinaridade, in HERCULANO, Selene (org.): Meio Ambiente: Questões Conceituais I, Niterói, PGCA-UFF: Rio de Janeiro, RIOCOR; 2000, pp. 179-215.

Sérgio de Mattos Fonseca* é Economista, Mestrando do Programa de Pós - Graduação em Ciência Ambiental da UFF, diversos cursos em Análise de Sistemas, Oceanografia e Gestão Ambiental, diretor da APREC Ecossistemas Costeiros e seu representante na APEDEMA/RJ - Assembléia Permanente das Entidades de Defesa do Meio Ambiente e na Comissão Pró-Parque Estadual da Serra da Tiririca, Professor da Universidade Cândido Mendes e da IBMEC Business School, ministrando disciplinas na área de gestão ambiental, especialista em Valoração Econômica - Ecológica de Impactos Ambientais e de Ecossistemas Costeiros Tropicais, diversos artigos publicados sobre o assunto, Consultor Ambiental registro IBAMA n° 3570 / 97.email: <aprec@nitnet.com.br>

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