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03027025008 - Environment Justice x Finance - Rio de Janeiro - Outra Globalização - http://www.outraglobalizacao.jor.br - Entrevista com John Williamson, o criador do Consenso de Washington - Por Carlos Tautz 21/09/00

Environment Justice x Finance - Rio de Janeiro

Outra Globalização - http://www.outraglobalizacao.jor.br

Entrevista com John Williamson, o criador do Consenso de Washington – mas, por favor, não espalhem que foi ele quem inventou

Por Carlos Tautz*

(Brasil, Rio de Janeiro, 19/Setembro/2000) - Nem uma reunião da alta hierarquia do governo FHC conseguiria atrair tanta gente importante, como aconteceu recentemente em um seminário** no Rio de Janeiro: estavam lá os ministros Pedro Malan (Fazenda), Luiz Felipe Lampreia (Relações Exteriores) e Clóvis Carvalho (Casa Civil), o atual presidente do Banco Central (Armínio Fraga) e o ex (Gustavo Franco), dois antigos presidentes do Bndes (José Pio Borges e André Lara Rezende), além de editores dos dois maiores jornais de economia do Brasil.

A platéia, de um silêncio mineiro, não ficava atrás em influência igualmente mineira: incluía os embaixadores Flavio Perri, coordenador da Rio-92, e Baena Soares, ex-secretário-geral da OEA, Maurício Botelho, presidente da Embraer, e - presença emblemática - Peter Sutherland, presidente mundial da petrolífera BP Amoco e ex-diretor geral da Organização Mundial do Comércio, a OMC.

Pois, o seminário ocorrido no tradicionalíssimo Hotel Copacabana Palace, no Rio, em 15 de setembro, conseguiu a proeza de juntar todo esse povo para ouvir durante quase 30 minutos uma não assumida, porém de fato, mea culpa de John Wiliamson. Este é um homem de nome pouco famoso, mas cujo único trabalho de vulto se espalhou como rastilho de pólvora pela América Latina durante os anos 90.

John Williamson, pesquisador de um certo Institute for International Economics, criou há 11 anos, em plena Era Reagan-Tatcher, o Consenso de Washington, aquele calhamaço que embasou um seminário internacional do mesmo nome na capital estadunidense em 1989 e que no ano seguinte correu mundo sob a forma de livro. Muita gente da atual equipe econômica, e também de outras equipes econômicas que já perderam eleições no Brasil, foram convidados a assistir o seminário de Washington.

No Consenso, Williamson, que ensinou Economia Internacional para Armínio Fraga em 78 na PUC do Rio, teve o lampejo de reunir uma lista de políticas públicas que naquela época eram endossadas pelas principais instituições econômicas com sede em Washington: o Tesouro dos Estados Unidos, o Fed (o banco central dos EUA) e as agências pretensamente multilaterais Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.

As teses do pesquisador estadunidense – que o professor da UFRJ José Luis Fiori não titubeia em denominar "medíocre" – ganharam apoio incondicional dessas instituições, foram do agrado do governo dos EUA, como o próprio Williamson aceita, e guiaram tal e qual uma batuta de maestro ou um manual para escoteiros, corações e mentes dos governos latino-americanos durante a história sem fim dos anos 90.

Entre outros, adotaram os postulados do Consenso de Washington a dinastia de ditadores do PRI no México (Salinas de Gortari à frente), Augusto Pinochet no Chile (país citado por Wiliamson como exemplo entre aqueles que adotaram seu receituário),Carlos Saúl Menem na Argentina e o agora demissionário Alberto Fujimori no Peru . O Brasil também entrou na moda e escolheu a dupla de Fernando, Collor&Henrique Cardoso, para dar uma versão nacional ao documento.

"Luis Carlos Bresser Pereira já me disse que fui ingênuo em dar o nome de Consenso de Washinton às minhas idéias", reconheceu Williamson em uma palestra ministrada a funcionários do Banco Mundial, citando uma conversa com o ex-ministro brasileiro. "A minha escolha do termo atraiu a interpretação de que idéias que emanavam de Washington estavam sendo impostas aos países em desenvolvimento, o que não é totalmente fantasioso, mas é de toda forma exagerado por aqueles que perderam a guerra intelectual", aceitou e revidou, no seminário do Copacabana Palace.

O Consenso de Washington prescrevia uma lista de soluções que pode ser encontrada até hoje nas manchetes: disciplina fiscal, redirecionamento dos gastos públicos, reforma tributária, liberação das taxas de juros, taxa de câmbio competitiva, abertura comercial, liberdade para investimentos externos, desregulamentação e segurança para os direitos da propriedade. Na palestra para o Banco Mundial, Williamson lembra que o décimo ponto do Consenso, a privatização maciça de empresas estatais, fora uma idéia que contava com a militância pessoal do então secretário de Estado dos EUA, James Baker, que a defendeu abertamente em 1985, numa reunião anual do Banco, em Seul, na Coréia do Sul.

A seguir, a entrevista (breve) com John Williamson. Não espere por revelações bombásticas, até porque a entrevista foi conseguida em raros minutos de intervalo na agenda de Williamson, quando o espremi em um canto do salão do Copacabana Palace. Visivelmente constrangido pelo fato de que a expressão cunhada por ele passou a significar crise e exclusão social na América Latina, o economista gastou um terço de sua palestra no Rio tentando dizer que o contexto mundial em 89 era diferente e que a aplicação de suas propostas foi desvirtuada. Mas o valor do ping pong que começa agora está nas entrelinhas.

