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03027090003 - Environment Justice x Finance - Fundação Gaia - www.fgaia.org.br - 3a. Parte - Outubro/1998 - O Absurdo da Agricultura Moderna (3) - Por José A. Lutzenberger 09/08/00 02:47:33

Environment Justice x Finance

Fundação Gaia - www.fgaia.org.br   - 3a. Parte

Outubro/1998

O Absurdo da Agricultura Moderna (3)

Por José A. Lutzenberger*

Dos fertilizantes químicos e agrotóxicos à biotecnologia

É tempo de acabar com a mentira de que apenas a agricultura promovida pela tecnocracia pode salvar a humanidade da inanição. O oposto é verdadeiro.

É preciso uma nova forma de balanço econômico que, a medida que soma o que é chamado "produtividade" ou "progresso" na agricultura, também deduza todos os custos: as calamidades humanas, a devastação ambiental, a perda da diversidade biológica na paisagem circundante e a ainda mais tremenda perda de biodiversidade em nossos cultivares. Este segundo aspecto será agora enormemente agravado com a biotecnologia dominada pelas grandes empresas, como veremos mais adiante. E, mais importante e decisivo, a não sustentabilidade disto tudo. Temos o direito de agir como se fóssemos a última geração?

No caso de operações industriais envolvendo galinhas é fácil ver como tais métodos destrutivos se desenvolveram. Estou falando do que observo no sul do Brasil – o Brasil é um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o Oriente Médio e Japão. A partir de esquemas muito simples, onde pequenos empresários individuais confinavam galinhas num galpão e as alimentavam com milho, o sistema coalesceu e cresceu até um ponto onde, atualmente, existem em torno de meia dúzia de companhias muito grandes e umas poucas pequenas. Os grandes abatedouros abatem e processam até centenas de milhares de galinhas por dia. Eles operam de acordo com regras impostas por eles, chamadas por eles "integração vertical". O "produtor" assina um contrato onde aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, ração e drogas da companhia. Mesmo que ele seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, ele está proibido de usá-la para alimentar suas galinhas. Ele é obrigado a comprar a ração pronta, mas pode vender o seu milho para a fábrica de ração que pertence à mesma companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos. Estes operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas onde os prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos, elas podem se mover livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os ovos. Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola, sobre uma grade de arame e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas, eles são de marcas registradas e são híbridos. Assim como o milho híbrido, não podem ser reproduzidos com manutenção de características raciais.

Após comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, ele poderá vender somente para a mesma. O produtor não é autorizado a vender a empresas concorrentes, estas não comprariam. Assim, ele pode ter a ilusão de ser um pequeno empresário autônomo, mas sua situação real é a de um operário com horas de trabalho ilimitadas, sem fins-de-semana, feriados nem férias e ainda tem que pagar sua própria previdência social. Se a grande companhia trabalhasse com empregados de carteira assinada, ela não poderia fazê-lo, seria muito caro e muito arriscado. Desta maneira deixam todos os riscos com o produtor: perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos, choque de calor, um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados galpões, e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da companhia no trajeto ao abatedouro são também descontadas. Os seus lucros também diminuem constantemente com o crescente preço dos insumos e a queda do faturamento com as vendas. A margem do produtor é tão apertada que, mesmo se tudo for bem, mas se for preciso alimentar os animais mais alguns dias, o lucro pode evaporar ou mesmo se transformar em perda. Esta é uma ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas prontas de acordo com sua própria conveniência. Mas se a companhia obtém lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor...?

Portanto, os campos de concentração de galinhas não têm nada a ver com maior produtividade para ajudar a salvar a Humanidade da inanição – de fato, eles contribuem ao problema – mas eles concentram capital e poder pela criação de dependência.

Estes métodos não foram inventados pelos agricultores. É impensável que um agricultor em uma cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar massissamente suas galinhas com grãos, a menos que fossem grãos estragados, e isolá-las de sua fonte natural de alimentos, desta maneira desperdiçando parte da capacidade de sustentação do solo para humanos, destruíndo ao mesmo tempo parte de sua colheita. Estes métodos também não são resultado concatenado de uma conspiração pela tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma "semente" inicial que pode ter tido uma intenção completamente diferente. Neste caso, como foi na agroquímica também, era o esforço de guerra. A conspiração cresceu depois ao longo do tempo. Durante a última Guerra Mundial, o governo americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de grãos, o qual conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da agricultura procuraram "consumo não humano" para os grãos... Integração vertical" é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de poder. Em breve eles encontrarão maneiras de banir – por meio de legislação especial – a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores independentes. Já foi tentado, sem sucesso, mas, por dispositivos legais especiais, conseguiu-se tornar muito difícil para pequenos agricultores a venda de ovos no mercado aberto.

No caso do milho híbrido, também não existia conspiração no início, ela veio mais tarde. Geneticistas descobriram que pelo cruzamento de duas variedades super-puras de milho – variedades obtidas após oito a dez gerações de autofecundação – se obtém plantas de alta produtividade e uniformidade perfeita. Deve ter sido uma decepção quando descobriram que as variedades não eram estáveis. Após ressemeadura, as variedades dessegregam de acordo com as leis de Mendel. A nova colheita era caótica – pés de milho pequenos e grandes, uma espiga, muitas espigas, cores, formas e qualidades de grãos diferentes. Mas, do ponto de vista do vendedor de sementes, era uma verdadeira vantagem! O agricultor não mais poderia guardar sua própria semente, tinha que comprar sementes novas a cada ano. O vendedor não precisava sequer da proteção de uma patente.

