03027000122 - Environment Justice x Finance - Caros Amigos - www.carosamigos.com.br - América Latrina? - Por José Arbex Jr 16/12/00


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América Latrina?

Por José Arbex Jr*

Washington anuncia sua decisão de intervir na Colômbia, gostem ou não os governos latino-americanos. Enquanto isso, o governo FHC...

O Plano Colômbia será executado com ou sem a solidariedade internacional", declarou o vice-ministro da Defesa dos Estados Unidos, James Bodner, durante a Conferência Ministerial de Defesa das Américas, realizada em Manaus, nos dias 18 e 19 de outubro. Gostem ou não os latino-americanos, a Colômbia sofrerá intervenção dos Estados Unidos. O emissário da Casa Branca recebeu uma resposta "duríssima" do ministro da Defesa do Brasil: Bodner "não foi lógico", acusou Geraldo Quintão. Confesse, caro leitor: você jamais viu uma manifestação de defesa da soberania nacional tão ousada, viril, e digna. E Quintão ainda comentou: "Cada um fala de acordo com uma série de contingências que formam a sua personalidade. Algumas pessoas são mais brandas ao falar, outras são mais suaves, outras são mais duras, outras são mais ásperas, outras são mais lógicas. Eu procuro ser mais lógico e racional". Pois é. O problema de Bodner é que ele é mal-educado.

As operações militares do Plano Colômbia devem ter início no começo do próximo ano. O primeiro alvo de ataque será o Departamento de Putumayo, ao sul da Colômbia. De fato, as operações já começaram. Em outubro, o Exército lançou uma ofensiva de grande escala contra as forças guerrilheiras, que já vinham enfrentando o assalto das milícias paramilitares (os "esquadrões da morte"). Os combates causaram pânico nas populações das cidades de Puerto Asís, Orito e La Hormiga, perto da fronteira com o Equador, país que se converteu em refúgio dos camponeses em fuga. A guerra já começou.

Mas, veja que extraordinária coincidência: não apenas Putumayo é riquíssimo em petróleo, como uma das empresas interessadas em sua exploração é a americana Occidental Petroleum (Oxy), que tem como um de seus acionistas ninguém menos que Al Gore, que – também por acaso – foi vice de Bill Clinton e depois candidato à presidência dos Estados Unidos. A Oxy é uma das multinacionais mais ativas na Colômbia. Já explora petróleo em área do território U’wa, no Departamento de Arauca, nordeste, agredindo uma nação de 5.000 indígenas que tem mais de 3.000 anos de história.

Nada a ver com o narcotráfico

Mas o olho grande de Tio Sam não cobiça "apenas" o petróleo. A Colômbia é um dos países mais ricos em reservas naturais da Amazônia. Só perde para o Brasil, em termos de biodiversidade. Além disso, é uma magnífica fornecedora da preciosa água doce (essa é uma questão chave para o século 21, principalmente quando se considera que os Estados Unidos são o seu principal consumidor mundial). A Colômbia promete se tornar um novo paraíso de investimentos. Não por acaso, em 11 de fevereiro, o presidente colombiano Andrés Pastrana reuniu-se com empresários, em Houston (Texas), quando anunciou a intenção de propor uma reforma constitucional para "dar mais liberdade aos investimentos estrangeiros". É a riqueza da Colômbia – e da Amazônia – que atrai os interesses da Casa Branca. O Plano Colômbia não tem nada a ver com o narcotráfico.

Se Washington quisesse mesmo acabar com o tráfico, ou pelo menos golpeá-lo seriamente, bastaria proibir que as empresas americanas continuassem exportando, para a Colômbia, éter, ácido sulfúrico, acetona e outros produtos necessários à produção da cocaína. Ou bastaria que os recursos empregados no Plano Colômbia (algo em torno de 7,5 bilhões de dólares, dos quais US$ 1,3 bilhão emprestados por Bill Clinton) fossem destinados ao pagamento de camponeses que aceitassem substituir suas plantações de coca por milho, café, feijão e mandioca, ganhando o mesmo que ganhariam se vendessem quantidade equivalente de coca. Essa solução, empregada com sucesso em algumas áreas do Equador e do Peru, ofereceria uma alternativa a cerca de 1 milhão de colombianos que hoje dependem do comércio da folha de coca. A "solução militar" é a pior de todas. Quer dizer, seria a pior, se o problema fosse mesmo o narcotráfico. Mas não é.

O problema real, do ponto de vista da Casa Branca, é a guerrilha. Mais de 40 por cento do território colombiano está sob controle de grupos guerrilheiros (dos quais, os principais são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, chefiadas por Manuel "Tirofijo" Marulanda e integradas por 15.000 soldados, e o Exército de Libertação Nacional, o ELN, chefiada por Nicolas Rodríguez, com 6.000 soldados). A história oficial, contada pelos governos e pela mídia, tenta mostrar a guerrilha como uma espécie de vertente armada do narcotráfico (a expressão "narcoterrorismo" foi criada por Lewis Tambs, embaixador de Ronald Reagan na Colômbia). Nada mais falso A guerrilha está profundamente arraigada no movimento popular e indígena da Colômbia, e só por isso consegue desafiar um Exército nacional de 150.000 homens.

