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03027080002 - Environment Justice x Finance - Roraima - Portal do BEM - Brazilian Environmental Mall - http://www.bem.com.br - Associação Amazônia - Comprando 1/3.000 da Amazônia -Por Ricardo Kohn de Macedo 01/07/00 08:35:50

Environment Justice x Finance - Roraima
Portal do BEM - Brazilian Environmental Mall
http://www.bem.com.br

Associação Amazônia - Comprando 1/3.000 da Amazônia

Por Ricardo Kohn de Macedo*

Este domingo (28/05), pela manhã assisti a um rápido jornal na TV a cabo. Dez minutos de agradáveis notícias: aumenta a tensão entre a Etiópia e a Eritréia, russos e guerrilheiros continuam a se matar, a Líbia fica atenta à retirada das tropas israelenses, Israel continua a policiar as áreas junto às colinas de Golan, os oposicionistas radicais nas Ilhas Fidji impõe novas condições ao governo estabelecido para liberar parlamentares seqüestrados, a guerrilha colombiana impõe condições ao governo para não me lembro mais o quê, e por aí seguiu a apresentadora, sempre com um leve e amável sorriso em seus belos lábios, o que tão bem nos faz em todos as manhãs - os lábios.

Depois segui rumo aos jornais que leio diariamente. Em um deles, chamou-me a atenção a notícia com o título "ONG comprou área superior à Bélgica em Roraima", tendo como epígrafe "Dinheiro vem principalmente da Europa. Governador diz temer internacionalização da Amazônia. Câmara cria CPI".

Lendo o texto, verifica-se que constitui uma matéria híbrida, porque não fornece condições ao leitor para entender, sequer, o que talvez seja certo e o que talvez seja errado. Muita informação, mas todas incompletas. Ao mesmo tempo em que é sensacional e pseudo-nacionalista, dado que tenta demonstrar que uma Bélgica inteira1 foi adquirida por uma ONG de gringos a preço de bananas na região amazônica, mostra como a política da mesma ONG com relação aos moradores locais atendidos é benéfica, tanto em termos sociais, quanto ambientais. Dá dinheiro e cesta básica para todos. Em troca, deseja ensinar a preservação daqueles santuários e dos recursos ambientais neles existentes. Para os desconfiados, não resta dúvida de que a proposta, por ser tão incomum, soa meio marota...

A notícia começa afirmando que a ONG adquiriu 172 mil hectares, no sul do Estado de Roraima. Depois, apresenta a fala do delegado da Polícia Federal, Sr. Oscar Yuiti Kouuti, que atesta que a área comprada pelos gringos é de 70 km por 40 km. Pelo menos uma dessas informações está incorreta: ou tem 172 mil hectares (1.720 km2) ou tem 70x40 km (2.800 km2). Optamos pela primeira, que eqüivale a cerca de 1/18 avos da Bélgica.

Mas de qualquer forma, o fato de uma ONG estrangeira adquirir uma grande área amazônica para um projeto de preservação e conservação ambiental não deveria causar mais espanto do que qualquer outro tipo de aquisição, realizada por empresários brasileiros ou não, em qualquer parte do território brasileiro, com qualquer finalidade. As gigantescas áreas de poucos fazendeiros no norte do Estado de Mato Grasso - Amazônia Legal Brasileira -, por exemplo, não criam páginas no noticiário, nem CPI na Câmara.

O fato de a área adquirida pela Associação Amazônica ser maior do que a Bélgica, conforme alardeia o jornal, somente seria espantoso e temerário se o Brasil fosse do tamanho da Holanda. Até porque, a região adquirida pela ONG é apenas 0,34% da área amazônica brutalmente degradada por desmatamentos e queimadas nos últimos 20 anos, ora para finalidades escusas, ora para negócios economicamente inviáveis. Segundo o INPE, a Amazônia sofreu um deflorestamento de mais 520.000 km2, de 1978 a 1998. Diante disso, há que se admitir que adquirir um tasquinho de 1.720 km2 para preservar, além de não ser nada em termos territoriais, é ótimo em termos ambientais.

Mas os efeitos de uma ocorrência desta natureza são significativos. Diferentemente de quando uma grande madeireira da Malásia (que fim a levou, alguém sabe?) instalou-se na Amazônia Brasileira, evidentemente com objetivos de transformar grandes áreas brasileiras em serragem, assim como já havia feito em território asiático, a aquisição de áreas por ONG causam reações imediatas e coléricas. Por que será?

Será porque o volume de dinheiro envolvido na exploração da madeira é gigantesco? A atuação das ONG, nacionais e internacionais, envolvem somas bem menores. A atuação das madeireiras em geral, com raras exceções, quando diante da maior mina natural de madeira do planeta, evidentemente visam lucros, no menor espaço de tempo possível. Também são raras aquelas madeireiras que são internacionalmente certificadas e que utilizam processos seletivos auditoráveis, aplicando métodos e tecnologia que permitam a conservação e a reabilitação ambiental das áreas exploradas.

