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03027090004 - Environment Justice x Finance - Fundação Gaia - www.fgaia.org.br - 4a. Parte - Outubro/1998 - O Absurdo da Agricultura Moderna (4) - Por José A. Lutzenberger 09/08/00 02:55:31

Environment Justice x Finance

Fundação Gaia - www.fgaia.org.br   - 4a. Parte

Outubro/1998

O Absurdo da Agricultura Moderna (4)

Por José A. Lutzenberger*

Dos fertilizantes químicos e agrotóxicos à biotecnologia

A Segunda Guerra Mundial deu um grande empurrão para uma pequena e quase insignificante indústria de pesticidas e realmente a projetou para a produção em grande escala. Hoje o equivalente a centenas de bilhões de dólares em venenos são espalhados sobre todo o planeta. Durante a Primeira Guerra Mundial gás venenoso foi usado apenas uma vez, com efeitos devastadores para ambos os lados, e por isso nunca mais foram empregados. Durante a Segunda Guerra Mundial gases não foram aplicados em batalha, mas muitas pesquisas foram desenvolvidas. Bayer, entre outros, estava neste jogo. Ela desenvolveu os ésteres do ácido fosfórico. Depois da guerra eles tiveram uma grande capacidade de produção e estoques e concluíram que o que mata gente também mata os insetos. Fizeram novas fórmulas e as comercializaram como inseticida.

O DDT era conhecido como uma curiosidade de laboratório. Quando Müller, na Geigy, descobriu que matava insetos sem, aparentemente, afetar as pessoas, alertou as forças armadas americanas que estavam sofrendo com a malária no Pacífico, enquanto lutavam com os japoneses. Usaram-no de forma totalmente descuidada, convencidos de que era inofensivo, espalhando-o sobre paisagens inteiras e até dentro de casas e sob a vestimenta das pessoas.

Pouco antes do fim da Guerra no Pacífico um cargueiro americano estava a caminho de Manila com uma carga de potentes fitocidas (biocidas que matam plantas) do grupo 2,4-D e 2,4,5-T. A intenção era matar de fome os japoneses destruindo suas colheitas através da pulverização do veneno desde o ar. Tarde demais. O barco teve ordem de voltar antes de chegar. Outro grupo de americanos acabara de jogar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, uma terrível história que todos nós conhecemos, e os japoneses assinaram o armistício. Mesma história: grande capacidade de produção, enormes estoques sem compradores. A substância foi reformulada como "herbicida" e descarregada nos agricultores. Depois, durante a guerra do Vietnam, as Forças Armadas Americanas impiedosamente espalharam o que eles chamaram de "Agente Laranja" (e outras cores) sobre milhões de hectares de floresta tropical, pretendendo fosse somente um desfoliante para tornar visíveis as forças inimigas. De fato, estas formulações continham grandes concentrações de 2,4,5-T que destruiam totalmente as florestas.

A indústria, querendo preservar em tempo de paz o que tinha sido um grande negócio em tempo de guerra, conseguiu dominar quase completamente a pesquisa agrícola para redirecioná-la para seus próprios objetivos. Conseguiu cooptar a pesquisa e extensão agrícola oficial, assim como escolas e, fazendo "lobby" a favor de legislação ou regulamentação adequadas e criando esquemas bancários de crédito (aparentemente) fácil, colocaram o agricultor numa posição na qual dificilmente sobravam outras alternativas. Atualmente, o paradigma agroquímico é aceito quase sem questionamentos nas escolas agrícolas, na pesquisa e extensão. A maioria dos agricultores acredita nele e, freqüentemente, quando marginalizada, se culpa a si mesma por sua incapacidade para competir.

Tudo isso veio a existir não como uma conspiração deliberada por pessoas de mentes diabólicas, desenvolveu-se e estruturou-se de oportunismo em oportunismo. A medida que uma nova técnica, processo ou regulamentação dava vantagem à alguém ou à alguma instituição, a respectiva tecnologia era promovida e ideologicamente consolidada. Alternativas que não encaixavam com as crescentes estruturas de poder eram combatidas, ignoradas ou desmoralizadas.

Agora sim, no caso da biotecnologia na agricultura, controlada por grandes corporações transnacionais, parece que temos uma verdadeira conspiração e que os danos serão muito mais irreversíveis do que os sofridos até agora.

