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03027032006 - Enviromment Justice - Finance x Código Florestal - Amazônia & Churrasco - Fritz Utzeri

Environment Justice x Finance - Código Florestal
Jornal do Brasil
14.05.2000

Amazônia & Churrasco

Por Fritz Utzeri*

"Lute pela floresta..., queime um brasileiro". O adesivo, impresso por uma certa Instant Gifts and Card Co. of England, pode ser visto em pára-brisas de automóveis na Inglaterra e nos Estados Unidos. A proposta, com um impressionante eco fascista, lembra-me adesivos que vi na Argentina e no Chile quando ainda guri: "Haga pátria, mate un judio por dia" (seja patriota, mate um judeu por dia). É estranho saber que alguém nos odeia tanto a ponto de querer transformar-nos em churrasco, mesmo que seja por uma causa nominalmente boa: a preservação da Amazônia. Pense bem nisso e você terá uma idéia aproximada do que é exclusão, discriminação, preconceito e ódio.

Encontrei a reprodução do adesivo no excelente jornal dos alunos de Comunicação da Faculdade da Cidade (não consigo aceitar a marca Univercidade, trocadilho infame que degrada duas coisas ao mesmo tempo, a língua e a instituição). Mas o jornalzinho dos alunos é bom, e há uma reportagem de Mariana Leão anunciando um completo levantamento das potencialidades e das riquezas da Amazônia, a ser empreendido em breve pelo governo.

No pé do artigo, que denuncia a cobiça internacional sobre a bacia amazônica, além de fac-símile do adesivo podemos encontrar pronunciamentos de três personalidades mundiais, confirmando a teoria de que é preciso ficar de olho vivo. Diz Al Gore, atual vice-presidente americano e candidato democrata à presidência: "Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós". Mikhail Gorbachev, ex-presidente da extinta URSS, não contente em ter desmantelado de vez o seu país, ainda sentencia: "O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes". E o falecido François Mitterrand declarou, em 89, quando ocupava a presidência da França: "O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia".

É claro que repudiar de cara tais afirmativas é obrigação dos brasileiros, o que não significa passividade interna ante o volume da destruição que em menos de 500 anos praticamente extinguiu um sistema natural quase tão grande quanto a Amazônia e biologicamente ainda mais rico: a Mata Atlântica. Na própria Amazônia já devastamos nos últimos anos uma área equivalente a Minas Gerais, cerca de 14% do total. Tudo o que pudermos fazer para evitar a progressão desse desmatamento deve ser feito, em primeiro lugar por nós, aqui, no Brasil. Europeus e americanos já destruíram quase totalmente suas florestas. Cabe observar que o fizeram numa época em que não havia consciência ecológica e o homem tinha uma visão transformadora contra a natureza, vista como hostil e até inútil.

Foi nesse mesmo período que riscamos do mapa a Mata Atlântica. Hoje, em plena chegada do século 21, conscientes do que fazemos, não dá mais pra assistir anualmente ao espetáculo das queimadas e permitir a entrada de serrarias da Malásia que destruíram o ecossistema daquela região e agora se voltam para nós. O Brasil tem um dos melhores códigos legais para reprimir a destruição e preservar fauna e flora. Mas de nada adiantam leis se não houver o que os americanos chamam de enforcement, isto é, a existência de meios materiais que garantam a sua aplicação.

Mas até mesmo essa lei ambiental está ameaçada. Pelo atual Código Florestal, o dono de uma propriedade na floresta amazônica, ou no cerrado, só pode desmatar 35% de sua gleba, seja para criar gado, seja para a agricultura. Esta semana, a Comissão Mista do Congresso aprovou um substitutivo do deputado Moacir Micheletto (guardem bem este nome) alterando a legislação florestal, permitindo que donos de áreas na Amazônia liquidem até 50% da cobertura vegetal de suas terras. No cerrado a área protegida por lei chegará a apenas 20% do total. Micheletto teve o apoio da forte bancada ruralista e se o seu substitutivo for aprovado em plenário, e não for vetado por FH, a floresta amazônica estará mais ameaçada do que nunca.

O próprio ministro Zequinha Sarney já afirmou que lutará contra a medida, mas paira no ar a suspeita de que o governo fez alguma espécie de acordo por baixo do pano (como já o fizera na reeleição) com a bancada ruralista para garantir apoio à miséria... perdão, ao salário mínimo de 151. Destruir a Amazônia, como já eliminamos a Mata Atlântica, será um crime inominável contra a humanidade e um ato de uma burrice ilimitada. Só o banco genético existente na floresta, com centenas de milhares de espécies vegetais e animais, constitui um repositório quase inesgotável de fontes de lucros, a começar por produtos farmacêuticos a serem pesquisados e desenvolvidos.

O ministro Sarney Filho tem razão ao dizer que a floresta não é uma vitrine, mas sua exploração deve visar à sua preservação e renovação. A atividade na Amazônia deve ser auto-sustentada. Eliminar a floresta. derrubando-a ou queimando-a, é criminoso e irresponsável. Não recebemos a floresta de nossos antepassados para transformá-la num deserto de soja ou gado. Inúmeros cientistas advertem para a catástrofe ecológica que poderia advir do desequilíbrio ambiental devido à fragilidade do solo de grande parte da Amazônia.

Tudo isso não justifica que queiram nos churrasquear ou internacionalizar a Amazônia. Mas o nosso nacionalismo não deve ser irracional, do tipo: "É minha, queimo se quiser!", como parece ser o caso de alguns políticos do local, como Amazonino (Motosserra) Mendes. Ao liberar a Amazônia para as madeireiras asiáticas ávidas por destruição, haverá muito dinheiro a ser ganho "honestamente". Essa política de saque, que se repete entre nós há 500 anos, é a grande responsável por nossos problemas sociais e por nosso atraso. Até quando? O que acha o leitor?

Fritz Utzeri é Diretor de Redação e colunista do JB email:fritz@callnet.com.br
Divulgado por Ninon Machado Instituto Ipanema  - email:  lemefranco@ax.apc.org


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