Felizmente na maioria dos cultivos, especialmente grãos como trigo, cevada, centeio e aveia, este tipo de hibridização ainda não é economicamente viável para os geneticistas. Eles estão tentando com todas as culturas que podem. Funciona com galinhas. No sul do Brasil foi necessário fundar uma associação com o objetivo de preservar as raças tradicionais de galinhas. A maioria estão agora em perigo de extinção. Algumas já se foram. Somente as cepas registradas de galinhas híbridas não estão ameaçadas (enquanto durar a loucura dos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos). Quanto ao milho, quase todas as variedades tradicionais se foram. Se um agricultor quer plantar uma delas não ganha o crédito do banco. Apenas as variedade "registradas" são aceitas.

Atualmente, a manipulação genética direta, chamada biotecnologia, que opera a nível de cromossomo, permite que o especialista assuma o controle, tirando-o do agricultor. Mas, como a maioria dos produtos resultado da manipulação genética direta não dessegregam na reprodução, como no caso dos híbridos naturais, é preciso patentes. Retornaremos a este assunto.

Vejamos como nasceu a agroquímica.

Até final dos anos quarenta a pesquisa em agricultura visava soluções biológicas. A perspectiva era ecológica, embora mal se falasse em ecologia. Se esta tendência tivesse podido continuar, teríamos hoje muitas formas de agricultura sustentável, localmente adaptadas e altamente produtivas. Começando nos anos cinqüenta a indústria conseguiu fixar um novo paradigma - nas escolas, na extensão e pesquisa agrícolas. Vamos chamá-lo paradigma NPK + V. NPK corresponde a Nitrogênio, Fósforo, Potássio, o V significa veneno.

Os fertilizantes comerciais se tornaram um grande negócio depois da primeira guerra mundial. Logo no começo da guerra, o bloqueio Aliado cortou o acesso dos alemães ao salitre chileno, essencial para a produção de explosivos. O processo Haber Bosch para fixação de nitrogênio a partir do ar, mencionado acima, era conhecido mas ainda não tinha sido explorado comercialmente. Os alemães montaram então uma enorme capacidade de produção e conseguiram lutar por quatro anos. O que seria o mundo se este processo não tivesse sido conhecido? A primeira guerra mundial não teria realmente se desencadeado, não teria acontecido o Tratado de Versalhes, e portanto não teria havido Hitler...! Como uma tecnologia pode mudar o curso da história!

Quando a guerra acabou, havia enormes estoques e capacidade de produção mas não havia mais grande mercado para explosivos. A indústria então decidiu empurrar fertilizantes nitrogenados para a agricultura. Até então os agricultores estavam bastante satisfeitos com seus métodos orgânicos de manutenção e aumento da fertilidade do solo. O guano e o salitre chileno eram usados de maneira muito limitada, principalmente em cultivos muito especiais, especialmente em jardinagem intensiva. Os fertilizantes nitrogenados na forma de sais quase puros e concentrados, fertilizantes à base de nitrato e amônia, de certa forma viciam, quanto mais se usa mais se precisa usar. Logo se tornaram um grande negócio. Então a indústria desenvolveu um espectro completo, incluindo fósforo, potássio, cálcio, microelementos, mesmo sob a forma de sais complexos, aplicados na forma granulada, algumas vezes de avião.

José Lutzenberger* é Ambientalista gaúcho, conhecido e respeitado mundialmente por suas lutas conservacionistas, as quais começou no início da década de 70. Ultimamente, tem concentrado seus esforços na defesa de um desenvolvimento sustentável, principalmente na agricultura e no uso dos recursos não renováveis, procurando alertar sobre os perigos que a globalização, nas suas atuais tendências, representa para a humanidade a nível ecológico e social. e-mail: fundgaia@zaz.com.br

O artigo  "O Absurdo da Agicultura Moderna" foi publicado:

Artigo "The Absurdity of Modern Agriculture: From Chemical Fertilizers and Agripoisons to biotechnology" no livro "The Meat Business – devouring a Hungry Planet", editado por Geoff Tansey e Joyce D’Silva em Londres (Earthscan Publications Ltd) em 1999.

Artigo "Die Absurdität der modernen Landwirtschaft" (tradução do original em inglês) no livro "Ernährung in der Wissensgesellschaft – Vision: informiert essen", de Franz-theo Gottwald. Editora Campus, 1999, Alemanha.

Publicado numa revista alemã sobre energias renováveis de Hermann Scheer, importante político alemão, em 1999.

Maio de 2000 – publicação do artigo "O Absurdo a Agricultura Moderna" na edição nº 9 de maio de 2000 do "Jornal Cultura & Cia." de Porto Alegre.

Em junho, por ocasião da movimentação gerada em torno do julgamento de José Bové, o texto foi traduzido para o francês e divulgado na cidade de Millau em apoio à causa de Bové e seus companheiros.

Tradução: Grupo PET/CAPES/UNISINOS – Geologia

Bolsistas: Tatiana Rennau dos Santos, Fabrício M. Ely, Daniel P. Travassos, Paulo Martins Filho, Daniel B. Carvalho, Marina Heckeler, Tiago de Almeida,  Rafael L. Dessart e Iberê G. Schier.

Professor Orientador: Luiz Henrique Ronchi

Revisão da tradução com algumas atualizações: José A. Lutzenberger e Lilly Charlotte Lutzenberger – março de 2000


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