03027000124 - Environment Justice x Finance - Gazeta Mercantil - A chance dos supermercados éticos - Por Patricia Almeida Ashley 16/12/00


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A chance dos supermercados éticos

Por Patricia Almeida Ashley *

Verifica-se uma crescente disseminação de indagações e reflexões nos meios acadêmico, empresarial, governamental, na sociedade civil organizada e na mídia quanto ao impacto da ação humana sobre os ecossistemas. Mais especificamente, a ação dos negócios sobre o ambiente e a sociedade, em escala mundial, vem levantando o escrutínio público cada vez mais organizado e institucionalizado sobre as empresas e seus produtos e processos de produção. Neste sentido, há, inclusive, uma tendência de proposições para que a avaliação de desempenho de uma empresa venha incorporar o balanceamento entre critérios sociais, ambientais e econômicos, gerando iniciativas no âmbito internacional como o Global Reporting Initiative (GRI), o qual recebeu apoio financeiro no valor de US$ 3 milhões das Nações Unidas ao final de 1999.

Por outro lado, desponta uma situação que vem aumentar a complexidade na compreensão, na tomada de decisões e nas aplicações de novos critérios para a avaliação de desempenho. Tal situação é criada pela interconectividade entre indivíduos, grupos, organizações e nações pro-porcionada pela telemática, a qual, de certa forma, questiona os modelos clássicos de organização e gestão de negócios. Especificamente no que tange ao comércio eletrônico, a virtualidade requer a mútua confiança para a concretização das propostas de compra e venda, dentro dos parâmetros comerciais acordados entre as partes que negociam. Tal mútua confiança se faz ainda mais necessária no contexto de intercâmbio eletrônico de dados (EDI) e, especificamente no setor de supermercados, das abordagens gerenciais para a implementação da Resposta Eficiente ao Consumidor (ECR). As relações entre os diversos stakeholders que participam da cadeia de produção, distribuição, transporte, armazenagem, venda e entrega ao consumidor precisam ser orientadas para a colaboração e integração operacional.

Pode-se argumentar que, para o segmento de alimentos, os supermercados estão em um ponto nodal estratégico da rede de negócio de abastecimento alimentar em áreas urbanas, uma vez que registram, continuamente, a venda dos alimentos no ponto de check-out e demandam a reposição de estoques, distribuição, transporte e, finalmente, a produção de alimentos in natura e processados. Nos supermercados, converge o conhecimento sobre o consumo/demanda e a produção/oferta, podendo ser uma interface importante para a educação do consumidor e do produtor no sentido da produção e consumo sustentáveis. De acordo com a definição dada pelo Symposion on Sustainable Consumption, em Oslo, Norway, em Janeiro/94, a produção e consumo sustentáveis referem-se ao 'uso de serviços que atendem às necessidades básicas e tragam uma melhor qualidade de vida, ao mesmo tempo que minimizando o uso de recursos naturais, materiais tóxicos e emissões de poluentes e desperdício ao longo do ciclo de vida, de forma a não prejudicar as necessidades das futuras gerações'.

O argumento aqui é no sentido de que, estabelecendo-se critérios de comércio ético (ethical trade) para a orientação estratégica dos supermercados no trato com seus fornecedores e seus compradores de alimentos, a responsabilidade social nos negócios poderá receber um novo impulso. Partindo-se do lado da demanda dos agentes econômicos e de seu respectivo poder de compra, vislumbra-se uma efetiva oportunidade para os supermercados atuarem como procuradores dos consumidores, no sentido da segurança dos alimentos para o seu consumo e reflexos sobre a sua saúde, selecionando e orientando fornecedores e agregando valor a sua marca através da educação do consumidor no sentido de orientá-lo sobre os riscos e benefícios dos alimentos e informá-lo sobre a origem de produção e manufatura dos alimentos.

Por que levantar esse ponto de vista? Toda a discussão que cerca o movimento pela qualidade nas organizações é justificado pelo foco a ser dado no cliente e, fundamentalmente, no cliente ou consumidor final. O mercado selecionará as empresas que oferecem maior performance e valor para esse cliente final. Entretanto, poderia-se argumentar que esse cliente final, de fato, não conhece a história do processo de produção dos bens que venha comprar ou dos serviços que venha usar ou contratar. As condições de trabalho, o impacto ambiental dos insumos, dos processos de produção e do produto final, a conduta da empresa diante de seus stakeholders são, em geral, desconhecidos do cliente final. A frase que diz que 'o consumidor é rei' pode ser interpretada como a de um rei não informado, ou seja, de fato, ignorante quanto à história e impactos de sua escolha para si, para a sociedade e para o ambiente. A informação e a educação para o ato de consumo são elementos críticos na formação dos critérios de escolha de compra de produtos e serviços, responsabilidades essas que serão cada vez mais abraçadas pelas empresas, governo e sociedade civil organizada.

Especificamente no segmento de alimentos, os impactos sobre a saúde física, no sentido mais restrito da medicina alopática, e sobre a saúde total da pessoa, no sentido mais amplo da medicina oriental e homeopática, são largamente ignorados pela população urbana, a qual, em relação aos alimentos, é meramente consumidora, tornando-se incompetente tecnicamente para a produção de seus alimentos. Partindo do consumo para a produção de alimentos, as escolhas tecnológicas de criação e cultivo, processamento, empacotamento, transporte, armazenamento, associadas às condições de trabalho e relações da empresa com seus demais stakeholders são, em igual ou maior grau, ignoradas pelo consumidor final e setor de varejo.

Verifica-se muito recentemente um movimento no sentido de selecionar criteriosamente os fornecedores de produtos alimentícios a serem colocados à disposição dos consumidores. Por exemplo, já há registro de iniciativas de supermercados se unirem contra a comercialização de produtos geneticamente modificados, sejam eles insumos de produtos alimentícios ou vendidos in natura para os consumidores. No final de 1999, as cadeias de supermercados europeus Sainsbury (UK), Marks and Spencer (UK), Carrefour (França), Effelunga (Itália), Migros (Suíça), Delhaize (Bélgica) e Superquinn (Irlanda) formaram um acordo para não incluirem em suas prateleiras alimentos, processados ou não, que tenham insumos de alimentos geneticamente modificados. A rede de supermercados Sainsbury's já oferece mais de 600 itens de alimentos orgânicos in natura e processados em suas prateleiras e vem apoiando iniciativas do parlamento britânico no sentido de definir metas para a produção orgânica no setor primário britânico. E, finalmente, para o interesse dos brasileiros, o Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) está conduzindo pesquisa nos países em desenvolvimento sobre a percepção de consumidores quanto a critérios de comportamento no sentido do consumo sustentável e a pesquisa está disponível, em setembro/00, para brasileiros responderem através do site http://www.alternex.com.br/~patiagpucrio  

Patricia Almeida Ashley* é Doutoranda em Administração de Mudanças (IAG/PUC-Rio), MSc em Gestão de Serviços Públicos (Aston University, UK) Coordenadora da lista Empresa Respónsável - email: patiagpucrio@alternex.com.br

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