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Mata Atlântica versus Geração de Renda - Um Embate Milenar

Por Paulo Silveira*

"Quase trezentos anos se passaram desde que os primeiros europeus colocaram os olhos na Mata Atlântica. Uma parte considerável dela havia sido degradada por seus descendentes, cujas as demandas tinham sido poucas mas devastadoras. A florestas continha uma árvore de cujo córtex podia ser extraída uma tintura, era esconderijo de ouro, diamantes e recobria solos sujeitos a um tipo primitivo de lavoura e, nas etapas finais de sua degradação, a um tipo primitivo de pastagem. Através do saber vagamente rememorado dos indígenas, transmitido com dificuldade aos caboclos e africanos fugidos do perímetro colonial, algumas espécies da Mata Atlântica haviam adquirido nomes e alguns nomes tinham se associado a usos. Esses fragmentos de conhecimento empírico quase não tiveram aplicação comercial; na verdade ainda não tinham chamado a atenção das autoridades coloniais. Milhares de espécies da florestas permaneciam sem nome até para os indígenas; milhares de espécies cujas propriedades ainda eram desconhecidas. Toda essa complexidade estava sendo destruída antes que a inteligência humana pudesse compreendê-la. No fim do século XVIII, contudo, o interesse científico europeu estava começando a se voltar mais sistematicamente para o mundo natural, além de suas fronteiras. O conhecimento indígena que os primeiros invasores haviam desdenhosamente ignorado seria, a um custo considerável, recriado e, por último, superado. A Mata Atlântica ia, enfim, ser objeto de curiosidade." ()

A coexistência da Mata Atlântica e do ser humano, sempre foi o grande desafio a ser vencido.

Sua exuberância, fertilidade e riqueza criou a fantasia de sua eternidade. É como se esse importante ecossistema tivesse um poder de auto-regeneração infindável, capaz de superar à todas as vicissitudes.

Antes mesmo da chegada dos primeiros invasores europeus, os nativos já conviviam com ela sem se preocupar com sua preservação. Assim, se queriam plantar, pura e simplesmente colocavam fogo em uma área, área essa, que como não tinham um controle preciso sobre o fogo, poderia ser muitas vezes superior do que a necessária.

Se os europeus se interessavam por animais ou plantas típicas, os nativos as caçavam, exterminando com um sem números de espécies, como se isso não tivesse nenhum significado. Chegou-se ao cúmulo de exterminar, propositadamente, com espécies para valorizar umas poucas existentes nas mãos de comerciantes inescrupulosos.

Assim, diferentemente do que muitos pensam, o nome de Mata Atlântica é recente, denominando somente o que restou de algo vastíssimo. Como seu desmatamento aconteceu do interior de nosso país para a costa, uma vez a floresta teve como aliada a Serra do Mar, com sua topografia que impediu o desenvolvimento de atividades econômicas mais intensas, herdamos essa fatia de floresta junto ao mar, ao Oceano Atlântico, daí seu nome: Mata Atlântica.

O mais impressionante disso tudo, é que mesmo após toda essa experiência nefasta, onde a humanidade perdeu um tesouro incomensurável e, absolutamente irrecuperável, continuamos mais preocupados em descobrir culpados do que em pensar em soluções efetivas para a questão.

Com o passar do tempo algumas dúvidas se esclareceram no que diz respeito a sua preservação:

Nesse momento tenho uma preocupação bastante objetiva quanto a essa questão: espalha-se como as queimadas nela realizadas a notícia de que o Governo do Estado do Rio de Janeiro promoverá uma política de incentivo à comercialização da banana plantada no estado. A primeira vista, essa seria uma atitude louvável, se não fosse uma nova e grave ameaça para a Mata Atlântica dessa região, a qual vem a ser bastante propícia para esse tipo de cultivo.

Acontece porém, que para viabilizar sua comercialização "in natura" é necessário um alto grau de insolação, de tal forma que a casca apresente um aspecto atraente, sem manchas, totalmente amarelo, embora tal procedimento sacrifique seu sabor. Para obtenção desse alto grau de insolação é necessário o DESMATAMENTO, principalmente das árvores mais altas, antigas, tradicionais e raras!

Assim, o cultivo da banana para a venda "in natura" é ABSOLUTAMENTE incompatível com a preservação da Mata Atlântica.

Como exemplo temos o município de Paraty.

Cidade de grande potencial turístico, que permaneceu isolada até o início da década de 70, encravada entre as cidades brasileiras de maior poder aquisitivo, o que leva a sua população nativa a conviver com padrões de consumo inimagináveis para eles. Por outro lado, devido aos padrões econômicos locais, as mercadorias ali produzidas tem custo bastante acessíveis aos turistas, gerando uma demanda, em épocas de pico, muito grande e criando com isso bolsões de renda totalmente artificiais. Assim, com a valiosa contribuição da antena parabólica e do discurso da globalização, a população nativa é estimulada a consumir produtos que requerem recursos financeiros fora de seus padrões cotidianos.