Outra Globalização - Quais foram as consequências que as idéias do Consenso de Washington trouxeram para os países da América Latina?

John Williamson – Houve de fato uma mudança forte nessa direção e algumas daquelas medidas foram mais ou menos tratadas. Hoje temos muito mais disciplina fiscal, as economias são muito mais abertas para o investimento direto. Algumas proposições vêm sendo implementadas, como a privatização. Às vezes, o processo foi feito sem considerar coisas que eu teria considerado. Por exemplo, na Argentina, houve privatização dos monopólios sem regulamentação. Isso não foi o tipo de proposta que eu estava pensando. Escrevi sobre a desregulamentação pensando em um mercado livre, pensando nas empresas e no mercado trabalhista. Eu não estava tentando negar a importância da regulamentação quando há monopólio ou da regulamentação da saúde e do meio ambiente. Nesse tipo de coisa, acho totalmente diferente. O Estado tem papel importante nessas áreas.

Outra Globalização - Que medidas do Consenso foram implementadas e quais ainda não foram?

John Wiliamson – A política cambial mudou nos últimos 10 anos para a doutrina dos dois extremos. Não foi isso que eu queria. Eu falei da necessidade de uma taxa de câmbio competitiva. Ou ainda a mudança do gasto público, para a saúde básica, a educação e a infra-estrutura. Algumas mudanças foram feitas em alguns países, mas não acho que houve grandes mudanças.

Outra Globalização – Aquelas propostas que o senhor fez estavam baseadas em uma matriz ideológica neoliberal e...

John Williamson – Não concordo! Naquela época, todas as economias da América Latina estavam muito estatizadas. Então, a necessidade de reforma naquela época foi claramente na direção da liberalização. Mas, isso não implica que houve um consenso sobre políticas neoliberais, significando que o melhor governo é o menor governo. Esse tipo de coisa foi totalmente fora do meu pensamento.

Outra Globalização – Mas, o senhor há de convir que boa parte daquelas medidas eram de interesse de alguns governos, principalmente do governo dos Estados Unidos.

John Williamson – Sim… Claro, o governo dos Estados Unidos é parte de Washington...! Naquela época, a lista era uma coisa que o governo dos Estados Unidos poderia gostar. Entretanto, houve muitas outras políticas de Washington que não foram incluídas. Por exemplo, liberalização total da conta de capital. Essa foi uma proposta que teve apoio forte do Tesouro norte-americano na década de 90, antes da crise asiática, que eu sempre achei desaconselhável. E incluí na minha versão do Consenso de Washington a idéia de que a liberalização da conta de capitais só deve ser para investimentos diretos.

Outra Globalização – A expressão Consenso de Washington passou a ser em todos ao países da América Latina sinônimo de crise social e falta de investimentos até em áreas básicas, como saúde e educação. O senhor concorda com essa interpretação?

John Williamson – Isso é o que o termo começou a significar. Mas, certamente, não foi a minha idéia.

Outra Globalização – Por diversas vezes o senhor cita o Chile como exemplo de país em que as medidas do Consenso foram bem aplicadas. O senhor acredita que essas medidas poderiam ter sido implementadas se o país não tivesse tido um governo como o de Pinochet?

John Williamson – É uma questão interessante saber se esse movimento reformista teria começado na América Latina sem o general Pinochet... Felizmente, depois que o Chile começou, os outros países começaram a ver as vantagens. Eu não sei se o Chile teria conseguido fazer sem o general...

Nessa altura da entrevista, um outro repórter intervém e faz a seguinte pergunta: como o senhor vê a proposta de que haja uma coordenação das políticas de câmbio, entre os principais países desenvolvidos, Europa, Estados Unidos e Japão?

John Williamson – Eu acho uma ideia ótima, mas tenho muita dúvida se vai acontecer. Essa coordenação foi uma idéia que tentei discutir há muitos anos. Infelizmente, os Tesouros dos países principais não concordaram.

Outra Globalização – As atribuições da ONU estão sendo substituídas por três organizações que regulam a vida das sociedades e das economias: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Como o senhor vê essa situação?

John Williamson – Não acho que o papel dessas organizações estaria atrapalhando a ONU. A ONU tem um papel importante, que tem que se modificar porque o mundo muda. Mas duvido que iria desaparecer.

* Colaborou o jornalista Paulo Alencar, sem cujo gravador eu não teria conseguido entrevistar John Consenso de Washington Williamson.

** O seminário no Copacabana Palace foi o primeiro grande evento público realizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o Cebri, uma ONG de empresários que tem como patrono o presidente Fernando Henrique Cardoso e que funciona na aprazível rua Dona Mariana, em Botafogo, Rio, na mansão onde morava o jurista Afonso Arinos de Melo Franco.

Carlos Tautz é editor do site Outra Globalização - Jornalismo estratégico, análises e notícias sobre globalização e outras mudanças no planeta - editor@outraglobalizacao.jor.br - http://www.outraglobalizacao.jor.br


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