O principal problema aqui não é tanto se nossos alimentos se tornarão de qualidade inferior e até nocivos – apesar de que isso possa vir a ocorrer – mas, novamente, trata-se de adicionar ainda mais estruturas de dependência, de dominação, sobre os agricultores que ainda restam e uma limitação de escolhas para o consumidor.

A fantástica diversidade de cultivares que tínhamos e ainda temos hoje, depois das tremendas perdas causadas pela "Revolução Verde" durante as últimas décadas, é o resultado da seleção, consciente e inconsciente, por parte dos camponeses ao longo dos séculos e dos milênios. Pensemos somente na família das crucíferas – repolho, couve chinesa, rabanete, nabo, mostarda, couve-flor, brócoli, colsa e muitos outros. Nenhum destes agricultores jamais solicitou patentes, registro ou certificação...

Agora, indústrias como a Monsanto querem que aceitemos sua manipulação desta riqueza preexistente, como a soja "Roundup-ready", com o argumento de que eles apenas estão dando prosseguimento e acelerando este processo, contribuindo assim para a solução dos problemas para alimentar a Humanidade. Eles insistem mesmo de que não há outra saída. Mas eles sabem muito bem que existem outras alternativas, melhores, mais saudáveis, mais baratas.

Todo mundo sabe que a agricultura deve encontrar caminhos para se afastar dos venenos. Possuímos todos os conhecimentos necessários. Milhares de agricultores orgânicos em todo o mundo são prova disto. Com cultivares resistentes a herbicidas a indústria quer vender pacotes, semente + herbicida, obrigando o agricultor a usar herbicida, mesmo que ele não o necessite, e a usar o herbicida da respectiva empresa. No caso de cultivares com o infame gen "terminator" a conspiração é ainda mais óbvia. Com esse tipo de semente eles nem precisam se incomodar em solicitar patentes. Tudo isto não tem nada a ver com aumento de produtividade, é a culminação do gradativo processo de desapropriação dos agricultores, para transformar os sobreviventes em meros apêndices da indústria. Isto agravará a marginalização, a desestruturação social, a devastação ambiental e a perda da biodiversidade na Natureza e em nossos cultivos, agravará o problema da fome.

 José Lutzenberger* é Ambientalista gaúcho, conhecido e respeitado mundialmente por suas lutas conservacionistas, as quais começou no início da década de 70. Ultimamente, tem concentrado seus esforços na defesa de um desenvolvimento sustentável, principalmente na agricultura e no uso dos recursos não renováveis, procurando alertar sobre os perigos que a globalização, nas suas atuais tendências, representa para a humanidade a nível ecológico e social. e-mail: fundgaia@zaz.com.br

 

O artigo  "O Absurdo da Agicultura Moderna" foi publicado:

Artigo "The Absurdity of Modern Agriculture: From Chemical Fertilizers and Agripoisons to biotechnology" no livro "The Meat Business – devouring a Hungry Planet", editado por Geoff Tansey e Joyce D’Silva em Londres (Earthscan Publications Ltd) em 1999.

Artigo "Die Absurdität der modernen Landwirtschaft" (tradução do original em inglês) no livro "Ernährung in der Wissensgesellschaft – Vision: informiert essen", de Franz-theo Gottwald. Editora Campus, 1999, Alemanha.

Publicado numa revista alemã sobre energias renováveis de Hermann Scheer, importante político alemão, em 1999.

Maio de 2000 – publicação do artigo "O Absurdo a Agricultura Moderna" na edição nº 9 de maio de 2000 do "Jornal Cultura & Cia." de Porto Alegre.

Em junho, por ocasião da movimentação gerada em torno do julgamento de José Bové, o texto foi traduzido para o francês e divulgado na cidade de Millau em apoio à causa de Bové e seus companheiros.

Tradução: Grupo PET/CAPES/UNISINOS – Geologia

Bolsistas: Tatiana Rennau dos Santos, Fabrício M. Ely, Daniel P. Travassos, Paulo Martins Filho, Daniel B. Carvalho, Marina Heckeler, Tiago de Almeida,  Rafael L. Dessart e Iberê G. Schier.

Professor Orientador: Luiz Henrique Ronchi

Revisão da tradução com algumas atualizações: José A. Lutzenberger e Lilly Charlotte Lutzenberger – março de 2000


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