Repete-se o ciclo perverso ali presente desde a chegada dos primeiros europeus. Se antes a Mata Atlântica foi trocada por quinquilharias e derrubada para tingir os trajes de reis e rainhas europeus, agora está sendo transformada em material de construção para casas de veranistas, áreas de lazer, iguarias nas mesas dos mais abastados, em troca de tênis de marcas famosas, walk-man, óculos escuros, drogas, etc. Com a recessão instalada em nosso país e o péssimo estado das estradas, o fluxo turístico tem se reduzido consideravelmente.

Uma outra fonte de renda da região foi, durante muitos anos, o cultivo da banana prata. Essa prática era tão intensa que nos mapas do IBGE estão assinaladas as áreas de plantação de banana intercaladas com a floresta.

Devido a dificuldade de comercialização, essa prática foi abandonada há alguns anos. Esse fato, associado a uma vigilância mais constante e criteriosa da polícia florestal e do IBAMA, permitiu que o ecossistema reiniciasse um reflorestamento espontâneo.

A queda do fluxo turístico e a interrupção da comercialização da banana provocaram um brusca queda na renda "per capta" da região, gerando, dentre outras coisas, uma insatisfação enorme na população nativa, dentre outras questões, por não fazer parte do mundo Global.

Bastou que esse boato da iniciativa do Governo Estadual de incentivar a comercialização da banana tomasse algum cunho de verdade, associado a interrupção das fiscalizações da polícia florestal e do IBAMA para que fossem reiniciadas as queimadas, que voltássemos a escutar o zumbir das motos serras, que jequitibás seculares tombassem enfraquecidos por misteriosas pragas, reiniciando o ciclo da devastação...

Nós, do Instituto Paulo Freire, temos proposto como uma alternativa (para discussão) um Programa Piloto de Desenvolvimento Sustentável, por nós intitulado Vivendo com a Mata Atlântica, onde são pensadas ações, interdisciplinares e multidisciplinares, nas áreas de educação, saúde, geração de renda e preservação, uma vez que entendemos que não é possível alcançarmos o objetivo final, o bem-estar comum, desprezando qualquer uma dessas temáticas.

Assim, como alternativa para geração de renda, propomos a produção de alimentos com a farinha de banana. Com isso, aproveitamos o potencial econômico das plantações de banana já existentes da região, valorizando o produto final pelo beneficiamento da produção, gerando empregos em diferentes segmentos sociais, com a instalação de pequenas agroindústrias e contribuindo com a preservação a Mata Atlântica, uma vez que a farinha de banana é produzida a partir da banana de vez, o que possibilita seu cultivo em área sombreada, permitindo assim não só o reflorestamento dos bananais existentes, como a expansão do cultivo no interior da floresta.

Temos clareza que essa ainda não vem a ser a solução ideal e nem a definitiva, tendo em vista que a bananeira não é nativa da Mata Atlântica; que qualquer atividade econômica, por nós conhecida, no interior da floresta (que não seja de contemplação, pesquisa, mesmo assim feitas a partir de um planejamento bastante criterioso), por si, só agride ao sutil equilíbrio desse ecossistema.

Somente como exemplo da fragilidade desse equilíbrio, estamos vivendo uma transformação alarmante e que, entendemos, não vem sendo dada a devida importância. O mosquito conhecido como borrachudo, característico daquela região, desapareceu há quase um ano, ressurgindo atualmente muito timidamente. Misteriosamente, os mosquitos pólvora e o pernilongo, até aqui praticamente inexistentes na região, têm aparecido com uma freqüência, também, alarmantes.

Sem querer entrar em reflexões mais profundas a respeito da gravidade desse fato, mas tentando contextualizá-lo para enriquecer nossa reflexão, além dos incômodos causados aos habitantes locais, uma vez que os nativos já sabiam como lidar com o borrachudo, o borrachudo não transmite nenhum tipo de doença para o ser humano, enquanto o pernilongo, transmite várias.

Assim, a troca desses dois pequeninos e aparentemente insignificantes cohabitantes da Mata Atlântica traz perigos impossíveis de serem detectados nesse momento. Somente daqui há alguns anos, quando começarem a surgir endemias na região, saberemos as conseqüências desse fato e aí todos sentirão saudades do borrachudo e, talvez, se preocupem em pesquisar os motivos de seu desaparecimento.

Acreditamos que é chegada a hora de deixarmos de lado sentimentos menores, arregaçarmos as mangas, unirmos nossos saberes, quereres e fazeres e para realizarmos um trabalho sério e criterioso.

Não é mais uma questão de solidariedade, caridade e nem de disponibilidade mas, sim, de necessidade.

(*) Paulo Silveira é engenheiro mecânico, com mestrado em propulsão de foguetes, cursos de especialização em refrigeração industrial nos USA e na Suíça, autor, dentre outros, e organizador do livro Exercício da Paternidade, ed. Artes Médicas".membro do Instituto Paulo Freire, da Associação dos Produtores Rurais do Corisquinho e da Associação dos Moradores do Corisco. email: vcama@ig.com.br

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