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03027051001 - Environment Justice x Finance - Balanço Ambiental - 5 de Junho - Dia Internacional do Meio Ambiente - Testemunha ocular da história - Por Serrano Neves

06/06/00 01:12:51

Environment Justice x Finance - Balanço Ambiental

5 de Junho - Dia Internacional do Meio Ambiente

Testemunha ocular da história

Por Serrano Neves*

  Na minha infância costumava passar férias na fazenda de um tio avô conhecido na região como Coronel Neca Dias. Não cheguei a ficar sabendo se era coronel por patente comprada como era comum, ou porque era rico e poderoso.

Localizada numa região montanhosa de Minas Gerais, o pasto era de capim gordura nativo, e nele eu e meus companheiros abríamos túneis para brincar de exploradores de cavernas.

A riqueza do coronel se assentava, salvo engano, no café, mas o que me chamava a atenção era a modelagem no entorno dessa cultura.

A fonte de energia era um rêgo que movia uma roda d'agua. A roda tocava um monjolo (engenho tosco empregado geralmente para descascar arroz); um moinho de milho, de mós de pedra, para produzir fubá; algumas máquinas de serraria; e um gerador de eletricidade que só era acionado quando o coronel estava na fazenda.

A maioria dos trabalhadores eram colonos. Tinham suas casas com quintal, suas galinhas e porcos, suas culturas de subsistência da boca e uma roça maior para fazer poupança.

O prato de resistência nas mesas era angú de fubá de milho, feijão e gordura de porco. Nas merendas (lanches) a broa de fubá de milho.

Comia fubá o homem, comia quirera o pinto, comia milho a galinha, e o porco engordava com soro de leite e fubá.

Não havia fome nem escassez, pois as tulhas aguentavam pelo menos um ano sem colheita.

Porcos eram criados à larga em mangueiros e alimentavam-se na natureza quando não era época de mangas (frutas).

Durante todo um ano ninguém pensava em dinheiro, vez que esse só aparecia quando o coronel comercializava a safra. Findo o ano rural acertavam-se as contas, faziam-se as compensações, descontavam-se os vale-coisa e, com dinheiro na mão lá ia o colono levando a família para a cidade em um carro de boi. De volta trazia duas peças de pano, uma para calças e saias e outra para blusas e camisas, e mais um ou dois pacotes de macarrão e alguns pães para fazer luxo para a boca.

Um mês depois, quando o padre lá ia para rezar a missa, a família inteira comparecia vestida igualmente com os mesmos panos.

Lembro de um ditado que expressava o orgulho do fazendeiro auto-sustentável: "Da minha porteira para dentro só entra o sal, o fósforo e o querosene".

De um tudo com fartura para todos. Frutas das mais variadas a perder por enfastio. Doces mil guardados em quartas (latas de 18 litros) e servidos às conchadas.

Cada criança recebia um litro de leite por dia, e adultos podiam beber o que aguentassem durante a ordenha que o fazendeiro não fazia conta.

As águas da chuva corriam sem produzir voçorocas porque seus leitos eram construídos com enxadão e um notável instinto da linha de menor declividade. Amarrava-se um nível de pedreiro no cano de uma espingarda e, mirando, o ponto de nível era marcado.

Remédios de botica eram raros, rareados que eram pela saúde. Crianças vermifugadas com mastruço, estomagos acalmados com espinheira santa, rabo de tatu (raiz de tomba) e folhas de saião; as flores brancas (corruptela dos fluores brancos que acometiam as mulheres) eram tratados com barba-timão (uso externo) e casca de agoniada (uso interno); corte de prego ou arame enferrujado era tratado com estrume récem excretado (forte presença do ozônio hostil ao anaeróbico bacilo do tétano).

Ao entardecer, agachado junto a um portal, o homem, enquanto cortava e enrolava o fumo na palha de milho, lia os sinais da natureza para programar o dia seguinte: a cor do por do sol, o voo e o canto dos pássaros, a direção do vento etc.

Ao amanhecer, de novo lia na natureza: neblina na baixa sol que racha, neblina na serra chuva na terra; gado subindo para o morro era sinal de chuva com cheia nas vazantes.

De todas as lembranças, uma está ligada aos meus infantis sentimentos: sem sobra de dúvida eu via que eram felizes.

Serrano Neves é Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado de Goiás e Consultor de Conteúdo do Site UJGOIAS - Universo Jurídico do Estado de Goias email: serrano@cultura.com.br


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