Os “esquadrões da morte”

A guerrilha colombiana tem suas raízes na guerra civil que dilacerou o país a partir do final dos anos 40, e que foi provocada por um choque entre duas facções da burguesia: a representada pelo Partido Conservador, formada principalmente pela oligarquia rural, que controlava o aparelho de Estado, e a do Partido Liberal, que adotava uma posição um pouco mais avançada sobre a necessidade de adotar um modelo de desenvolvimento nacional, até por precisar angariar apoio popular contra os conservadores. O episódio que deflagrou a guerra civil foi o assassinato, em 9 de abril de 1948, do caudilho liberal e populista Jorge Eliécer Gaitán. A notícia causou uma onda de manifestações de operários e camponeses em todo o país.

A revolta foi considerada insuportável pela Casa Branca. O mundo vivia o início da Guerra Fria, quando Washington e Moscou mexiam os peões do xadrez mundial. Os conservadores colombianos, no poder, receberam instruções de Washington para desencadear a repressão. Só entre 1948 e 1953, período conhecido como La Violencia, morreram 145.000 pessoas (há quem fale em 300.000). Esse processo se combinou com o agravamento das desigualdades sociais: enquanto os 10 por cento mais ricos dividiam 45 por cento das riquezas nacionais, os 10% mais pobres ficavam com menos de 3 por cento. Esse foi o quadro que gerou a guerrilha: ela nasceu de uma situação insuportável de tensão e pobreza. Em 1964, sob inspiração da revolução cubana (1959), foram criadas as Farc, o ELN e dezenas de outros grupos.

Em 1968, face à evidente incapacidade das Forças Armadas de "impor a ordem", o então presidente Julio César Turbay Ayala, com o apoio de Washington, emitiu um decreto que autorizava a formação de grupos de civis armados para "ajudar o Exército contra a guerrilha". Nasciam os "esquadrões da morte", financiados pelos latifundiários e depois pelos "barões da droga", e treinados nos Estados Unidos (que empregaram técnicos nazistas em contra-insurreição). Eles se especializaram em massacrar comunidades rurais suspeitas de apoiar a guerrilha, e eliminar líderes sindicais, políticos e defensores dos direitos humanos. Atualmente, o principal grupo é o AUC (Autodefesas Unidas Colombianas), liderado por Carlos Castaño, o novo chefão do narcotáfico colombiano. No total, agregam cerca de 6.000 soldados.

Por que a mentira?

Quem mais sofre as conseqüências desse quadro são os indígenas e camponeses, expulsos de suas terras principalmente pelos "esquadrões da morte", responsáveis por 75 por cento das matanças de civis. Graças ao terror, cerca de 1,5 milhão de colombianos dos 12 milhões que vivem no campo abandonaram suas terras nos últimos quinze anos, segundo a Conferência Episcopal da Colômbia. As terras abandonadas são ocupadas por fazendeiros e narcotraficantes, que assim se tornam uma nova classe de latifundiários.

Ao deixar as suas terras, os camponeses engrossam o contingente de miseráveis nas cidades, onde a taxa de desemprego é de 20 por cento. Ali, eles se tornam desechables (descartáveis), "lixo social". Para muitos camponeses, principalmente os mais jovens, a única alternativa é integrar a guerrilha. Um guerrilheiro ganha, inicialmente, cerca de 400 reais mensais – o dobro do salário mínimo. Boa parte do dinheiro da guerrilha é obtida pelo "imposto" cobrado aos traficantes com base em territórios controlados pelas Farc e pelo ELN, ou por meio do seqüestro de empresários e fazendeiros (método empregado, principalmente, pelo ELN). Esse mecanismo alimenta a espiral de violência, responsável, só na última década, pela morte e desaparecimento de 70.000 colombianos. Destes, mais da metade eram civis (intelectuais, advogados, jornalistas, sindicalistas e personalidades da luta democrática).

Em 1998, Pastrana tentou negociar a paz com as Farc, entregando à organização uma "zona desmilitarizada", no sul do país. Também pensou em fazer um acordo parecido com o ELN, "desmilitarizando" o vale do rio Magdalena, 450 quilômetros ao norte de Bogotá. Mas desistiu, graças à oposição do Exército e aos magros resultados que obteve com as Farc. Será extremamente difícil, se possível, negociar a paz. Primeiro, porque a cultura da violência já deixou muitas marcas. Em 1985, uma parte das Farc depôs as armas e formou o partido União Patriótica, cujo objetivo era disputar as eleições. Como resultado, 3.000 de seus militantes foram assassinados. O partido foi extinto e a guerrilha intensificada. Além disso, os narcotraficantes têm muito a perder, e usam a sua influência junto aos militares, políticos e milícias para sabotar qualquer chance de acordo. As matanças promovidas pelos "esquadrões" são o principal obstáculo à paz.

Finalmente, como já observamos, os Estados Unidos estão mais interessados no Plano Colômbia do que na paz. A guerrilha colombiana é, hoje, a única força armada que se opõe à ocupação da Amazônia pelas tropas de Tio Sam. Resta, contudo, explicar uma questão: se o alvo prioritário de Washington é a guerrilha e não o narcotráfico, por que a mentira? Simples: a guerrilha é percebida como uma "problema interno" da Colômbia, ao passo que o narcotráfico é uma "questão internacional". Fica mais fácil explicar que o Plano Colômbia tem objetivos "huma-nitários" e "altruístas". E permite que os governos latino-americanos expliquem a sua vil subserviência, não raro com discursos inflamados e moralistas contra as drogas. A depender desses senhores, a América Latina continuará, por muito tempo ainda, a ocupar a posição de Quintão – perdão –, quintal da Casa Branca.

E existe um povo que a bandeira empresta...

José Arbex Junior* é Jornalista da Revista Caros Amigos email: casamar@uol.com.br


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