As ONG, via de regra, além de não terem este tipo de atuação (a menos que hajam sido fundadas por madeireiros ou garimpeiros), têm o hábito (desagradável aos ouvidos de muitos políticos) de ter discursos preservacionistas, ora implícitos em sua maneira de trabalhar, ora publicados pela mídia em geral. Como disse deputado Micheletto, há cerca de duas semanas, falando sobre a WWF e o ISA, elas "têm ranço ambientalista".

Em síntese, grande parte das ONG desejam a preservação e a conservação nos cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de Amazônia Brasileira. As madeireiras, por sua vez, na sua maioria, desejam transformar essa mesma área em polpudas contas bancárias, muitas vezes deixando para trás os efeitos da devastação realizada. Há um conflito evidente entre as duas partes interessadas. E onde entram prefeitos, governadores, parlamentares, ministros e executivos de empresas públicas nesta discussão?

Dividem-se. Mas assim como o governador de Roraima, Sr. Neudo Campos, que, segundo a mesma notícia do jornal, está muito preocupado com a demarcação da Reserva Indígena Raposa - Serra do Sol, vários políticos dão as mãos neste mesmo sentido. Não é difícil concluir que seus comportamentos estão muito mais afinados com o desejo e resultados da exploração amazônica do que com os desejos de sua preservação. Certamente todos se recordam que, há pouco tempo atrás, um governador amazônico afirmou publicamente o seu desejo de distribuir moto-serras para o povo. Fabuloso, fantástico, criativo, digno do espírito das florestas...

Quanto à epígrafe da notícia, que aponta para os pontos considerados mais cruciais da matéria, verifica-se a permanente desculpa de considerar qualquer movimento como uma ameaça para a internacionalização da Amazônia. É similar à fala do pilantra que, sendo pego com a boca na botija, na primeira entrevista que concede, afirma, com voz empostada e olhar soberano: "Tudo isso não passa de um movimento mesquinho da oposição, já derrotada por nossas bases, tentando me fragilizar perante a opinião pública".

Não se dispõe de informação de quanto da Amazônia Brasileira foi adquirido por capital estrangeiro. Mas, segundo o Sr. Gilberto Mestrinho, somente 23% daquele território é propriedade privada. Assim sendo, acredita-se que a compra de mais 1.720 km2, significando menos de 1/3.000 partes do território amazônico, não é motivo para pensar em ameaças de internacionalização da região. Até porque, pelo andar de nossas carruagens da degradação ambiental, se tal ocorrência suceder, decerto os brasileiros serão os últimos a serem avisados.

Quanto à origem do capital aplicado na compra da área, só nos resta sentir vergonha. Empresários e governos italianos, franceses, americanos, ingleses, alemães e japoneses, dentre outros, sabem perfeitamente da importância e da riqueza da Amazônia. Se a ONG Associação Amazônia recebe apoio financeiro de diversos países, é porque ela possui projetos capazes de captar recursos, diferentemente de alguns órgãos públicos. Enquanto isso, parece que os empresários e políticos locais apenas observam a Amazônia como uma maravilhosa montanha de madeira a ser derrubada e comercializada. Poucos são os empresários brasileiros que realizaram ou tencionam realizar investimentos para a preservação, a conservação e a exploração ecoeficiente da Amazônia.

Por fim, nada melhor do que criar um clima e montar uma CPI. Nelas são feitas inúmeras descobertas, criam-se assuntos novos para a mídia, algumas lideranças incômodas podem ser afastadas, eventualmente sacrificam-se algumas almas para dar exemplos vivos e, naturalmente, ganha-se um extra, porque, afinal, trabalha-se mais e ninguém é de ferro.

[1] O enviado especial do jornal, redator da notícia, deveria ter mais cuidado ao fazer comparações para auxiliar ao leitor menos informado a avaliar o tamanho dos territórios. A área adquirida pela ONG é cerca de 18 vezes menor do que a Bélgica. A Bélgica possuía, pelo menos até ontem, um território de 30.507,1 km2. A comparação e o uso aleatório da Bélgica - sabe lá por que motivo - foram bastante infelizes, especialmente em um título de página em letras garrafais, com destaque em negrito.

Ricardo Kohn de Macedo é consultor interancional na área da gestão ambiental, Direitor executivo da Kohan-Saagoyen Lrda, Diretor Executivo do Portal do BEM, Brazilian Environmental Mall  http://www.bem.com.br - mailto:rkohn@ksnet.com.br


"A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo"     Peter Drucker

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