Lgcta2.gif (7527 bytes)


Rede CTA-Consultant, Trader and Adviser
Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo
Rede - Sindecon Tel/Fax.: 3107.2035 - amyra@netdoctors.com.br

03027031002 - Environment Justice x Finance - Fortaleza, Ceará - Jornal O Povo 11.07.2000 - Canja de transgênicos - Por Flávio Paiva - 26/07/00 07:11:38

Environment Justice x Finance - Fortaleza, Ceará

Jornal O Povo

11.07.2000

Canja de transgênicos

Por Flávio Paiva*

A disputa feroz de interesses de produção e comercialização dos alimentos geneticamente modificados sai dos bastidores, ganha destaque no noticiário, mas ainda não conta no Brasil com a mobilização social que o tamanho do problema exige.

Mais do que um direito de consumidor, é um direito humano a determinação de preservar a vida, a saúde, o meio ambiente e o controle da produção de alimentos, com o qual podemos contribuir significativamente para a consecução do desejo natural de perpetuação da espécie. Todos esses pontos decisivos estão envolvidos de uma só vez na questão dos transgênicos. Principalmente quando diz respeito a países de frágil autonomia política como é o caso do Brasil. Trata-se portanto de um assunto que não deve passar à margem de um amplo movimento da sociedade, sob pena de ficar irreversível.

Os retalhos de informações, veiculados aleatoriamente, tendem a focar a superfície da questão e acabam desviando a nossa atenção para pontos específicos e isolados. Os motivos da proibição da entrada de grãos geneticamente alterados nos portos brasileiros perdem nitidez diante da liberação forçada pelo próprio governo. Nesse vaivém de liminares, ganha corpo a versão de que se o milho transgênico argentino e norte-americano, importado para ração animal, não desembarcar, teremos uma crise no abastecimento de frango. Estamos tão escaldados de crises, que a nossa primeira reação é evitar mais uma dor-de-cabeça.

É vergonhoso, mas o argumento vigente é que não temos uma produção de milho capaz de atender a demanda do setor avícola. Diante de uma revelação tão indecente, para um país com tanta área agricultável disponível, não dá para ficar parado vendo os produtores avícolas protestando com distribuição gratuita de frangos (aditivados com hormônios e alopatias) a populações carentes. Essa encenação toda não passa de uma disfarçada canja transgênica no banquete que as corporações multinacionais estão fazendo no mercado brasileiro. Festa nababesca que conta com a desvairada fome de poder dos nossos governantes. Até agora, em todo o país, apenas o governo do Rio Grande do Sul bateu no peito para dizer que aquele é ``um estado livre de transgênicos''.

A Advocacia Geral da União vem trabalhando para dispensar os produtos transgênicos de estudos de impacto ambientais e de segurança alimentar. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança diz que o processo é inevitável e limita-se a defender a rotulação. Para completar a insensatez oficial de gestação e incubação do ovo da serpente, na quinta-feira passada o Palácio do Planalto divulgou uma nota com a assinatura de seis ministros (Saúde, Meio Ambiente, Agricultura, Ciência e Tecnologia, Justiça e Casa Civil) em defesa da utilização de transgênicos no país. Nem o Codex Alimentarius, organismo de segurança alimentar da ONU, que defende os interesses de cúpula do capital multinacional, conseguiu tamanho consenso na reunião de maio passado, realizada no Canadá.

Há basicamente duas tendências mundiais conflitantes, quando esse tema entra em pauta. Uma, que defende a adulteração genética dos vegetais, visando resistência, produtividade, economia com agrotóxicos e aumento da massa alimentar de frutas, verduras e legumes, mas que está se lixando para os efeitos colaterais decorrentes da mudança. A outra, que pretende resguardar a qualidade dos alimentos, promovendo o cultivo orgânico e buscando mecanismos para o controle dos excessos de pesticidas, herbicidas, fungicidas e bactericidas usados nos plantios tradicionais. A corrente estadunidense é liderada pela Monsanto, empresa que responde por 40% da soja norte-americana e por mais de 50% da produção Argentina.

A Europa e o Japão estão em esforço contrário. Nesse sentido, empresas como o Carrefour estão lançando campanhas contra os transgênicos. Vale lembrar que o Carrefour já exportou este ano em torno de 150 toneladas de soja tradicional brasileira para a Europa. O mercado de orgânicos também começa a sair das hortas alternativas e das saladas, temperos, ervas finas e flores comestíveis dos restaurantes naturais para a ocupação de nichos internos e a exportação de café, açúcar e suco de laranja. Enquanto isso, os nossos supermercados estão colocando lentamente nas prateleiras alimentos preparados com componentes mutantes. A lista vai crescendo. Inicialmente a Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde, chegou a denunciar e ameaçar o recolhimento de produtos notórios do nosso consumo, como o Nestogeno, da Nestlé, as misturas para sopas, da Refinações de Milho Brasil, as salsichas tipo Viena, da Swift e o macarrão instantâneo com sabor de galinha, da Nissin Ajinomoto.

Com as pressões internacionais, que endureceram o governo federal em favor dos transgênicos, só uma considerável mobilização social será capaz de reverter esse quadro. Caso contrário, depois de emplacar a ração animal e legalizar compostos mutantes em produtos alimentícios considerados próprios para o consumo humano, entraremos na fase terminal da dependência, com a instituição do monopólio de sementes. É o seguinte: o grão transgênico, adquirido como ração, não se reproduz; e o grão comprado para a agricultura torna-se estéril para novas plantações. É urgente que façamos alguma coisa. Ainda estamos numa fase que dá para conquistar uma política agrícola com equilíbrio ambiental, preservação da fertilidade do solo, produção de alimentos saudáveis e independência no fornecimento de grãos. Se deixarmos para amanhã, o tempo confundirá as causas e sentiremos saudade do futuro.

Flávio Paiva é jornalista e articulista da coluna Vida & Arte email:flaviopaiva@fortalnet.com.br


Consulte o banco de dados da Rede CTA-UJGOIAS
O Universo Jurídico do Estado de Goiás
http://www.ujgoias.com.br - ujgoias@ujgoias.com.br

"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"    Peter Drucker

Rede CTA-Consultant, Trader and Adviser
Pelo Desenvolvimento Limpo de um Novo Mercado Financeiro!
Sindicato dos Economistas, no Estado de São Paulo
amyra@netdoctors.com.br - www.sindecon-esp.org.br

[ Topo ]

.

UJGOIÁS - O Universo Jurídico

.